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Como time abalado pelo Black Lives Matter chegou aos playoffs da NFL

Recuperação clínica espantosa de Alex Smith foi um dos destaques da campanha do Washington Football Team - Mitchell Leff/Getty Images
Recuperação clínica espantosa de Alex Smith foi um dos destaques da campanha do Washington Football Team Imagem: Mitchell Leff/Getty Images

Lucas Tieppo

Colaboração para o UOL, em São Paulo

08/01/2021 04h00

Resumo da notícia

  • Time de Washington foi obrigado a mudar de nome após protestos anti racistas
  • Dono do time é acusado de crimes sexuais e pressionado a vender equipe
  • Técnico enfrentou tratamento contra o câncer com a temporada em andamento
  • Quarterback Alex Smith lidera equipe após quase perder a perna 

Os playoffs da NFL começam neste fim de semana com a rodada de Wild Card e um time venceu todos os prognósticos negativos feitos antes do início da temporada para conquistar uma vaga na fase decisiva do campeonato. O Washington Football Team encara neste sábado (9) o badalado Tampa Bay Buccaneers, de Tom Brady e companhia, em busca de um lugar na semifinal da Conferência Nacional.

Pouca gente imaginava que o time da capital dos Estados Unidos entraria em campo em janeiro. Cheio de polêmicas extracampo, que culminaram na mudança de nome após protestos, o time ainda viu seu técnico enfrentar um tratamento contra um câncer durante a temporada e teve de apostar em um jogador que quase perdeu a perna e morreu há dois anos para levar o time aos playoffs.

No fim, a equipe avançou mesmo com uma campanha negativa (sete vitórias e nove derrotas), mas suficiente para vencer a Divisão Leste da Conferência Nacional.

Black Lives Matter influenciou time a mudar de nome

Os problemas de Washington começaram antes mesmo do início da temporada da NFL. O time foi alvo de muitos protestos embalados pelo movimento antirracista "Black Lives Matter" e se viu obrigado a abandonar o apelido de Redskins.

O termo, que significa pele vermelha em tradução livre, é visto como racista por instituições ligadas aos povos indígenas. Há anos, elas pediam a mudança do apelido e do mascote - um aborígine fantasiado com plumas na cabeça, mas foram sempre ignoradas.

Com o aumento da pressão pela alteração, patrocinadores e empresas que investem dinheiro na franquia decidiram apoiar a aposentadoria do apelido e aumentar o apelo sobre o dono Daniel Snyder. Em julho, a franquia definiu que o time passaria a se chamar Washington Football Team de forma provisória até a definição do novo nome, o que ainda não aconteceu.

Snyder é outro alvo de polêmicas e vive sob pressão constante para abrir mão da franquia. O empresário é acusado de promover uma cultura cheia de assédios moral e sexual na equipe. Segundo o jornal Washington Post revelou, ele pagou cerca de R$ 8 milhões a uma ex-funcionária que o acusava de má conduta sexual.

Outras acusações graves envolvem gravações de vídeos íntimos das líderes de torcida da franquia e dezenas de acusações de mulheres que se dizem assediadas sexualmente por membros da equipe, tudo com a anuência de Snyder.

Técnico tratou câncer até durante os jogos

Ainda antes do início da temporada, a franquia recebeu mais uma notícia que poderia comprometer a preparação para os jogos e prejudicar a já abalada moral. O técnico Ron Rivera, contratado para mudar a cultura da equipe e um dos envolvidos na definição da nova identidade, foi diagnosticado com câncer de células escamosas e decidiu não se afastar do cargo durante o tratamento.

Rivera, de 58 anos, encarou as sessões de quimioterapia por mais de dois meses e perdeu alguns treinos da equipe. Ele também recebeu a medicação nos intervalos de algumas partidas durante a temporada regular.

Nos treinos, o comandante usava um carrinho de golfe para comandar as atividades e evitar o cansaço excessivo pela quimioterapia. Tudo isso serviu de motivação para seus comandados. "Isso nos uniu. Estabelecemos laços em torno de algo que é difícil para uma equipe passar", ressaltou Chase Roullier, center da equipe.

Em outubro, Rivera comemorou o fim do tratamento e pôde focar 100% das forças no caminho até os playoffs da NFL.

Quarterback protagoniza história de superação

Alex Smith, quarterback da equipe, é outro fator importante nessa campanha. O atleta passou por 17 cirurgias para corrigir as fraturas que sofreu na tíbia e fíbula em novembro de 2018. Dois anos depois, ele liderou e inspirou os companheiros na batalha por um lugar na fase decisiva da NFL.

Smith, que quase teve a perna amputada e correu risco de morrer por uma infecção, era o terceiro jogador da posição antes de a temporada começar. Com o espaço aberto pelos concorrentes, assumiu o posto e levou a equipe à pós-temporada.

Muitos jogadores do Washington revelaram ter assistido ao documentário "Project 11", produzido pela ESPN, contando a recuperação de Smith após a lesão. "Vendo um cara como aquele, que passou por tudo que passou e continua a lutar, continua a se colocar em posição para ajudar esta equipe, não posso dar crédito suficiente por isso", disse o recebedor Terry McLaurin.

"Especialmente quando você vê o que Alex passou, seu desejo e motivação para voltar e a alegria e emoção que ele sente por jogar. Foi muito inspirador para mim. Eu gosto de imaginar que, de alguma forma, o que passei desempenha um pequeno papel nisso também. Você tem de ser tocado ao ver essas coisas. Apenas tentar ser um exemplo é importante", destacou Ron Rivera.

"Eu não presto muita atenção a isso ou vejo isso. Certamente, eu cuido da minha vida e trabalho da melhor maneira que posso", afirmou Smith.

Se por um lado a imagem ruim da franquia e do seu dono Daniel Snyder causavam antipatia e torcida contra, as histórias de Rivera e Smith fizeram com a equipe fosse vista com outros olhos e ganhasse apoio na busca por uma vaga nos playoffs. Com o lugar garantido, uma vitória sobre o time de Brady seria mais um capítulo em sua heroica e surpreendente campanha. É bom não duvidar do Washington Football Team.

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