PUBLICIDADE
Topo

Carioca - 2019

Time da pipa, Bangu vai à semi com estrutura de várzea: varal caseiro e R$ 150 mil/mês

Presidente do Bangu, Jorge Varela, à frente do varal onde secam os uniformes do time - Caio Barbosa/UOL
Presidente do Bangu, Jorge Varela, à frente do varal onde secam os uniformes do time Imagem: Caio Barbosa/UOL

Caio Barbosa

Do UOL, no Rio de Janeiro

20/04/2012 14h00

O Bangu vive dias de sonho às vésperas da semifinal da Taça Rio. Nas ruas que cercam o Estádio Proletário Guilherme da Silveira, popularmente conhecido como Moça Bonita, no pacato e afastado bairro da zona oeste do Rio, carros de som a todo momento circulam com o hino do clube às alturas. A curiosa audição forçada faz até com que os principais jogadores do time passem o treino cantando, sobretudo a parte mais conhecida, que diz: “a torcida reunida mais parece a do Fla-Flu, Bangu! Bangu! Bangu!".

A 'massa' do clube centenário e com uma história de resistência no futebol carioca, atualmente, está longe de parecer com a dos gigantes rivais Flamengo e Fluminense. A referência imediata dos banguenses, hoje, são as pipas que caíram no castigado gramado de Moça Bonita e tantas críticas geraram ao longo do Campeonato Carioca.

Dono da birosca ao lado do estádio que vende cerca de 20 pipas por dia à garotada - por R$ 0,70 cada -, seu Claudeir, 59 anos, se divide entre o lucro escasso e a brincadeira matreira dos meninos, que colocam as pipas no ar para que elas apareçam na TV durante os jogos do seu time de coração. “Não tem como proibir. A pipa é a diversão dos meninos todos os dias, sobretudo nos fins de semana. Se proibir, piora. Aí é que vão soltar mais. Acho bom que tudo isso aconteça e que o Bangu apareça na mídia para atrair novos investidores, para que a modernização do estádio saia do papel”, analisou.

A molecada, de fato, ri tanto que se esbalda. Fabrício, Cris e William, mais conhecidos como Godói, ET e Valadão, são três dos muitos que passam os jogos em que não conseguem um ingresso com um jogador soltando pipas para aparecer na televisão. “A gente solta mesmo. Eles fazem o campeonato deles no campo, a gente faz no ar, para ver quem corta quem. A pipa que cai no gramado é a de quem teve a linha cortada. Este passa a semana inteira sendo zoado”, brinca Cris, ou ET, 11 anos, o mais novo e mais debochado do trio.

Dentro do clube ainda se respira e se vê por todos os lados referências ao falecido bicheiro Castor de Andrade, todo-poderoso do clube nos 80, quando o Bangu conquistou o vice-campeonato carioca e brasileiro, em 1985. “Ele era o cara, o homem que apresentou ao Brasil mais recente o que é o Bangu. Eu, com um mês no clube, todo dia ouço uma história. A melhor é a do Marco Antônio, lateral campeão do mundo em 1970 e que um dia chegou ao clube depois de voltar da seleção dizendo que estava machucado e não poderia jogar. Castor tirou o revólver da cintura, deu um tiro que passou rente ao Marco, que rapidinho foi para o campo treinar”, relembrou José Reis, atual gestor de futebol do clube.

O dinheiro fácil da contravenção e os tempos áureos ficaram para trás, mas a alegria dos banguenses às vésperas do jogo contra o Botafogo, não. Não era para menos. Após uma Taça Guanabara em perdeu todos os sete jogos, o time terminou a Taça Rio em primeiro lugar do grupo 2, à frente do Vasco e eliminando o badalado Fluminense. E tudo isso com uma estrutura de várzea, que vai desde varal caseiro, passa por lanche modesto e instalações deterioradas. Time e diretoria estão cientes da realidade, mas depois do que fizeram no segundo turno, nada mais é capaz de assustá-los.

“Disputamos oito decisões na Taça Rio. Já nos acostumamos. Somos o Titanic que bateu na pedra e não afundou. Diziam que o Bangu só não seria rebaixado se Jesus Cristo entrasse em campo. E ele entrou. A gente não tinha uma gestão, tempo e nem margem de erro. Nós acreditamos no inacreditável”, brincou o presidente Jorge Varela, que no antebraço tem tatuada a frase Hope in God. “Fé em Deus”, traduz.

A folha salarial de R$ 150 mil é menor que os vencimentos do alvinegro Andrezinho, adversário deste sábado, tem por mês. No Bangu, o bicho por vitória estabelecido no início da Taça Rio foi de R$ 400 por jogador. A classificação para a semifinal rendeu R$ 2.500 para cada. “Já dá para comprar um franguinho”, brincou o presidente. Nada comparado aos mais de R$ 700 mil recebidos por Fred, Deco ou Thiago Neves, do Fluminense.

“A realidade tricolor é algo impensável para nós. Eles, inclusive, já estão na final do campeonato. Nós, não. E eles foram os nossos adversários em 1985, perdemos para eles. Mas não podemos falar em revanche. Somos o time de operários. Eles, o de guerreiros. Temos que fazer muita coisa aqui antes disso. Mas uma final contra o Fluminense, como diz a letra da nossa Mocidade, aqui de Padre Miguel, sonhar não custa nada”, completou o presidente, citando a escola de samba que também era financiada por Castor e é quase uma extensão do clube alvirrubro.