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13/03/2006 - 10h10

Loucos por figurinhas aproveitam Copa para turbinar coleções

Ana Luisa Bartholomeu
Em São Paulo
Melhor que em qualquer jornal, revista, livro, foto ou filme, uma Copa é guardada na memória afetiva dos fanáticos pelas figurinhas. Para esses colecionadores, o feito de completar o álbum se compara só às vitórias das equipes em campo - e o momento do encontro com a última figurinha que faltava colar é como um gol do título no último minuto.

REVIRANDO O BAÚ
Álbuns das Copas de 1962, ainda em papel jornal...
...1970, com o astro brasileiro Pelé na capa...
...1974, considerado uma verdadeira relíquia...
...1978, quando a Argentina se sagrou a campeã...
... e 1982, com glórias para a seleção italiana e a decepção do Brasil.
E nada como um ano de Mundial, como 2006, para acrescentar novo item na coleção e na recordação.

No Brasil, a primeira vez que uma Copa serviu de tema para as gravuras colantes foi em 1950, justamente quando o país abrigou a competição. A indústria de balas e chocolates "A Americana" lançou o álbum "Balas Futebol", com as figurinhas vindo na embalagem das balas e estampando os jogadores das 16 seleções (metade das equipes participantes em 2006).

Já em 1962, a extinta Editora Vecchi lançou o modelo de álbum que é seguido até hoje, não só com as figuras dos jogadores, mas também com fotos e informações complementares sobre as seleções e sobre o país-sede.

Confeccionados em sua maioria em papel jornal, os álbuns antigos tinham o fundo neutro e poucas gravuras, bem diferentes dos atuais, que mais parecem livros ilustrados. E é nessa tendência que chega às bancas no início de abril o álbum oficial da Copa da Alemanha-2006.

De acordo com José Eduardo Martins, presidente da Panini Brasil Ltda (uma das filiais da editoria de Modena, Itália, que é há 36 anos a única licenciada pela FIFA), o álbum deste ano trará 17 jogadores de cada uma das 32 seleções que participarão do Mundial, indicados pelas próprias federações. "Se colocássemos todos os 23 convocados, teríamos um álbum muito extenso. Ficaria impraticável", explica Martins. Dessa forma, também o risco de errar os nomes é menor.

Além da foto do escudo oficial e da equipe toda em pose, os estádios que servirão de palco para os grandes confrontos também virão estampados, bem como curiosidades e dados do Mundial alemão. Os pacotes com cinco figurinhas serão vendidos nas bancas por R$ 0,60. "O álbum é confeccionado na Itália e exportado para mais de 110 países, incluindo o Brasil", explica Martins.

E os colecionadores já aguardam, de plantão, o novo produto. Vistos pela maioria como obsessivos, esses saudosistas preferem a palavra "hobby".

Ana Luisa Bartholomeu/UOL

Camargo tem mais de 3.000 álbuns.

Fernando Camargo se orgulha da coleção de mais de três mil álbuns de figurinha que conquistou em seus 41 anos de vida. Arte-finalista, ele remete à profissão seu grande interesse pelas imagens. A paixão é tanta que Camargo separou um quarto de sua casa exclusivamente para "abrigar" seus valiosos mimos. "Passo horas aqui, arrumando e organizando tudo, e me orgulho de saber na ponta da língua tudo o que tenho", afirma.

A motivação: nostalgia pura. Para ele, colecionar é uma terapia melhor do que muito divã de psicólogo. "Uso minhas coleções como válvula de escape: esqueço dos problemas", diz Camargo. Difícil, entre todos os três mil álbuns de variados temas, é escolher um preferido. "Todos eles me remetem a boas histórias".

Camargo possui todos os álbuns das Copas a partir de 1950. "A seleção brasileira é uma grande paixão. Só não tenho o álbum da Copa de 54, que é realmente muito difícil de achar. Mas ainda estou atrás. Quero ver minha coleção completa". Suas verdadeiras relíquias são os álbuns das Copas de 62 e 74. "São álbuns que me deram uma certa dificuldade para completar. Por isso, são especiais".

O segredo: paciência e sorte. "Não tenho pressa. De uma forma ou outra, as figurinhas acabam aparecendo". Para completar um álbum que já se encontrava fora de comercialização, Camargo chegou certa vez a surrupiar de uma loja de bugigangas os últimos pacotinhos de figurinha. Sim, pegou sem pagar, porque estava sem um real na carteira. "Foi mais forte que eu. Pensei em tirar dinheiro e voltar depois, mas e se fossem vendidos? Não tive dúvida: peguei! E não é que lá estava a figurinha que me faltava. Pura sorte!", relembra, aos risos.

O VÍCIO DE COLECIONAR

O engenheiro José Roberto Diniz, 46, foi colecionador de álbuns quando adolescente. Acabou abandonando o hobby na vida adulta e só reencontrou a velha paixão quando nasceu sua filha, em 1988. "Lembro que comprei um álbum de Natal para ela, que tinha um Papai Noel bem grande na capa. Como ela era muito pequenininha, quem acabou colecionando fui eu. Foi o bastante para retomar o vício", recorda.

A fissura de Diniz pelas figurinhas é tanta que ele não se importa em assumir que o hobby se tornou um vício. "Cheguei a percorrer 1.200 km em um dia para conseguir um álbum que queria muito".

Hoje, estima que sua coleção ultrapasse 3.500 álbuns diferentes, sem contar os repetidos. Suas raridades já foram o motivo de discussões homéricas com sua outra grande paixão, a mulher, e hoje Diniz procura esconder dela as novas aquisições. "Já falei para ela não me pressionar com a velha pergunta: ou os álbuns ou eu! Ela poderia se surpreender com a resposta", brinca.

Diniz já está na expectativa para adquirir seu mais novo fetiche: o álbum do Mundial de 2006. "Estou ansioso para começar o novo álbum. E preparando meu bolso também", diverte-se, avaliando que, se tudo correr bem, deve gastar cerca de R$250 para completá-lo.

O jornalista gaúcho Flávio Fiorin, 33, também é louco por futebol e coleciona desde figurinhas até camisas de seleções e times do mundo todo. Começou a guardar álbuns em 1978, com a Copa da Argentina. "De lá para cá, colecionei em todos os mundiais. E justamente o de 1978 está incompleto, faltando seis figurinhas. Mas não desisto", conta.

Como todo bom colecionador apaixonado, já chegou a comprar mais de 50 envelopes na expectativa de encontrar uma tão desejada figurinha. "Nem sempre se consegue. Mas aí é que está o barato: o desafio, as incertezas, a expectativa", divaga.

"Para mim, além de ser uma diversão, as coleções fazem parte de um grande arquivo que disponho de jogadores, clubes e federações para futuras consultas. Acaba funcionando também como um instrumento de trabalho", diz o jornalista, que se especializou em esportes.

Sem contar as inúmeras histórias que nascem a partir da busca por uma simples figurinha. "Lembro-me de duas figurinhas do álbum da Copa de 1982, a do Maradona e a do Schumacher, que eram, na época, as mais raras de se encontrar. No troca-troca, valiam cerca de dez vezes mais que qualquer outra. Eu mesmo tive prejuízo para consegui-las".

Os álbuns de figurinha das Copas também já foram motivo de polêmica judicial. Vários jogadores retratados no álbum "Heróis do Tri", da Editora Abril, lançado no final da década de 80, entraram com uma ação indenizatória contra a editora e a CBF por não terem autorizado a reprodução de suas imagens.

Apesar de ter recebido tal denominação, o álbum não foi simplesmente uma alusão aos jogadores que participaram da campanha vitoriosa da seleção brasileira no México, em 1970. Estão incluídas também as imagens, por exemplo, de Didi e Garrincha, entre outros jogadores que defenderam a seleção canarinho nas Copas de 54, 58, 62 e 66.

A indenização foi de R$ 2 milhões, divididos igualmente entre todos os jogadores envolvidos.


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