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O Quadrado Mágico

Morte do pai transforma família em time para lidar com prestígio

Rodrigo Bertolotto

Enviado especial do UOL

Em Porto Alegre

Existe um time em que Ronaldinho joga que é mais entrosado que Barcelona e seleção brasileira juntos: a família Assis Moreira. Nela, cada um guarda uma posição para que o astro brilhe e drible as polêmicas e os deslumbres da fama e dinheiro. Mas uma tragédia familiar aconteceu para que o clã se fechasse tanto. Em janeiro de 1989, quando o meia tinha oito anos, o pai foi encontrado afogado na piscina do casarão para a qual a família mudou meses antes. A casa foi um presente do Grêmio para Assis, o irmão mais velho de Ronaldinho, por ter assinado seu contrato com o clube e não se transferido para o Torino, da Itália.

Arquivo pessoal

Tocando um samba com o irmão Assis...

Arquivo pessoal

...e depois posando para foto sorridente...

Arquivo pessoal

...Ronaldinho já se destacava na base...

Arquivo pessoal

...do Grêmio, exigindo forte marcação...

Arquivo pessoal

...como a do cachorro Bala, 1º `zagueiro´...

Arquivo pessoal

...que driblava; a mãe também foi vítima...

Arquivo pessoal

...de chapéus na casa no bairro Vila Nova...

Arquivo pessoal

...onde nasceu a irmã, Deise, sua assessora

A versão oficial dá conta que seu João sofreu um mal súbito e caiu na água -outras versões, porém, se espalharam logo por Porto Alegre. Depois de perder o emprego como soldador no estaleiro Só, seu João vivia de bicos, como cuidar dos carrões de gremistas que iam ao camarote do estádio Olímpico. A função foi conseguida porque seu filho Assis já se destacava nos juniores do clube. Mas a guinada após o contrato profissional do filho, com a mudança da casa de madeira na rua de terra para um casarão à beira do rio Guaíba, parece ter sido demais.

A morte do maior incentivador da carreira dos filhos (ele disparava para quem elogiava Assis: "O melhor ainda está por vir") foi um preço alto pela ascensão social. Mas a partir daí a família se fechou em copas. "Todo mundo se uniu mais, principalmente para apoiar Ronaldinho, que era o menor. Eu e Assis assumimos o comando. Nossa ligação ficou mais forte", conta a viúva, dona Miguelina.

Local do drama, a piscina foi soterrada. "Não sabíamos o que fazer com a piscina. O local trazia uma lembrança muito ruim", relata dona Miguelina. No lugar está um gramado que rodeia a casa que hoje é o QG dos negócios de Ronaldinho em sua cidade natal.

É de lá que Assis desempenha o papel de procurador-empresário-comentarista exclusivo do caçula. Já a irmã, Deise, cuida da assessoria de imprensa na Europa e eventos em que esteja envolvido. A mãe, Dona Miguelina, faz as vezes de relações-públicas, dando entrevistas e participando de comerciais.

O time se completa com o primo Quim, que é seu personal trainer em Barcelona, e a prima Bárbara, que trabalha de secretária no escritório em Porto Alegre. Já o sobrinho Diego ainda está na reserva da família como no time sub-12 do Grêmio ("Ele está gordinho. É muito comilão", diz César Rocha, o responsável pela meninada do clube gaúcho). Mas o garoto é tão viciado em bola quanto o tio. Tanto é assim que Diego brinca de bola até com os seguranças (policiais de folga) que dão a retaguarda para o clã, amedrontado com as ondas periódicas de sequestros.

O tio aprendeu a driblar rápido com os vira-latas que tinha em casa, Bala e depois Bombom. Tabelava com as paredes, chapelava cadeiras e, eventualmente, contundia algum vaso. Até a mãe, nas horas de folga, era vítima dos dribles do filho. Essa obsessão continuou no clube: Ronaldinho com 10 anos foi proibido por seu técnico no Grêmio de participar a pelada que os funcionários do clube disputavam na hora do almoço.

Depois da fase caseira foi a fase de mostrar seu futebol no campinho do Periquito, clube a 100 metros da casa em que viveu até os oito anos. Lá, Ronaldinho mostrou que, entre a gurizada, era o que sabia mexer o caroço (a bola, para bom entendedor da gíria gaúcha).

O bairro era Vila Nova, um grupo de ruas de terra que avançavam nos campos de videiras na zona Sul porto-alegrense. A mãe trabalhou como merendeira e depois se arrumou como vendedora de produtos Avon e de lingeries. Já o pai, que fora jogador do Cruzeiro de POrto Alegre, saía para promover os filhos e cavar uma vaga em times para eles. Nas horas de lazer, jogava baralho (pontinho e bife) com os vizinhos, entre um gole de pinga e uma lida no jornal, suas três diversões.

Parte da família ficou por lá. É o caso do tio Miquimba, astro do time familiar que joga toda a tarde de sábado. Mesmo no campo irregular de terra, ele brilha com elásticos e chapéus. À beira do campo, a tia Conceição vende salgadinho.

Na vizinha rua Jerolomo Minuzzo, o número 73 mostra que a família há muito saiu de lá. A casa original foi demolida, depois de tomada pelos cupins. Já a mansão no bairro Guarujá foi transformada em escritório de Assis, toda pintada, inclusive as telhas, em azul e branco, cores do Grêmio. No hall, dezenas de pôsteres reproduzindo capas de jornal com seu irmão. De lá, Assis gerencia a carreira do irmão e outros negócios. Ele tem parceria em um clube da segunda divisão gaúcha, o Porto Alegre, e com um clube grego, o Aris. Produz dois grupos musicais (os pagodeiros do Sambatri e os roqueiros do Estereofônica). Além disso, controla os jogadores dos quais detém o passe.

Assis se aposentou dos gramados em 2002 para acompanhar a carreira do caçula. Ele tinha 31 anos e jogava no Montpellier, da França. Ronaldinho passava por um momento duro no Paris Saint-Germain, com técnico Luiz Fernandez boicotando o craque que chegara no ano anterior. Assis despontou como uma estrela no final dos anos 80, mas, entre contusões e transferências arriscadas, acabou fazendo carreira em países de futebol intermediário, como Suíça, México e Japão. Cometeu erros na carreira e não deixou que Ronaldinho repetisse os mesmos equívocos. Programou para o irmão uma chegada progressiva ao sucesso europeu. A passagem por Paris possibilitou uma adaptação ao principal palco do futebol, sem a pressão dos grandes clubes do continente. Em 2003, deu a cartada de transferi-lo para o Barcelona, onde agora ele colhe os frutos do bicampeonato espanhol, o bi também como o melhor jogador do mundo, além do título máximo da Europa, a Liga dos Campeões.

Assis protege tanto o irmão que vai ser o porta-voz oficial dele durante a Copa da Alemanha. O ex-jogador assinou nesta semana um contrato com a RBS (retransmissora da Globo) para trazer na TV, rádio e jornais do grupo o dia-a-dia do centro das atenções neste Mundial. Suas colunas, como falou no anúncio do acordo, vai trazer o "lado familiar, que é a base da carreira do Ronaldinho". Assis terá livre acesso às concentrações da seleção pela Alemanha.

A redoma em volta do craque é comprovada pela notícia de que ele em 2005 virou pai. O menino nasceu em janeiro do ano passado, mas Ronaldinho só admitiu a paternidade em agosto, depois de muita insistência da imprensa e de um exército paparazzi perseguir a mãe da criança, Janaína Mendes, uma bailarina de palco do programa Domingão do Faustão. Em 2006, ele mudou de postura e passou a confessar suas alegrias de pai, babando em frases como "ele já tem sete dentinhos", "já tem oito dentes", "ele já fala papai", "está ficando parecido comigo". Todas essas impressões suas foram tiradas das imagens da webcam de sua casa em Barcelona, único contato com o rebento. O nome do menino é uma homenagem ao avô morto, João.

Publicado originalmente em 2 de junho de 2006

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