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Vinicius Castro/UOL Esporte

Patrícia Amorim admitiu estar insatisfeita com alguns dos reforços contratados pelo Fla

19/09/2010 - 07h00

Patrícia Amorim: "Existe um terrorismo contra o Zico dentro do Flamengo"

Vinicius Castro
No Rio de Janeiro

No próximo dia 4 de outubro, a presidente Patrícia Amorim irá completar nove meses no comando do clube mais popular do país. Apesar da satisfação com o trabalho realizado à frente do Flamengo, a rotina mudou e os problemas cresceram.

PATRÍCIA AMORIM, PRESIDENTE DO FLA

  • Vinicius Castro/UOL Esporte

    Em seu gabinete, Patrícia Amorim beija a bandeira

  • Vinicius Castro/UOL Esporte

    A presidente sonha com reforços de peso em breve

Na última sexta-feira, a mandatária recebeu a reportagem do UOL Esporte na sala da presidência, na Gávea. Naquele dia, a presidente estava fora de casa desde as primeiras horas da manhã quando teve de ir ao Fórum de Jacarepaguá depor como testemunha no inquérito que investiga a participação do goleiro Bruno no sequestro e desaparecimento da estudante Eliza Samúdio.

No mesmo dia, o filho mais novo da presidente, Leonardo, completou quatro anos, ganhou um bolo de aniversário na Gávea, mas só pôde curtir a data com a mãe após às 22h, quando a presidente encerrou mais um dia de trabalho no Flamengo.

Em entrevista exclusiva, Patrícia Amorim falou sobre muitas questões importantes. “Caso Bruno”, polêmicas no futebol em 2010, dívida com Cristian Borja, que segundo ela também deve gols ao Flamengo. A decepção momentânea com Val Baiano e Renato. As contratações do zagueiro Juan e do volante Ibson, que pretende realizar a curto prazo, o sonho de contar com Ronaldinho Gaúcho. Além de Willians, elogiado por ela como o melhor jogador do Flamengo.

Apesar disso, a presidente não escondeu a tristeza com as denúncias da oposição em relação ao trabalho do diretor executivo Zico, e o suposto envolvimento dos filhos do ídolo nas contratações de Borja, Val Baiano e Leandro Amaral.

“Podem investigar tudo isso. Como presidente, garanto que não existe. Sou a mandatária do clube. Assino os contratos, faço os acordos e não tem conflito de interesse. O Zico veio com o objetivo de unir o Flamengo e existe um terrorismo dentro do clube contra ele”, desabafou.

Avaliação dos quase noves meses no comando do Flamengo

“Aconteceram muito mais problemas do que esperava. Porém, para o que me programei, estou mais tranquila. Estudei bastante o Flamengo e a gestão que desejava. Peguei um clube com dois salários atrasados no futebol (dezembro e décimo terceiro) e mais a premiação do Campeonato Brasileiro. As outras modalidades tinham três meses de salários atrasados. Consegui equacionar tudo no quarto mês de gestão. Continuamos em dia com os salários e impostos. Peguei um clube com R$ 350 milhões em dívidas e com todas as verbas antecipadas. Só não está nesta lista o dinheiro novo que conseguimos com patrocínios e receitas. Avançamos muito em termos de estrutura física. Desde que cheguei já entraram 1.481 novos sócios. Isso permite melhorar a manutenção e manter algumas modalidades que ainda não possuem patrocínios. Em termos de administração o clube está muito bem servido. As coisas estão andando em uma velocidade bastante razoável. Penso que só falta realmente o resultado do futebol”.

Polêmicas e influência nos resultados

“Esse ano foi um ano muito diferente. Se você me perguntar se estava preparada para o furacão de problemas, digo que não. Nunca imaginei que as coisas pudessem chegar a esse ponto. Tivemos casos de pedofilia, associação com o tráfico, homicídio, estelionato. Não tem como achar que isso não gera repercussão. A torcida demorou a voltar aos estádios e gerou um efeito direto em nossas relações. Foi uma influência gigantesca em nosso trabalho”.

  • Vipcomm

    A presidente comentou sobre polêmico 'caso Bruno'

“Caso Bruno”: o Flamengo fora dos trilhos

“O episódio nos atingiu muito. Não acho que tenha sido a causa de toda a crise, mas foi a situação que mais nos tirou dos trilhos. Vejo que tivemos muita competência em retirar o Flamengo do caso. No início, era o goleiro do Flamengo... No final, já estava sendo chamado de “Caso Bruno”. Agimos na hora certa e tivemos a serenidade de passar por isso com muita habilidade. Entretanto, isso nos atormenta muito até hoje. É uma situação muito sofrida. Ele era o capitão do time campeão brasileiro, o jogador que falava comigo em nome dos jogadores, e convivíamos diariamente. O Flamengo só é capaz de superar por ser um clube muito grande”.

Procedimentos envolvendo a rescisão de contrato

“Não houve um desfecho do caso. Por isso, o contrato dele está suspenso e estamos tratando tudo com muita calma. Ele não pode receber por um serviço que não está prestando. O Bruno não está treinando e nem jogando. Estamos aguardando os desdobramentos para realizar a rescisão contratual futuramente e com a responsabilidade necessária”.

Trabalho de Zico como diretor executivo

“Por todo esse período que falamos anteriormente, era preciso resgatar a alegria do torcedor. Imaginei que trazer o Zico de volta ao Flamengo poderia ajudar bastante. As diretorias anteriores tentaram trazê-lo e não conseguiram. Eu consegui e tenho esse título. Não é uma taça, mas trazer o Galo de volta não tem preço. É emocionante observar a dedicação dele, o carinho pelo trabalho, e o comportamento mesmo levando tanta pancada. É uma falta de tolerância que ele não merecia. Ao final de uma temporada, de um determinado tempo, poderíamos fazer uma análise, mas ainda está muito cedo. É uma covardia o que estão fazendo. Não existe nenhuma referência maior do que o Zico para o clube. Esperava que tivessem um período maior de tolerância com ele. Esse problema vem da política interna do clube e não de fora. Tenho a certeza de que será um trabalho de acerto. Acho que isso só pode ser não ter o que falar”.

Denúncias do Conselho Fiscal contra o Galinho

“Podem investigar tudo isso. Como presidente, garanto que não existe. Sou a mandatária do clube. Assino os contratos, faço os acordos e não tem conflito de interesse. O Zico veio com o objetivo de unir o Flamengo e existe um terrorismo dentro do clube contra ele. É lógico que o dever do Conselho Fiscal é checar as contas... Por que não fazem isso internamente? Por que jogam para fora as coisas que eles acham e ouvem falar? Isso atrapalha o nosso dia-a-dia e causa turbulência. Não se constrói um clube melhor promovendo terrorismo. Isso precisa ser feito com diálogo, debatendo as melhores coisas”.

Piores adversários dentro do próprio Flamengo

“O Flamengo acaba perdendo para ele mesmo com essas atitudes. A proposta da chegada do Zico foi unir o clube. Não tenho a prepotência de achar que sou a solução e melhor pessoa aqui. Não quero ser a melhor presidente da história, nada disso. Só vou trabalhar e estou aqui de segunda a domingo. Não tenho hora para sair. Gostaria que essas pessoas contribuíssem desta forma. Todos trabalhando para o Flamengo e não jogando para a galera. Acaba criando um clima tenso que não deve existir. Nosso adversário tem de estar fora daqui e não aqui dentro. O mais importante é perceberem que prejudicam o clube desta forma. É o momento de buscar o melhor para o Flamengo”.

Relação com o presidente do Conselho Fiscal, Leonardo Ribeiro

“Minha relação com ele é boa e sempre vai ser. Em nome do Flamengo engulo qualquer vaidade, procuro apenas trabalhar. Acho que o trabalho vence. Discurso sem credibilidade se perde. Acho que falo pouco e trabalho muito. Quem fala demais acaba cometendo muitos erros".

Causa dos sete jogos sem vitória e má campanha no Campeonato Brasileiro

“Os jogadores que foram contratados não chegaram na mesma condição física dos que já estavam aqui. A demora pela chegada também impediu um pouco a integração. Mas acho que as coisas estão começando a funcionar. Fiquei feliz quando vi todos os jogadores abraçando o Silas no segundo gol contra o Prudente. Me deu a sensação de que somos um time novamente. Isso foi muito legal após todas as turbulências. Estou gostando do trabalho do Silas, que está conduzindo a relação com o Pet e outros jogadores com uma competência incrível. Sinto um ambiente muito bom, uma relação bacana dele com os atletas”.

Sonho de um novo título brasileiro

“Não é sonho chegar ao título, mas precisamos pensar passo a passo. Sul-Americana, Libertadores, e vamos observando o futuro. Tenho a certeza de que podemos avançar bastante. No ano passado, tínhamos 27 pontos nesta rodada, e hoje temos 26. Por que não sonhar? Por exemplo, no ano passado tivemos um jogador que fez toda a diferença na parte física e técnica, que foi o Adriano. Ele veio e nos ajudou a conquistar o Campeonato Brasileiro. A qualidade dele é muito grande e nossos jogadores precisam mostrar que vieram da mesma forma”.

Decepção momentânea com Val Baiano e Renato

“O Zico reconhece que as contratações do Borja e do Val Baiano não foram excelentes. A nossa expectativa era outra quando contratamos um jogador que foi o vice-artilheiro do Campeonato Brasileiro. O Cristian Borja foi uma indicação do Rogério Lourenço. Até agora eles não renderam e posso acabar queimando a língua. Na verdade, torço para que essa conversa continue em outro momento com eles marcando gols. Sempre soubemos que seriam jogadores para compor o elenco. Tanto que depois trouxemos o Deivid e o Diogo. O Renato era uma unanimidade. Do mais humilde ao mais graduado torcedor, todos disseram que seria bom trazê-lo. No entanto, ele chegou fora de forma. Você esperava isso? Eu não esperava. Aprendemos muito com esses episódios e os jogadores que chegarem de fora precisam vir mais preparados”.

  • Vipcomm

    A contratação de Borja foi questionada por Patrícia

Dívida com Cristian Borja

“Ele está recebendo o salário em dia. Existe um problema normal neste tipo de caso. Quando tivemos de trazer o Diogo e o Deivid, ficamos com um grande número de parcelas para equacionar e vamos priorizando sem deixar de arcar com o nosso compromisso. Acontece que tivemos um desembolso muito grande no mês para o pagamento de salários e impostos. O pior foi o presidente do Caxias do Sul ter jogado para a imprensa sem nem sequer ter ligado para o Flamengo. Quando telefonamos, ele fez o acordo na mesma hora. Vamos pagar nos próximos dias. Atrasamos, mas ninguém disse que o Flamengo não iria pagar. Pago o salário e luvas em dia. Essa era a minha preocupação principal, pois o jogador precisa ter o dinheiro para pagar as suas contas. Também contrato jogador para fazer gol e o Borja não faz gol. Está atrasado e não fico cobrando dele isso. Ele e o procurador podem esperar um pouquinho. Não estou esperando o gol dele? Paciência dos dois lados. Posso garantir que o procurador vai receber o dinheiro antes de o Cristian Borja ter feito o seu primeiro gol pelo Flamengo”.

Willians: o melhor jogador do Flamengo

“Meu pai já pediu para vir aqui algumas vezes tirar uma foto com o Willians. Ele é fã dele e diz que é um jogador com pele rubro-negra. Concordo plenamente. Hoje, o Willians é disparado o melhor jogador do Flamengo. Dá gosto vê-lo jogar com a camisa do clube. É gratificante”.

Sonhos: Juan, Ibson e Ronaldinho Gaúcho

“A curto prazo quero repatriar o Ibson e o Juan (zagueiro). Eles têm um simbolismo fantástico. E isso é muito importante no Flamengo. A longo prazo penso no Ronaldinho Gaúcho, o meu sonho de consumo. Chegamos a conversar com ele, que tem o interesse em jogar pelo Flamengo, gosta do Rio de Janeiro, e algumas coisas podem ser interessantes para ele. É o tipo de negociação que depende muito do jogador. Quando conversamos em julho, o Flamengo teria de pagar um ano inteiro de contrato, o que complica. Temos tentado manter uma conversa, mas cada vez ele joga melhor para dificultar ainda mais (risos)...”.

Vale a pena ser presidente do Flamengo?

“Vale muito a pena. Pelo Flamengo tudo vale, todo o esforço e sacrifício. Estou sempre rindo, minha melhor arma é o sorriso. Tenho muita coragem, acho que isso é a maior virtude. Tenho prazer de estar aqui. Quando estou de baixo astral ando pelo clube, converso com as pessoas e proponho sempre uma gestão compartilhada. Assim o equilíbrio é maior e a chance de erro cada vez menor. Acho que ser Flamengo é isso. Você nunca me vai ver falando mal de um ex-presidente, adversário político, Acho que todos têm a sua contribuição. Sentar nessa cadeira é difícil para caramba e respeito quem já sentou aqui. É normal passar por isso e situações complicadas. Não levo isso para casa. Infelizmente, aqui no Flamengo as pessoas querem destruir a pessoa física, sua família. Sou blindada quanto a isso e não vou deixar mesmo aconteça. Não adianta inventar coisa, pois não vai aparecer. Só se plantarem. E nem assim vai. O dirigente ajuda se não atrapalhar, só tem de aparecer quando solicitado".

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