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Vinte e Dois

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Obra-prima de Kevin Durant coloca os Nets perto das finais de Conferência

Kevin Durant, do Brooklyn Nets, celebra durante jogo contra o Milwaukee Bucks nos playoffs da NBA - Elsa/Getty Images/AFP
Kevin Durant, do Brooklyn Nets, celebra durante jogo contra o Milwaukee Bucks nos playoffs da NBA Imagem: Elsa/Getty Images/AFP
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Vitor Camargo

Colunista do UOL

17/06/2021 04h00

É inegável que, nos últimos 11 anos, a NBA viveu à sombra de LeBron James —um gigante do esporte, um dos maiores da história, e alguém que foi o foco da liga dentro e fora das quadras durante a maior parte da sua carreira. Sempre houve um entendimento implícito de que LeBron era o melhor jogador da liga, e que todo mundo disputava o segundo lugar —ou esperava por um futuro hipotético onde o posto estaria novamente vago.

No entanto, as pessoas esquecem que houve um momento alguns anos atrás onde existia uma discussão —e um argumento legítimo— a favor de Kevin Durant estar tomando esse posto das mãos de LeBron James. Com um marcando o outro durante Finais consecutivas em 2017 e 2018, Durant levou a melhor, foi o jogador superior durante os dois confrontos, e saiu com dois títulos de NBA e dois MVPs das Finais desses duelos. Apesar de KD jogar em um time claramente superior do Warriors, o que dava a muitas pessoas motivo para pausa, era inegável que KD tinha ascendido a um nível especial, e talvez esse nível fosse destronar LeBron no topo da liga. Não que fosse realmente importante qual dos dois fosse melhor, é claro, e tampouco é o objetivo aqui entrar nessa discussão, mas só de estar na conversa já mostra como Durant havia ascendido a um patamar histórico dentro da NBA.

Mas um ano depois, Durant se machucou com gravidade ao romper o tendão de Aquiles, uma lesão da qual pouquíssimos jogadores da NBA conseguiram retornar em alto nível, e passou uma temporada inteira fora das quadras. Simples assim, a narrativa deixou de ser se Durant era o melhor jogador da NBA e passou a ser se seria possível que algum dia KD voltasse a dominar no nível de antes, com quase 33 anos e vindo de uma das lesões mais devastadoras do esporte.

Em retrospecto, essas perguntas parecem insanas à luz do que Durant fez no Jogo 5 das semifinais do Leste: 47 pontos, 17 rebotes, 10 assistências, 3 roubos e 2 tocos, com 16-23 nos arremessos e jogando todos os 48 minutos da partida, sem um segundo de descanso sequer. Eu obviamente não preciso explicar porque isso é incrível e histórico (e aliás, nenhum jogador da história da NBA já teve essas médias em um jogo de pós-temporada), mas colocando em contexto —série empatada, vindo de duas derrotas, Kyrie fora, Harden extremamente baleado, precisando fazer tudo sozinho— é possível que nós tenhamos visto a maior obra-prima da carreira de Kevin Durant —alguém que tem um MVP, dois títulos, dois MVPs das Finais no currículo e que poderia ter aposentado antes do jogo que já seria um Hall of Famer e um dos 15 maiores jogadores de todos os tempos.

Depois do jogo, o técnico dos Nets, Steve Nash, disse que Durant jogou os 48 minutos porque o time precisou, que se ele tirasse o ala por um minuto sequer o time teria perdido, e é difícil discordar. No primeiro tempo, quando Milwaukee jogou o fino da bola e pareceu trazer todos os ajustes de um ótimo Jogo 4, foi Durant (e Jeff Green, curiosamente escolhido no mesmo Draft pelo mesmo time que KD, o falecido Seattle Supersonics) quem manteve o time vivo com 18 pontos e 9 rebotes em um momento onde o time era incapaz de criar ataque de qualquer maneira. E, no segundo tempo, foi Durant que conduziu a grande virada dos Nets rumo à tão importante vitória que coloca o time a um passo das finais do Leste: 31 pontos, 7 assistências e 8 rebotes, sendo 20 pontos só no quarto período. Ele foi o armador, principal defensor, único protetor de aro E responsável por criar arremessos por conta própria em um time completamente devastado por contusões.

Que Durant é basicamente um jogador do Create a Player de NBA 2K não é novidade: uma combinação impossível de tamanho, mobilidade, habilidade, arremesso e inteligência que deveria ser banida pela Convenção de Genebra de tão injusto que é. Mas, ontem, seu arsenal completo esteva em exibição na sua forma mais brilhante, e os Bucks tentaram de tudo para pará-lo —sem sucesso. Quando Milwaukee recorreu à sua tradicional defesa drop, ele foi lá e conseguiu seus arremessos de meia distância:

Quando Milwaukee manteve Brook Lopez mais perto do corta-luz para tirar o pull up, ele abaixou a cabeça, aproveitou o espaço para pegar embalo e atacou o aro com ferocidade, finalizando através do contato e cavando uma penca de lances livres.

Os Bucks até mesmo tentaram recorrer à sua melhor formação, o quinteto com Giannis de pivô que destruiu os Nets no Jogo 4, mas Durant simplesmente manipulou a defesa como quis até encontrar o mismatch que mais gostava —e fez chover fogo a partir daí.

Não é só pela explosão na pontuação; nós já vimos grandes números na pós-temporada, e grandes pontuadores com atuações dominantes e imparáveis. Mas a de Durant chama a atenção em especial por dois detalhes: primeiro, pela variedade de formas como ele dominou o jogo. Milwaukee tentou (quase) tudo que podia contra ele, tentou marcações diferentes, marcadores diferentes, esquemas diferentes, e Durant não só passou por cima de todos como fez isso recorrendo a um repertório praticamente infinito. Mas, mais do que isso, o mais chocante talvez seja a eficiência: 49 pontos em VINTE E TRÊS ARREMESSOS?! 16 acertos em 23 chutes considerando o nível de dificuldade de cada um deles, enfrentando uma das melhores defesas da NBA, com um time totalmente desfalcado que não conseguia espaçar a quadra ou criar bons arremessos para ele com consistência? Simplesmente não deveria ser possível.

Eu acredito que nós não realmente precisamos ser lembrados do quão imparável Kevin Durant é, mas é sempre bom ver mais um exemplo, e esse talvez seja o melhor jogo da sua gloriosa carreira —o que não é pouca coisa. Mas, mais do que apenas um momento histórico se desenrolando diante dos nossos olhos, foi um momento de afirmação. Aos 32 (quase 33) anos, voltando de uma lesão gravíssima no tendão de Aquiles, Durant não só está de volta fazendo mágica nas quadras da NBA como parece melhor do que nunca, pronto para reivindicar seu lugar não só entre os melhores jogadores e pontuadores da atualidade, mas entre os maiores de todos os tempos. As acusações de "panela" podem acompanhar Durant pela carreira, mas negar seu gênio é absurdo, e o que ele fez terça à noite no Brooklyn é o puro material do qual as lendas são feitas. Foi um dos jogos que me fez ser grato por assistir basquete, aquele jogo que recompensa todo o tempo gasto assistindo jogos "normais" em busca desse um momento mágico que você vai levar para toda a sua vida.

Agora, dito isso...

Uma vez passada a emoção da performance histórica de KD —e eu entendo que pode demorar um pouco - você ainda se lembra de que a série está só 3-2, o que significa que os Nets ainda precisam de mais uma vitória. E, por mais que a vontade seja colocar Brooklyn na próxima fase dado o embalo da performance de Durant e o espetacular colapso (de novo) dos Bucks no segundo tempo, eu não sei se as coisas serão assim tão simples.

Por melhor que KD tenha parecido terça, e por pior que os Bucks tenham se postado quando começou a virada, ainda estamos falando de um jogo no qual os Nets precisaram de uma performance histórica de Durant jogando todos os segundos E Jeff Green acertando 7-8 de suas bolas de três (27 pontos no total) para conseguir uma vitória... e os Bucks AINDA tiveram a cesta do empate nos segundos finais com Giannis livre dentro do garrafão, só para o grego furar um passe fácil. É claro que basquete não é um esporte linear - Milwaukee também chutou 41% de três, e Joe Harris e James Harden não vão arremessar 1-15 para três de novo - mas os extremos a que os Nets precisaram chegar para vencer essa partida em casa oferece uma certa esperança para Milwaukee. Não vou entrar em detalhes a respeito do que os Bucks precisam fazer nos próximos jogos, porque não muda muito de tudo que eu já escrevi sobre o tema, mas Kyrie ainda está fora, Harden ainda está no sacrifício, e Durant vem de uma partida de 48 minutos. Ainda há vida para os Bucks - desde que saibam jogar perto do seu melhor.

Mas os Nets tem Kevin Durant, e isso importa - como fomos lembrados mais uma vez no Jogo 5. E, enquanto ele estiver em quadra, você nunca, NUNCA pode descartar as chances do Brooklyn Nets.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL