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Rio faz proposta oficial para ter GP Brasil: o que se sabe sobre o projeto

Projeto do autódromo de Deodoro, no Rio de Janeiro - Divulgação
Projeto do autódromo de Deodoro, no Rio de Janeiro Imagem: Divulgação

Julianne Cerasoli

Do UOL, em Londres (ING)

29/05/2019 04h00

Foi dada oficialmente, durante o último fim de semana, em Mônaco, a largada para a disputa entre o Rio de Janeiro e São Paulo para receber a Fórmula 1 a partir de 2021, quando acaba o contrato atual para a realização da prova no Autódromo de Interlagos. Única concorrente da licitação que concedeu 35 anos de utilização de um terreno militar na região de Deodoro para a construção de um autódromo na capital fluminense, a Rio Motorsports levou representantes à sexta etapa do campeonato da categoria para apresentar formalmente a proposta carioca.

A empresa assinou, ano passado, acordo para levar a MotoGP para o Rio e há um ano negocia com a Fórmula 1. O projeto, porém, tem vários pontos que ainda suscitam dúvidas. Agora, o UOL Esporte tenta colocar um pouco de luz sobre eles:

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O terreno pode criar atrasos?

A concessão está dada, mas ainda não há a autorização de início das obras. Ainda não foi concluído o estudo de impacto ambiental necessário, algo que o fundador da Rio Motorsports, JR Pereira, disse à reportagem em Mônaco acreditar que "será algo resolvido dentro de quatro meses". De acordo com o empresário, o projeto contempla áreas de reflorestamento.

O UOL questionou ainda o arquiteto Hermann Tilke, responsável pelo projeto brasileiro e pelo desenho de quase todas as pistas das provas que entraram no campeonato da Fórmula 1 nos últimos 20 anos, sobre os riscos de atrasos. A preocupação envolve o fato de só poder efetivamente começar a trabalhar na área muito perto do prazo de entrega. Ele mesmo lembrou que, na China, a construção foi bastante atrasada por problemas no solo que só foram encontrados após o início das obras. Mas Tilke disse que isso não é uma preocupação. "Nenhum terreno em que fazemos circuitos permanentes é perfeito", argumentou.

Qual é o prazo de entrega do autódromo?

JR Pereira fala em 18 meses para entregar a obra, já levando em consideração o período para que se superem as questões ambientais. Trata-se de uma meta ambiciosa levando-se em consideração as últimas pistas que foram construídas para a Fórmula 1: a única entre as pistas permanentes que estrearam neste milênio construída em prazo semelhante foi no Bahrein, onde os organizadores chegaram a pedir para o então dono da F-1, Bernie Ecclestone, para cancelar a prova inicial em 2004. Mas a prova seguiu adiante mesmo sem que a obra tivesse sido 100% terminada. "Com uma boa construtora, dá para fazer", disse Tilke, responsável também pela obra do Bahrein e que, questionado sobre os atrasos nas obras das Olimpíadas e da Copa do Mundo e as possíveis burocracias que seriam encontradas no Brasil, deu de ombros.

Quem paga a conta?

JR Pereira admite que a Lei do Incentivo ao Esporte será utilizada no projeto, mas atesta esta seria a única soma que viria do governo, por meio de incentivos fiscais, utilizados não para a construção em si, mas para ajudar a trazer eventos para a pista. O restante viria de fundos de investimento internacionais e nacionais e da utilização do autódromo em outras categorias, shows e como banco de testes para as indústrias automobilística e de combustíveis. Não há clareza, contudo, sobre quem seriam esses investidores.

Este é o grande ponto de interrogação a respeito do projeto. Afinal, a conta é alta: calcula-se que o autódromo custará de 700 a 750 milhões de reais e receber a Fórmula 1 representaria um gasto anual de 190 a 210 milhões, segundo os cálculos do próprio promotor. A variação depende do modelo de negócio a ser aprovado pela Liberty Media.

Pereira diz que o financiamento não é um desafio devido a seu histórico. "Minha função sempre foi ajudar as empresas estrangeiras a navegar na área militar, de governo, polícias. Entender onde estão as oportunidades de negócio sempre foi uma especialidade minha. Trouxe muitas empresas para o Brasil em ramos difíceis e altamente regulados", disse o empresário, que atuou por anos em empresas voltadas ao ramo de defesa, e entrou há mais de cinco anos no projeto devido "à proximidade que o tema tinha por conta da questão do terreno ser militar".

Falta de expertise?

Um dos grandes desafios que o promotor do GP de São Paulo, Tamas Rohonyi, vê no projeto carioca é a dificuldade de encontrar mão de obra qualificada para um evento desse porte no Brasil. Mas JR Pereira diz que sua saída foi firmar parcerias com empresas estrangeiras. "Para agradar a MotoGP e a F-1, o pensamento militar é muito simples: equipamento, estratégia e logística. Então, fomos pegando o melhor de cada uma dessas áreas. Temos hoje a CSM [no Brasil, Golden Goal, empresa de marketing esportivo responsável, por exemplo, pela Fórmula E], o escritório de Tilke, a SPORTTOTAL [empresa alemã de equipagem técnica de pistas como Nurburgring], o catering que faz o GP de Mônaco. Fomos juntando um bom time para fazer uma proposta que, eu considero, bastante robusta."

Modelo de negócio

O projeto do Rio busca contemplar as áreas que Interlagos tem dificuldades de colocar em prática, muitas delas relacionadas à falta de espaço no autódromo: áreas VIP mais amplas; uma zona de fãs, com as lojas oficiais, simuladores e outras formas de entretenimento nos moldes do que é feito em outras etapas; e uma área para shows, que seriam realizados no final de semana de corrida, como ocorre em Austin ou Abu Dhabi, por exemplo. "A ideia é fazer shows sexta, sábado e domingo. E acho que o Rio de Janeiro ajuda muito porque você tem a Barra e Copacabana para ativar com fanzone na praia. Acho que vai ser um sucesso danado porque nossa ideia é envolver a cidade inteira, fazer um evento de domingo a domingo."

Tudo isso geraria mais oportunidades de retorno financeiro, algo que poderia ir para os cofres da Liberty Media, em troco de uma anuidade de menor valor, ou poderiam ser exploradas pelos promotores, dependendo da proposta aprovada pelos donos da F-1.

O que a Rio Motorsports vê é a oportunidade dada pelo atual acordo para a realização do GP do Brasil. Assinado paras as temporadas de 2018, 2019 e 2019, foi fechado ainda na época de Bernie Ecclestone, parceiro comercial de Rohonyi. É considerado financeiramente muito desvantajoso para a Fórmula 1. Após a apresentação oficial da proposta carioca, São Paulo espera receber a visita do CEO da F-1, Chase Carey, neste mês de junho, para continuar as negociações em busca da renovação do contrato com Interlagos sob novas bases financeiras.

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