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Hamilton pede mudanças na F1: 'Tornou-se clube de meninos bilionários'

Lewis Hamilton, da Mercedes, após conquista da 100ª pole position da carreira - NACHO DOCE/REUTERS
Lewis Hamilton, da Mercedes, após conquista da 100ª pole position da carreira Imagem: NACHO DOCE/REUTERS

Colaboração para o UOL

20/05/2021 09h41

Em rápida entrevista concedida ao jornal espanhol AS em Mônaco, Lewis Hamilton, o melhor piloto de Fórmula 1 de todos os tempos, segundo as estatísticas, afirmou que ao final de sua vida, não se lembrará das vitórias, mas sim dos gestos solidários e de sua luta por representatividade. O inglês garantiu que seu esporte é a sua prioridade número dois.

"O esporte é minha vida, é meu trabalho. Eu diria que é minha segunda prioridade. Eu não seria capaz de fazer nenhuma das outras coisas sem esta competição. Eu quero ajudar as pessoas, educar-me e encorajar todos ao meu redor a sê-lo. Isso está me levando muito tempo, assim como me sento para conversar com aqueles que dirigem a Fórmula 1 para ver como podemos fazer melhor, como ser mais eficientes e diversificados no futuro do automobilismo".

O piloto da Mercedes alegou nunca ter conhecido outro piloto negro desde que entrou para o kart, e que no início não era bem-vindo. Por ser o único representante do movimento anti-racista na F1, Hamilton disse que para mudar a realidade no esporte, é necessário ter 'conversas estranhas' e que os últimos meses foram um período de aprendizado para muitas pessoas entenderem os problemas que pessoas negras vivenciam.

"Meu pai, meu irmão e eu sempre fomos as únicas pessoas de cor, era normal para nós embora estivéssemos sempre atentos. Tornou-se normal, claro, embora no início fosse óbvio que não éramos bem-vindos (...) Como você viu desde o ano passado, é sobre ter conversas estranhas. Há uma consciência crescente do problema. Na Europa, o racismo é diferente do norte-americano, mas também está presente de forma notável. Os últimos meses foram um período de aprendizado para muitas pessoas saberem o que os negros, em particular, vivenciam ao longo de suas vidas. Para coisas como essa, comecei uma comissão que vai mostrar todos os desafios que os negros sofrem e possivelmente os brancos não. Não é uma questão de divisão, queremos unir as pessoas e educar. Se você tem um amigo que pertence a uma minoria, talvez você possa perguntar a ele que tipo de dificuldades ele enfrentou por ser diferente. No meu caso, tenho conversas desconfortáveis

Além disso, ao ser questionado sobre a possibilidade de ganhar seu 8° título, Hamilton afirmou que isso não afetaria sua vida em ambas as possibilidades e que não se preocupa com os números. O ativista diz estar mais interessado nas estatísticas envolvendo diversidade e em ajudar as pessoas.

"Não tenho ideia se vou vencê-lo, embora trabalhe para conquistá-lo, mas certamente não mudará nada importante na minha vida. Os números não são o que mais me preocupa. Eu me preocupo com o que sou. No ano passado havia três por cento de diversidade nesta equipe, este ano será perto de cinco por cento e isso para mim é gigantesco (...) Eu consegui muitas coisas, mas agora toda a minha concentração está voltada para ajudar os outros. Estou vivendo um sonho, não preciso de nada para mim, mas como posso ajudar uma criança que quer ser engenheira ou piloto?"

Hamilton ainda comentou sobre a nova geração da Fórmula 1 e afirmou que existem grandes jovens talentos, como Leclerc e Norris, mas não sabe quem vai liderar o esporte no futuro. Além disso, explicou que para ele, a Fórmula 1 se tornou um clube de meninos bilionários e que mudanças devem ser feitas.

"Há um bom grupo de jovens talentos aqui. Dada a oportunidade, Lando (Norris) tem um enorme potencial para mim, assim como Charles (Leclerc) . Não sei prever quem deles vai liderar esse esporte (...) Para mim, pessoalmente, vivemos em uma época em que este se tornou um clube infantil bilionário. Se eu fosse começar de uma família da classe trabalhadora, seria impossível para mim estar aqui hoje, pois os outros meninos teriam muito mais dinheiro. Temos que trabalhar para mudar isso e fazer desse esporte acessível, para os ricos e para as pessoas de origem mais humilde".

Por fim, Lewis comentou sobre seu futuro na F1, até onde correria e se continuaria envolvido com o esporte após aposentadoria. O piloto declarou que não seguirá os mesmos passos de Kimi Raikkonen -que ainda disputa, aos 41 anos. Além disso, afirmou não se arrepender de não ter competido por outras equipes.

"Eu não acho que vou dirigir para sempre, mesmo que esta seja a maior viagem da minha vida. Há muitas coisas que quero continuar fazendo em uma temporada, mas não em outras. Eu teria cinco anos restantes para isso, e eu não acho que vou continuar correndo (...) Eu não vivo com arrependimentos. Cometo erros e vejo o que poderia ter feito de forma diferente, mas não acho que poderia ter feito algo em um lugar ou outro. Prefiro chegar ao time perdedor, quando cheguei na Mercedes eles estavam em quinto lugar no Mundial de Construtores e partimos da humildade (...) Sempre vou segui-lo de perto, tem sido minha maior paixão e um privilégio fazer parte desse esporte. Acho que quando eu desistir, imediatamente, não verei muitas corridas porque vou querer fazer uma pausa. Mas no final vou querer ver de novo, porque adoro".

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