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Legado de Taffarel e Dida? Goleiros brasileiros estão em alta na Itália

Filippo Monteforte/AFP
Imagem: Filippo Monteforte/AFP

Fábio Piperno

Colaboração para o UOL

22/10/2017 04h00

No país de Gianluigi Buffon, um dos mais idolatrados jogadores italianos das últimas duas décadas, o prestígio dos goleiros nascidos no Brasil está em alta. Dos 20 times que atualmente disputam a Série A, seis contam nos elencos com brasileiros para a posição.

O grupo reúne Alisson, o titular da seleção e que defende a Roma, Ângelo da Costa, que está no Bologna, Nicolas David, do Hellas Verona, Rafael Cabral, campeão da Libertadores pelo Santos e atual jogador do Napoli, Rafael Pinheiro, também ex-goleiro do Peixe agora no Cagliari e Gabriel, vice-campeão olímpico em 2012 e reserva da revelação Donnarumma no Milan. Mas nem sempre foi assim.

Quando a Itália reabriu a fronteira para estrangeiros em 1980, após mais de dez anos de isolamento, a preferência era para jogadores de linha. Em times de destaque, apenas na década seguinte um brasileiro foi recrutado. O pioneirismo coube a Taffarel, que no início da década de 90 trocou o Internacional pelo Parma. Mais tarde, Dida e Julio Cesar foram campeões continentais pelos rivais Milan e Internazionale, o que reforçou a reputação dos goleiros do país penta mundial. E desde então, a presença de goleiros brasileiros não para de crescer.

Da atual safra, Alisson e Nicolas são titulares em seus clubes. Na temporada passada, o camisa 1 da seleção jogou pouco. Disputou apenas 15 jogos oficiais pela Roma e passou a maior parte do tempo como reserva do polonês Szczesny, atualmente suplente de Buffon na Juventus de Turim. Após a saída do concorrente, assumiu a titularidade e não deixou mais o time.
 

Nicolas, goleiro do Verona - Andrew Medichini/AP - Andrew Medichini/AP
Imagem: Andrew Medichini/AP

A situação de Nicolas é diferente. Revelado pelo Atlético-MG, o goleiro chegou bem antes ao futebol italiano. Está lá desde 2010. Ano passado, foi um dos destaques da equipe do Hellas Verona que conseguiu retornar da Série B. De volta à elite, se mantém como o dono da posição do clube para onde migrou em 2010, após rescindir o contrato que o vinculava ao Galo.

Naquele momento, jogavam na Itália, entre outros, Dida, Júlio César e Doni. Os dois últimos estavam entre os três goleiros que o Brasil levou para a Copa do Mundo de 2010. A crescente presença de brasileiros foi o principal legado deixado por Taffarel no país, diz Nicolas. “Ele abriu a janela para gente. E os italianos perceberam que temos fundamentos muito bons, somos ágeis e trabalhamos como preparadores de goleiros desde a base”.

Mais conhecido na Itália do que no Brasil e com passaporte do país onde trabalha, Nicolas não esconde o desejo de, quem sabe, um dia fazer parte da Azzurra.
“Jogando na Série A esse sonho fica mais perto”. O caminho, no entanto, não será fácil e o sucessor de Buffon já está definido. Após a Copa do Mundo, o herdeiro do ídolo deverá ser o jovem Gigi Donnarumma, de apenas 18 anos e titular do Milan há duas temporadas. “Ele é um fenômeno. É bem alto e mesmo assim muito rápido. É bom demais”.

Se Donnarumma é um fenômeno, Buffon é o melhor do mundo para Ângelo da Costa. “Mantém o mesmo nível há 20 anos. Sou fã dele. Na primeira vez em que nos vimos pedi para tirar uma foto com ele”. Um dos mais veteranos entre os goleiros brasileiros, Angelo está no futebol italiano desde 2007. Na época, defendia o Santo André, quando após um jogo em Salvador contra o Vitória recebeu proposta para atuar na Velha Bota. Quem lhe fez a oferta foi o empresário Oscar Damiani, o que mesmo que conduzia a carreira de Dida. Aceitou o desafio na hora e se transferiu para o Ancona, clube que disputava a Série B.

Após duas temporadas, acertou contrato com a Sampdoria. “Foi uma época bacana, em que disputamos a fase preliminar da Liga dos Campeões e a Liga Europa”. O clube de Gênova teve como principal goleiro nas últimas três décadas Gianluca Pagliuca, o titular da Azzurra vice na Copa de 1994, com quem Angelo se encontrou em Bolonha. “Ele mora na cidade e trabalha no clube como preparador de goleiros das equipes de base. E quem está conosco no profissional é o Luca Bucci, reserva do Pagliuca naquela Copa”.

Na Itália, o treinamento específico é diferente do que ocorre aqui. “Trabalham muito a técnica de defesa, como cair e as saídas do gol. Melhorei bastante aqui”, assegura Nicolas. “Eles dão muita atenção à posição do goleiro no campo. Na Itália, o goleiro é quase um líbero e participa mais do jogo”, diz Ângelo.
No Bolonha, os dois treinadores dos especialistas na posição foram contemporâneos de Taffarel. Bucci chegou a ser reserva do brasileiro no Parma. E Pagliuca estava em campo na final da Copa de 1994, que fez do goleiro do Brasil um dos heróis da conquista do tetra.

Quando chegou ao Parma em 1990, Taffarel já tinha o status de titular da seleção brasileira. Na época, os clubes italianos podiam ter no máximo três estrangeiros em seus elencos, o que inibia a importação de goleiros. O período em que lá esteve coincidiu com a ascensão da equipe, que durante uma década rivalizou com os grandes do país.  Além de contratações caras, o Parma investia bastante na base. Uma das revelações que começavam a despontar nas equipes sub-20 era um goleiro chamado Gianluigi Buffon.

Nem sempre titular, Taffarel chegou até mesmo a ser emprestado para o pequeno Reggiana. Retornou posteriormente ao Parma, onde encerrou a carreira no início dos anos 2000. Mas o grande impulso à contratação de brasileiros ocorreu mesmo a partir de 2000, com as chegadas de Dida ao Milan e, mais tarde, de Julio César à Internazionale. Multicampeão no clube rossonero, Dida deixou a Itália apenas em 2011. Um ano depois, foi a vez de Julio César. E desde a época em que os dois se enfrentavam no grande clássico de Milão, a Itália se tornou a maior importadora de goleiros brasileiros entre os principais centros da bola.
 

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