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Arroz de festa, ex-estagiário de TV e motivador: Klopp desafia o Real

Andrew Yates/Reuters
Imagem: Andrew Yates/Reuters

Caio Carrieri

Colaboração para o UOL, em Kiev (UCR)

25/05/2018 04h00

Meses antes da consolidação do fenômeno Mohamed Salah e de chegar à final da Liga dos Campeões contra o Real Madrid, neste sábado, em Kiev (UCR), o Liverpool vivia dias de apreensão. Na noite em que Philippe Coutinho foi finalmente negociado com o Barcelona, em janeiro, Jürgen Klopp recebeu funcionários do clube em casa para uma confraternização. Preocupados com a saída da então referência técnica do time, os colaboradores só se tranquilizaram ao ouvir da boca do anfitrião que, apesar da perda significativa do Pequeno Mágico, o time era muito promissor.

Extremamente competente e preciso com as palavras, Klopp já havia mobilizado os bastidores dos Reds em outros momentos. Um dos mais marcantes, segundo interlocutores no elenco, foi quando reuniu todo o plantel e o estafe de Melwood, centro de treinamento, logo que chegou na Inglaterra, em outubro de 2015. Diante de todos os presentes na sala de imprensa, perguntou aos jogadores:

“Vocês sabem o nome deles?”, indagou, apontando para os responsáveis pela cozinha, pela limpeza e pelo gramado do complexo.

Desde então, as atitudes do treinador só reforçaram o bom ambiente. Em mais de uma oportunidade, o alemão de 50 anos fez questão de manter festas pós-derrotas que em outra época seriam canceladas por falta de clima. Isso não significa, no entanto, que o comandante não tenha se surpreendido com algumas diferenças culturais ao se relacionar com os funcionários fora do CT.

“Um dia convidei todo mundo lá para casa e disse ‘Vejo vocês às 19h’. Nesse horário, apenas os alemães tinham chegado. Quando eu pensei que os outros não iriam mais, eles apareceram, bêbados”, contou, aos risos, em entrevista recente à BBC.  

Surpresa para Tinga na Alemanha

Roberto Firmino e Coutinho não foram os primeiros brasileiros que Klopp treinou. Ao trocar o modesto Mainz 05 pelo Borussia Dortmund, em 2008, o técnico iniciou um processo gradativo de rejuvenescimento do elenco no Vale do Ruhr. 

Com duas temporadas transcorridas, o planejamento de liberar os mais experientes em troca de sangue jovem atingiu o ex-volante Tinga, então com 32 anos. Avisado pela diretoria que não seguiria no Dortmund, o meia foi surpreendido por Klopp no dia seguinte.

Tinga pelo Dortmund - AP Photo/Martin Meissner - AP Photo/Martin Meissner
Imagem: AP Photo/Martin Meissner
“Éramos vizinhos. Eu estava indo para o treino com o meu motorista e, por coincidência, o Klopp embicou o Porsche dele atrás do meu carro”, relembra. “Ele buzinou e me chamou para ir de carona com ele. Aquilo foi um choque para mim, uma mistura de sentimentos. Só que assim que eu sentei no carro, ele perguntou como eu estava, quais eram os meus planos e explicou que não tinha nada pessoal contra mim”, conta.

“Tivemos vários embates e discussões sobre o jeito que ele queria que o time jogasse, porque eu era um jogador de posse de bola, e ele sempre gostou muito da transição rápida", explica. "É um cara muito inteligente, com muito carisma e personalidade. Firme na hora que tem de ser firme, engraçado no momento certo, mas sempre muito sincero”, acrescenta. “Com ele, aprendi que no futebol devemos discutir os processos e não as pessoas”.

Tinga compartilhou vestiário com o ex-lateral Dedê, maior brasileiro da história do Dortmund, com 322 partidas e jogo de despedida com mais de 80 mil pessoas. Muito respeitado na Alemanha, Dedê aponta qual é a maior virtude do finalista da Liga dos Campeões.

“É o treinador que melhor sabe se comunicar entre todos com quem eu trabalhei. Até por isso, o forte dele é a motivação. O auxiliar (Zeljko Buvac), que deixou de trabalhar com ele há pouco tempo, era quem passava 50% dos treinamentos”.

No Dortmund, Klopp foi bicampeão da Bundelisga, da Supercopa e também conquistou a Copa da Alemanha. Em 2013, amargou o vice da Champions para o rival Bayern de Munique. Até hoje ele evita assistir aos lances daquele dolorosa noite em Londres.

A experiência na televisão

De atacante a zagueiro, Klopp nunca ergueu um troféu como atleta. “Eu tinha talento de Quarta Divisão e mentalidade de Primeira. No fim das contas, fui um jogador de Segunda Divisão”, resumiu certa vez.

Diante das incertezas no início da trajetória, ele chegou a exercer outras profissões paralelamente. Assim, no início da década de 90 fez três meses de estágio na editoria de esportes da emissora SAT1, na época uma pequena start-up. Formado em Ciências do Esporte pela Universidade de Frankfurt,  ganhou destaque dentro da enxuta equipe a ponto de produzir e conduzir entrevistas.

Jürgen Klopp, jogador do Mainz - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução
Embora nunca tenha atuado na elite do futebol alemão, Klopp é o recordista de jogos (325) pelo Mainz 05, clube ao qual dedicou 18 anos. Foram 11 dentro de campo, seguidos da transição para a chefia da comissão técnica. Com o novato, o Mainz 05 conseguiu o primeiro acesso à Bundesliga, na qual seria rebaixado após o conto de fadas. 

Quando a Alemanha foi escolhida para sediar a Copa do Mundo de 2006, o carismático treinador voltou à TV, desta vez em contato com a audiência nacional da emissora ZDF. Na frente das câmeras outra vez, demonstrou extrema desenvoltura no comando da tela touchscreen para análises táticas. A enorme capacidade de cativar o público o transformou em queridinho dos telespectadores.

No Liverpool, é amado por ser a personificação da torcida na beira do campo. Com socos no ar, caretas de raiva e todas as reações espontâneas inimagináveis para um treinador no tradicional futebol inglês, Klopp é o coração e a alma do desafiante do Real Madrid.

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