PUBLICIDADE
Topo

Futebol

Garoto com síndrome rara ajuda a levar o Corinthians à final da Copa SP

Ronald Santos, chamado de "Capita", sonha em ser jornalista e deu palestra ao sub-20 - Adriano Wilkson/UOL
Ronald Santos, chamado de "Capita", sonha em ser jornalista e deu palestra ao sub-20 Imagem: Adriano Wilkson/UOL

Adriano Wilkson

Do UOL, em São Paulo

25/01/2017 04h00

No segundo dia de 2017, enquanto uma chuva forte e insistente castigava o gramado do Parque São Jorge, o técnico Osmar Loss reuniu em torno de si o time sub-20 que se preparava para a estreia na Copa São Paulo.

Não era mais hora de jogar futebol. Depois do treino, os cerca de 25 garotos com 19 anos ou menos ficariam alguns minutos a mais para ouvir o que outro adolescente tinha a dizer.

Ronald Santos, 18 anos, conhecido como “Capita”, não estava acostumado a falar em público. Tímido, com as mãos grandes demais, cerca de dez graus de miopia em cada olho e a voz baixa de quem às vezes tem dificuldade de respirar, ele se ajeitou em sua cadeira de rodas enquanto os jogadores do Corinthians se preparavam para ouvir sua história.

“Eu vou mostrar pra eles o outro lado da vida”, pensou Capita. E então começou.

Contou que nasceu aos seis meses de gestação no interior de Pernambuco, com uma meningite e uma expectativa de vida de 24 horas. Contou como superou essa primeira previsão e aos poucos foi ouvindo outras. “Os médicos disseram que eu não falaria, não andaria e jamais sairia da cama”, lembrou ele.

Ronald Capita digita - Adriano Wilkson/UOL - Adriano Wilkson/UOL
Capita tem síndrome de Marfan, que causa crescimento exagerado dos dedos
Imagem: Adriano Wilkson/UOL

Contou aos atletas sobre o dia em que recebeu o diagnóstico de síndrome de Marfan, uma condição rara que lhe deu os dedos e os braços longos, a silhueta frágil, os problemas na pele e no coração, as dificuldades respiratórias e motoras e, além de tudo, uma severa escoliose que emprestou à sua coluna vertebral o formato de um S e lhe tirou a capacidade de andar.

Falou das mais de dez cirurgias às quais foi submetido durante a adolescência, e dos dois meses em que ficou acamado no hospital depois que os médicos fizeram quatro furos em seu crânio e prenderam nele um contrapeso de 14,750kg para ajudar a endireitar sua coluna.

Capita com peso pra coluna - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Capita precisou usar quase 15kg presos no crānio em tratamento para escoliose
Imagem: Arquivo pessoal

Contou de como, durante esse período de sofrimento, choro e solidão, ligou seu computador no wi-fi do hospital e começou a escrever sobre futebol. Contou sobre a primeira vez que ouviu o radialista Deva Pascovicci, então na “CBN”, irradiar um jogo e de como nesse momento decidiu que queria ser jornalista esportivo.

“Procurei o Deva no Facebook e contei minha história”, disse Capita. “Contei que sofria bullying na escola, e que os outros meninos jogavam lápis, borrachas na minha cabeça e ironizavam minha situação.” O narrador se mostrava solidário à história de vida de Capita e dava força para ele seguir em frente.

Ronald Capita visita - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Garoto conversou com time sub-20 às vésperas da estreia na Copa São Paulo
Imagem: Arquivo pessoal

Capita percebeu que os jogadores do Corinthians olhavam fixamente para ele enquanto ele relatava como começou a escrever a jogadores do futebol de base para entrevistá-los para um blog que havia acabado de criar.

E de como fez amizade com caras como o atacante canhoto Tiaguinho, quando ainda jogava nas categorias de base. No dia 29 de outubro do ano passado no lobby de um hotel de São Paulo, Tiaguinho presenteou Capita com uma camisa da Chapecoense, clube que agora estava defendendo.

Exatamente um mês depois, o avião que levava o time à final da Sul-Americana cairia na Colômbia, matando tanto Tiaguinho quanto Deva Pascovicci, ídolos e amigos de Capita. É por isso que hoje, sempre que conta sua história, o adolescente que sonha em ser jornalista esportivo nunca deixa de se lembrar deles. “É uma forma de fazer uma homenagem a quem sempre me inspirou”, ele diz.

Corinthians homenageia Capita - Divulgação/Corinthians - Divulgação/Corinthians
Imagem: Divulgação/Corinthians

Depois que conheceram a história de Ronald Capita, os jogadores sub-20 do Corinthians passaram a posar para fotos fazendo um C com a mão, em homenagem ao novo amigo.

“Ninguém acreditava no nosso time”, escreveu há uma semana o meia Pedrinho, destaque da campanha corintiana, em uma conversa de Whatsapp que Capita guarda com carinho. “Você fez esse time chegar onde chegou. E vamos além. Por sua conta. Então precisamos da sua força.”

A mensagem veio no dia em que Capita soube que precisará de uma nova cirurgia, agora no ouvido, um procedimento que um médico já disse que pode causar uma paralisia.

Corinthians e Capita - Divulgação/Corinthians - Divulgação/Corinthians
Imagem: Divulgação/Corinthians

“Ele tem quase a mesma idade que a gente e, enquanto a gente tem o privilégio de jogar e seguir os nossos sonhos, ele foi barrado pelas circunstâncias da vida”, disse o volante Renan Areias. “Nos colocamos no lugar dele e isso comoveu muito a gente.”

Nesta quarta, o adolescente foi convidado a assistir à final da Copa São Paulo no Pacaembu ao lado do time que ajudou a inspirar. O Corinthians enfrenta o Batatais às 16h no Pacaembu em busca de seu décimo título da competição.

Futebol