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Lito Cavalcanti


Vitória de Vettel em Singapura muda a hierarquia da F1

Thomas Peter/Reuters
Imagem: Thomas Peter/Reuters
Lito Cavalcanti

Envolvido de diversas formas com o automobilismo desde o início dos anos 60, Lito Cavalcanti completa 50 anos de profissão como o jornalista de esporte motor mais publicado no Exterior.

23/09/2019 15h43

Nada poderia ter sido melhor para a Fórmula 1 do que a vitória de Sebastian Vettel no Grande Prêmio de Singapura. Com a Ferrari invicta desde o retorno das férias de agosto, cinco vencedores diferentes no ano, uma temporada que começou vagarosa e monótona se transformou na mais disputada e imprevisível dos últimos tempos.

Mesmo que nada pareça capaz de ameaçar o sexto campeonato de Lewis Hamilton, essa quase certeza se deve ao começo esmagador da Mercedes. Em outros tempos, se poderia esperar uma reviravolta, mas a quase nula possibilidade de quebra de carros e motores entre as principais equipes desaconselha qualquer aposta neste sentido.

O resultado desse quadro é uma reorganização do equilíbrio de forças. Ninguém, em sã consciência, preveria o domínio da Ferrari — especialmente do novato Charles Leclerc — em uma pista de baixa velocidade como Singapura. Suas características equivalem às de Mônaco e Hungria, onde os carros vermelhos foram meros figurantes na batalha direta entre a Mercedes de Hamilton e a Red Bull de Max Verstappen.

Esse quadro foi revertido pelo trabalho extenuante da equipe técnica de Maranello. O pacote aerodinâmico levado para Singapura — que deu a seus carros a hegemonia na prova de classificação e na corrida — é composto por peças que já tinham sido usadas, em suas formas originais, no GP da França. Aprimoradas durante os últimos três meses, elas se encaixaram e deram a seus pilotos o equilíbrio que lhes faltava desde o começo do ano.

Na Rússia, a hora da confirmação

Resta ver se a vantagem aerodinâmica deste domingo vai ser tão intensa, ou mesmo se repetir, nas seis provas restantes. O primeiro teste será no próximo fim de semana, em Sochi, na Rússia. A meteorologia indica possibilidades de chuva na sexta-feira e no sábado e tempo nublado no domingo, com temperaturas variando de 14 a 21 graus.

Lá existe a curva mais longa da F1, a Três. Ela é diametralmente oposta às curvas curtas, quase de esquina, do Canadá e de Singapura. Feita a mais de 170 quilômetros por hora, ela tira tudo que os pneus têm para dar. O restante da pista é composto por duas retas longas e curvas curtas de média velocidade.

Para o GP da Rússia, a Pirelli optou por uma escala um pouco mais resistente (portanto menos aderente), os modelos C2, C3 e C4, e deixou fora o C5, uma escolha que não favorece a Ferrari. Esse pneu foi um dos pilares do triunfo em Singapura. Com ele, Leclerc e Vettel foram primeiro e terceiro na prova de classificação de Singapura. Foi também com ele que Vettel conquistou a pole position e venceu o GP do Canadá — a punição que lhe tirou a vitória obtida na pista não apaga sua superioridade na Ilha de Notre Dame.

Explicando melhor: quanto mais macio pneu, mais rapidamente ele esquenta e atinge a temperatura de maior aderência. Quanto mais duro, mais difícil essa tarefa. Aquecer e manter os pneus na faixa ideal de funcionamento foi o grande drama da Scuderia Rossa na primeira metade do campeonato. A pergunta que fica é se a nova aerodinâmica também se mostrará tão eficiente com os pneus que a Pirelli escolheu para Sochi.

A estratégia não escolhida

Talvez não sejam esses os maiores problemas da Ferrari daqui até o fim do ano. A estratégia que deu a vitória a Vettel em Singapura tirou de Leclerc um triunfo que lhe era de direito. Reza a cartilha da F1 que o piloto que vai à frente tem a prioridade de parar antes para trocar pneus. Forçada a antecipar suas paradas pela Red Bull, que antecipou a entrada de Verstappen nos boxes para tentar ganhar posições, a Ferrari teve de reagir apressadamente, sem calcular o que representaria essa manobra no resultado final do GP de Singapura.

O correto seria chamar Leclerc, mas o monegasco tinha acabado de passar pela entrada dos boxes - a única possibilidade era Vattel, que assim mesmo teve de reagir rapidamente, já o que o chamado o surpreendeu quanto estava na curva 21, duas antes da entrada dos boxes.

Tudo isso ocorreu na 19ª volta, já próximas da 20ª, que tinha sido apontada pela sua fabricante, a Pirelli, como o limite da vida útil dos pneus macios (os C5). Como os 10 primeiros do grid são obrigados a largar com os pneus utilizados na segunda fase da prova de classificação, o Q2, esses pneus já tinham percorrido três voltas a mais do que na corrida - estavam esgotados.

Ao sair dos boxes com os pneus duros, Vettel fez duas voltas extremamente rápidas, enquanto Leclerc e Hamilton, primeiro e segundo colocados, perdiam tempo se arrastando na pista com os desgastadíssimos pneus macios. Os pneus duros novos, nas voltas iniciais, permitiam a Vettel virar cerca de quatro segundos mais rápido que o Leclerc e Hamilton viravam com os macios.

Os sinais dessa enorme diferença já haviam sido dados por Nico Hulkenberg e George Russell, que haviam passado para os pneus duros na primeira volta, e Daniil Kvyatt, na 12ª. Instantaneamente, cada um deles fez a volta mais rápida da corrida até aquele momento - mas, sabe-se lá por quê, as equipes de ponta não levaram isso em consideração. Quando Leclerc emergiu dos boxes, após sua parada, não havia como evitar a passagem de Vettel, tamanho o tempo perdido por ele com os macios e o ganho por Vettel com os duros.

Pior ainda para Hamilton. Sem alternativa, a Mercedes decidiu apostar no melhor trato dos pneus de seu carro e deixou Hamilton na pista à espera de uma eventual e salvadora entrada do Safety Car. Afinal, nas 11 edições anteriores desse GP, houve nada menos de 18 intervenções do Safety Car, certamente haveria uma ou mais nesta edição.

De fato, ele veio - mas de nada adiantou. A primeira das três entradas do Safety Car só ocorreu depois de Hamilton parar sob bandeira verde, o que o relegou ao quarto lugar. Foi tamanho seu prejuízo que a equipe precisou mandar Valtteri Bottas diminuir o ritmo para não passar o pentacampeão. Tudo isso em uma corrida que Hamilton estava certo de vencer sem grande dificuldade, segundo sua própria avaliação à imprensa após a bandeirada.

Mas nem por isso se deve crer que a vitória foi entregue a Vettel em uma bandeja de prata. Sua performance após assumir a liderança fez reviver a imagem do tetracampeão agressivo e determinado, superando com decisão e eficiência o tráfego intenso de uma pista com 23 curvas em pouco mais de 5.000 metros.

Após a festa, a ressaca

Nem tudo foram festas e comemorações nos boxes da Ferrari, porém. Logo após o retorno do pódio, o capo Mattia Binotto mostrou mais uma vez a fleuma pouco condizente com os arroubos do temperamento italiano. Abordado por Nicolas Todt, filho do presidente da FIA e empresário de Leclerc, ele mal se deu ao trabalho de parar e responder por que Vettel foi chamado antes de Leclerc.

À imprensa, Binotto elogiou a atitude de Leclerc, que reclamara pelo rádio durante a corrida, consciente de que suas palavras seriam usadas pela TV. "Não poderia ser diferente, ele tinha a vitória nas mãos". Isso de nada vai servir para amenizar a pressão que vai se abater sobre ele. Não apenas de Leclerc e de Nicolas Todt. O pai Jean, que desde que assumiu a presidência da FIA não havia feito comentários públicos sobre piloto, rasgou os mais calorosos elogios ao pupilo da família em recente entrevista a uma publicação europeia.

O duelo entre Leclerc e Vettel, a partir de agora, toma proporções bem mais intensas, e as consequências deverão ser sentidas já na Rússia. Acrescente-se a isso o inconformismo de Hamilton com mais essa derrota, somado ao da Mercedes, que pela segunda vez no ano ficou fora do pódio. Verstappen também não aceitará de bom grado o papel de figurante que lhe coube em Singapura.

A meteorologia prevê chuva na sexta-feira e no sábado e tempo nublado no domingo em Sochi. A temperatura vai oscilar entre 14 e 21 graus. Pode ser, porém, que nos boxes e nos escritórios da Ferrari, o termômetro acuse um clima bem mais quente.

Eu e Cassio Politi comentaremos em mais detalhes esses temas no podcast Rádio Paddock, que vai ser gravado durante uma live no YouTube às 20h30 desta terça-feira e disponibilizado nos principais agregadores a partir das 11 horas da quarta-feira.

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