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07/07/2006 - 14h46

Sucesso no Mundial ofusca crise de identidade francesa

Das agências internacionais
Em Paris (França)
Liderada por um magistral Zinedine Zidane, a seleção francesa faz seu país esquecer, ainda que temporariamente, sua crise de identidade, fomentada por questões raciais, sociais e políticas.

CRISE DE IDENTIDADE

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No referendo de adesão à constiuição da UE, um "não"

Em pouco mais de um ano, a França precisou lidar com intensos protestos contra sua nova política trabalhista, com o retumbante "não" contra a adoção de uma Constituição Européia em referendo e, mais grave: o agravamento da questão racial e imigratória paralelamente à expressão de sua direita, tendo o candidato extremista Jean-Marie Le Pen chegado ao segundo turno nas últimas eleições, seguindo com voz ativa no cenário nacional.

O atual governo conservador de Jacques Chirac lançou uma ofensiva contra a imigração ilegal e está usando crianças registradas nas escolas como forma de localizar família sem documentação. Cerca de 4,5 milhões de imigrantes vivem na França segundo os dados oficiais do Ministério do Interior, que estima que haja entre 200 e 400 mil ilegais no país.

E a seleção nacional nada mais é - com a mesma geração da campanha triunfante de 1998 - do que a expressão inter-racial francesa. Dos 11 jogadores que atuaram na semifinal contra Portugal, só três são brancos e um deles, o jovem atacante Franck Ribery, é um muçulmano convertido.

Capitão e ídolo máximo do time, o branco Zidane é filho de imigrantes argelinos. O zagueiro Lilian Thuram é de Guadalupe e a ascendência do atacante Thierry Henry é do oeste da Índia, enquanto muitos outros têm raízes africanas, como os volantes Patrick Vieira, nascido no Senegal, e Claude Makelele, na República Democrática do Congo, e o zagueiro Jean-Alain Boumsong, em Camarões.

O sucesso esportivo desta equipe multirracial é notado. Quase 22 milhões de pessoas, cerca de 90% da audiência total, ligaram suas TVs para ver a França bater o Brasil nas quartas-de-final, e milhares delas foram às ruas em todo o país comemorar cada vitória.

As vitórias sobre Brasil e Portugal, em especial, provocaram um frenesi coletivo que mobilizou centenas de milhares de pessoas celebrando nas ruas. "É bom vibrar em conjunto. Estas festas superam futebol e expressam um apego formidável à idéia de nação", afirmou o sociólogo especialista em esporte Jean-Michel Faure.

Para o psiquiatra Cristophe André, as manifestações em massa são um fenômeno típico de pessoas em plena "crise de identidade" que têm "tendência a apoiar com mais intensidade sua equipe favorita como se todas as feridas de auto-estima pudessem ser reparadas por meio desta identificação".

A curto prazo, o mais beneficiado por um possível título francês pode ser o presidente Chirac, de 73 anos, e seu primeiro ministro, Dominique de Villepin, que registraram recentemente impopularidade recorde. "O Mundial pode deixar um pouco de lado a inquietude social", analisou Frederic Dabi, do instituto de pesquisas Ifop.

1998, e nada mudou

No entanto, há quem duvide que uma nova conquista possa amenizar os dilemas franceses para o futuro. "A seleção francesa oferece uma imagem extremamente positiva do poder da integração, mas seria muita ingenuidade acreditar que isso reflete nossa sociedade", disse Nonna Mayer, uma socióloga no centro de pesquisa da Science Po.

O próprio direitista Le Pen fez questão de ir direto ao ponto ao dizer que havia muitos "jogadores de cor" na equipe. "Sentimos que a França não se reconhece totalmente neste time."

A conquista de 1998, em pleno solo francês, gerou grandes expectativas em torno de uma aceitação às diferenças raciais do país. Oito anos depois, no entanto, com o time à beira de um novo triunfo, a constatação é a de que isso passa longe da realidade.

"Em 1998 nós falávamos sobre uma França multicultural enriquecida por sua diversidade", disse Vincent Tiberj, da prestigiosa universidade Science Po. "Mas o debate político mudou. A França está tensa e uma a cada duas pessoas não considera a diversidade cultural e religiosa um ativo", acrescentou.

Naquele ano, a França celebrou um raro momento de fraternidade e glorificou a diversidade racial dos "Bleus", exaltado como "preto, branco e beur," sendo beur os franceses oriundos do norte da África.

Depois vieram os ataques de 11 de setembro de 2001, que criou temores do islamismo militante, seguido um ano depois pelo êxito chocante do líder ultra-direitista Jean-Marie Le Pen na eleição presidencial francesa, na qual chegou ao segundo turno.

Tumultos em muitas cidades pobres do subúrbio francês no ano passado só reforçaram a imagem de um país em luta, com jovens se queixando de discriminação, condições de vida precárias e um futuro desalentador.

Por isso, o sucesso inesperado da seleção francesa em 2006 não está criando falsas expectativas. "Temos que ser muito cautelosos para não esperar muito do esporte. Ele não pode resolver todos os nossos problemas", disse o porta-voz do governo Jean François Cope.

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