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Lito Cavalcanti


Mercedes sai na frente, Ferrari e Red Bull não têm pressa

Valtteri Bottas, da Mercedes - Mercedes
Valtteri Bottas, da Mercedes Imagem: Mercedes
Lito Cavalcanti

Envolvido de diversas formas com o automobilismo desde o início dos anos 60, Lito Cavalcanti completa 50 anos de profissão como o jornalista de esporte motor mais publicado no Exterior.

24/02/2020 13h34

Uma boa olhada nos resultados da primeira sessão de testes da pré-temporada mostra que, sim, a Mercedes foi a mais promissora. Afinal, não se pode dizer o contrário de uma equipe que marcou os dois melhores tempos dos três dias de atividades.

O mais rápido foi Valtteri Bottas, que marcou 1min15s732 na manhã da sexta-feira, o último dia. Lewis Hamilton virou em 1min16s516 na parte da tarde, o que por si só já explica parte da grande diferença entre ele e o finlandês. É que, em Barcelona, a pista sempre está melhor na parte da manhã, quando o vento sopra a favor na reta principal. Mesmo assim, a diferença a favor de Bottas, 0s784, sinaliza que o finlandês ainda planeja pelo menos dificultar a vida do hexacampeão inglês.

Mas o bom senso recomenda certa parcimônia com os tempos das pré-temporadas - principalmente depois de apenas uma sessão. Se por um lado os tempos da Mercedes podem (e devem) ser levados a sério, o mesmo não se pode dizer do terceiro mais rápido, o Alfa Romeo de Kimi Raikkonen. O finlandês virou em 1min17s091 ainda no segundo dia, quando certamente ainda havia desempenho a ser extraído do novo carro.

Kimi Raikkonen liderou o segundo dia de testes - Alfa Romeo
Kimi Raikkonen liderou o segundo dia de testes
Imagem: Alfa Romeo

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MELHORES TEMPOS NOS 3 DIAS DE PRÉ-TEMPORADA
Piloto (Carro-motor): Tempo (Tipo de pneu)

  • Valtteri Bottas (Mercedes*): 1min15s732 (C5)
  • Lewis Hamilton (Mercedes*): 1min16s516 (C5)
  • Kimi Raikkonen (Alfa Romeo-Ferrari): 1min17s091 (C5)
  • Esteban Ocon (Renault*): 1min17s102 (C4)
  • Lance Stroll (Racing Point-Mercedes): 1min17s338 (C4)
  • Sergio Perez (Racing Point-Mercedes): 1min17s347 (C3)
  • Daniil Kvyat (AlphaTauri-Honda): 1min17s427 (C4)
  • Antonio Giovinazzi (Alfa Romeo-Ferrari): 1min17s469 (C5)
  • Max Verstappen (Red Bull-Honda): 1min17s516 (C3)
  • Daniel Ricciardo (Renault*): 1min17s574 (C4)
  • Pierre Gasly (AlphaTauri-Honda): 1min17s783 (C4)
  • Carlos Sainz (McLaren-Renault): 1min17s842 (C3)
  • Alex Albon (Red Bull-Honda): 1min17s912 (C2)
  • Sebastian Vettel (Ferrari): 1min18s154 (C4)
  • George Russell (Williams-Mercedes): 1min18s168 (C3)
  • Charles Leclerc (Ferrari*): 1min18s289 (C3)
  • Romain Grosjean (Haas-Ferrari) - 1min18s380 (C3)
  • Nicholas Latifi (Williams-Mercedes): 1min18s382 (C3)
  • Robert Kubica (Alfa Romeo-Ferrari): 1min18s386 (C3)
  • Lando Norris (McLaren-Renault): 1min18s454 (C3)
  • Kevin Magnussen (Haas-Ferrari): 1min18s466 (C3)

* Ferrari, Mercedes e Renault fabricam seus próprios motores.

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Nesta primeira fase, impressionam mais o quarto e o quinto tempos de Esteban Ocon, da Renault, e Lance Stroll, da Racing Point, duas equipes que tiveram muitos problemas na temporada passada. Ocon marcou 1min17s102 e Stroll, 1min17s338, mas o que chama atenção é que eles usaram os pneus C4, menos aderentes do que os C5 com que Bottas, Hamilton e Raikkonen fizeram suas melhores voltas.

Ainda mais surpreendente foi Sergio Perez, companheiro de Stroll na equipe Racing Point, fazer o sexto tempo com pneus ainda menos eficientes, os C3. Sem informação oficial da Pirelli sobre as diferenças de tempo entre seus cinco tipos de pneus, o paddock da Fórmula 1 adota, para efeito de comparação, meio segundo entre cada tipo.

Aplicar essa tabela, porém, nem sempre dá certo. Como nesse caso. Se aplicarmos esse fator ao tempo do Perez, feito com o C3, a correção seria de um segundo e meio. Ele passaria de 1min17s347 para 1min15s847, superando a melhor marca de Hamilton e ameaçando o primeiro tempo de Bottas. Por mais que o novo Racing Point seja claramente baseado na Mercedes do ano passado (se não copiado), tanta evolução seria um exagero difícil de engolir nesse começo de ano.

Mas nem por isso se deve duvidar de tudo e de todos. De fato, a volta que deu o terceiro tempo à Alfa Romeo de Kimi Raikkonen leva a crer em um golpe de marketing — como já se fez várias vezes. A equipe manda o carro para a pista como se fosse uma prova de classificação: pneus novos, do tipo mais aderente, e com pouca gasolina, suficiente para apenas quatro ou cinco voltas. Claro, o tempo vem, e com isso se consegue uma exposição inatingível no resto da temporada.

George Russell durante os testes com a Williams - Williams Racing
George Russell durante os testes com a Williams
Imagem: Williams Racing

Ficou claro que a Racing Point, a Renault, a AlphaTauri (como agora se denomina a Toro Rosso), a McLaren e até a Williams não se deixaram levar por esse caminho. Nenhuma delas recorreu aos pneus C5 para marcarem tempos irreais, preferindo aprofundar o conhecimento de seus novos carros.

O exemplo mais enfático dessa maior objetividade veio da Red Bull. Apontada como a mais provável ameaça à hegemonia da Mercedes, a equipe austríaca se concentrou em aumentar a quilometragem. Assim, acumulou muitas informações detalhadas sobre as inovações que introduziu na suspensão dianteira e na traseira. Seus engenheiros sabem da importância de conhecer todas suas possibilidades já a partir do Grande Prêmio da Austrália, a primeira prova do ano.

De olho nisso, a Red Bull acumulou 388 voltas nos três dias. E ouviu de seus pilotos Max Verstappen e Alex Albon que o novo carro obedece bem melhor a seus comandos que o do ano passado. Exatamente como eles pediram aos projetistas. Mesmo assim, Verstappen fez apenas o nono melhor tempo, 1min17s516, com pneus C3; Albon ficou em 13º, 1min17s912, com os C2.

Também despertou otimismo a potência do motor Honda. Com ele, o novo Red Bull atingiu 327,3 km/hora, nada mal se comparado aos 328,1 atingidos pela Mercedes.

O mais rápido na reta foi o Haas (com motor Ferrari) de Romain Grosjean, que chegou a 331 km/h, seguido pelo McLaren-Renault de Carlos Sainz, 329,5, e pela Ferrari de Sebastian Vettel, 329,0.

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VELOCIDADES MÁXIMAS NA 1ª SESSÃO DA PRÉ-TEMPORADA
Piloto (Carro-motor): Velocidade (Dia)

  • Romain Grosjean (Haas-Ferrari) - 331,0 km/h (D3)
  • Carlos Sainz (McLaren-Renault): 329,5 (D1)
  • Sebastian Vettel (Ferrari): 329,0 (D3)
  • Lewis Hamilton (Mercedes*): 328,1 (D3)
  • Max Verstappen (Red Bull-Honda) 327,3 (D1)
  • Valtteri Bottas (Mercedes*): 324,3 (D2)
  • Kimi Raikkonen (Alfa Romeo-Ferrari): 323,9 (D2)
  • Alex Albon (Red Bull-Honda): 320,8 (D3)
  • Lance Stroll (Racing Point-Mercedes): 320,8 (D3)
  • Nicholas Latifi (Williams-Mercedes): 320,2 (D1)
  • Daniel Ricciardo (Renault*): 319,6 (D1)
  • Sergio Perez (Racing Point-Mercedes): 317,9 (D2)
  • Robert Kubica (Alfa Romeo-Ferrari): 317,8 (D1)
  • Kevin Magnussen (Haas-Ferrari): 317,5 (D1)
  • Daniil Kvyat (AlphaTauri-Honda): 317,0 (D1)
  • Antonio Giovinazzi (Alfa Romeo-Ferrari): 317,0 (D3)
  • Esteban Ocon (Renault*): 316,6 (D3)
  • Lando Norris (McLaren-Renault): 315,5 (D2)
  • Pierre Gasly (AlphaTauri-Honda): 315,4 (D3)
  • George Russell (Williams-Mercedes): 314,5 (D1)
  • Charles Leclerc (Ferrari*): 307,1 (D1)

* Ferrari, Mercedes e Renault fabricam seus próprios motores.

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Charles Leclerc, da Ferrari - Ferrari
Charles Leclerc, da Ferrari
Imagem: Ferrari
O leite escondido

Já da Ferrari, pouco se ouviu ou se falou. Cumprindo à risca o plano de explorar a fundo todos aspectos do novo carro, a equipe de Maranello terminou a primeira sessão com tempos modestos: 14º com Sebastian Vettel, que marcou 1min18s164 no segundo dia, com os pneus C4, e 16º com Charles Leclerc, 1min18s289 no primeiro dia, com os C3.

Esse desempenho, porém, foi recebido com ceticismo por todos seus adversários. Principalmente a Mercedes, que comparou pelo GPS as voltas de outros carros com motor Ferrari, no caso Alfa Romeo e Haas, e concluiu que o carro de Maranello usou bem menos potência do que dispõe seu motor, algo suficiente para lhe tirar cerca de um segundo por volta.

Se a Mercedes estiver certa, a Ferrai vai ser uma séria concorrente ao título. Adotando-se a tabela não oficial de meio segundo de diferença entre os pneus, o tempo de Vettel, uma vez corrigido, cairia para 1min17s664. Acrescentando-se um segundo que a Mercedes afirma que estava sendo poupado no motor, a marca final do piloto alemão seria 1min16s664, muito próximo do 1min16s516 de Hamilton.

Segundo o prestigioso jornalista inglês Mark Hughes, os tempos da Ferrari ficaram relativamente próximos dos da Mercedes e ligeiramente melhores que os da Red Bull nas simulações de corrida, situação em que as equipes diminuem a potência para preservar seus motores.

Em compensação, o carro de Maranello teve menor desgaste de pneus que a Mercedes, um quesito em que a equipe alemã investiu muito ao desenvolver um inovador sistema de variação da convergência das rodas dianteiras.

Nos três dias finais, a Scuderia Rossa vai levar para Barcelona a carenagem definitiva, a que deve ser usada nos primeiros GPs de 2020. Só então se poderá ter uma comparação mais realista entre Mercedes, Red Bull e Ferrari. No ano passado, foi essa a tática da Mercedes, que havia sido batida amplamente pela Ferrari até o último dia da pré-temporada e virou o jogo na Austrália.

Tudo isso leva a crer que a primeira batalha, com as três equipes grandes em condições semelhantes, só deve ocorrer na sessão que se inicia nesta próxima quarta-feira. Muito provavelmente na sexta-feira, o último dia desta pré-temporada. Vai valer a pena acompanhar com atenção.

Mais um título para o Brasil

Neste fim de semana, o brasileiro Marcos Gomes conquistou, junto com o australiano Liam Talbot, o campeonato da categoria Grã-Turismo da Asian Le Mans Series ao levarem uma Ferrari 488 GT à vitória da categoria GT nas Quatro Horas de Buriram, na Tailândia. Outros dois brasileiros, Daniel Serra e Osvaldo Negri, chegaram em terceiro com outra Ferrari.

Com esse resultado, Marcos garantiu uma vaga nas 24 Horas de Le Mans deste ano. Campeão da Stock Car em 2015, Marcos é filho de Paulo Gomes, tetracampeão da categoria e que tem como destaque em sua carreira o sétimo lugar na classificação geral das 24 Horas de Le Mans de 1978.

Na ocasião, Paulão, como é conhecido, formou com dois outros grandes nomes das corridas nacionais, Alfredo Guaraná e Marinho Amaral, uma equipe em homenagem ao recém-falecido José Carlos Pace. Juntos, eles levaram um Porsche 935 ao segundo lugar na sua categoria, o Grupo 5 acima de 2.000 cc, mesmo só tendo conhecido o carro dois dias antes da corrida.

Lito Cavalcanti