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Vinte e Dois

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Como os Bucks empataram a série correndo, e os impactos da lesão de Kyrie

Giannis Antetokounmpo, do Milwaukee Bucks, enterra durante jogo contra o Brooklyn Nets nos playoffs da NBA - Jeff Hanisch/USA TODAY Sports
Giannis Antetokounmpo, do Milwaukee Bucks, enterra durante jogo contra o Brooklyn Nets nos playoffs da NBA Imagem: Jeff Hanisch/USA TODAY Sports

Vitor Camargo

Colunista do UOL

15/06/2021 04h00

Pode parecer um conceito estranho para quem não está acostumado com basquete, mas não deixa de ser verdade: a melhor forma de ter um bom ataque na NBA, ou de acordar um ataque estagnado, é com uma boa defesa.

Pode parecer paradoxal, mas é bem simples. Quando sua defesa cede uma cesta, você precisa cobrar o fundo-bola para recomeçar o jogo do ponto mais distante da quadra; você gasta mais tempo, demora mais para atravessar a quadra, e quando chega ao ataque encontra a defesa adversária bem postada, pronta para defender —o que é chamado de jogar na meia quadra. Em contraste, quando a defesa força um arremesso errado ou turnover, o time recupera a posse mais rápido, mais perto do ataque, e com a defesa adversária ainda em movimento se recuperando. Você consegue espaçar a defesa por uma área muito maior da quadra, e força a tomada de decisões mais rápida. Não é à toa que, na NBA, times tem um aproveitamento e eficiência ofensiva muito maiores em transição do que na meia quadra.

E esse jogo de transição tem sido absolutamente fundamental na série entre Bucks e Nets. Por um lado, o ataque dos Nets já tem talento demais, poder de fogo demais para se defender em condições normais —colocar esse ataque no caos da transição, com a defesa mais bagunçada e precisando enviar mais ajuda, o ataque fica absolutamente imparável, e nós vimos nos Jogos 1 e 2 como Brooklyn usou essas jogadas para emendar sequências de pontos e alargar o placar. Do outro, um time dos Bucks que sofria demais com o espaçamento ofensivo e estava péssimo no ataque desde o Jogo 1 precisava desesperadamente dessas cestas fáceis para colocar Giannis perto do aro e conseguir pontos fáceis para se manter perto no placar. Não é à toa, portanto, que nos quatro jogos da série até aqui o time que dominou a transição ofensiva ganhou a partida.

O Jogo 4 trouxe mais disso. Eu escrevi depois do Jogo 3 sobre as dificuldades ofensivas dos Bucks, como seu ataque estagnado não tem conseguido encontrar cestas fáceis e que a defesa dos Nets tem focado em manter Giannis fora do garrafão para desafiar o grego (e o time em geral) a vencer arremessando da meia distância. Sem boa movimentação de bola e incapaz de castigar com os chutes de fora, os Bucks simplesmente batiam em uma parede perto do aro e ficavam cometendo vários erros contra a defesa postada dos Nets —erros que iniciavam esses contra-ataques mortais.

No entanto, a defesa dos Bucks melhorou no Jogo 3, e eles aproveitaram para inverter essa vantagem. Quando a defesa dos Nets não tem tempo de se posicionar, direcionar ajuda e ocupar os caminhos até o aro, Giannis simplesmente consegue atropelar todo mundo com os espaços que enxerga. Quando ele embala, simplesmente não tem como parar, e foi isso que acabou sendo determinante para a vitória dos Bucks que iguala a série em 2-2: das 14 cestas de Giannis no jogo, 8 vieram em transição, e ele arremessou 8-9 nessas situações— com o único erro vindo em um chute de três. Em contraste, Giannis chutou 6-17 em posses de meia quadra.

E, como dito na outra coluna, isso passa diretamente pela melhora defensiva dos Bucks. O Jogo 4 foi a melhor partida dos Bucks desse lado da quadra em toda a série, não só carregando as melhorias que mostrou no Jogo 3, mas expandindo em relação a muitas delas. Um dos principais pontos que me chamou a atenção foi o quanto os Bucks têm deixado de lado sua tão explorada e criticada defesa drop, e experimentando com variações um pouco mais agressivas. Mesmo quando Brook Lopez foi o alvo dos Nets no pick-and-roll, ele recuou menos que de costume e focou em contestar os chutes médios —o que quebrou um pouco o ritmo dos Nets.

Milwaukee também foi muito mais agressivo com as suas trocas, e foi notável o quão mais confortável o time estava trocando sem medo de tomar bola nas costas. Ajudou nesse sentido que Budenholzer finalmente recorreu à formação que, a meu ver, é de longe a melhor e mais devastadora opção para Milwaukee: quintetos com Giannis de pivô, que espaçam melhor a quadra no ataque e facilitam para o grego chegar até o aro, enquanto podem ser ultra-agressivas e movimentar a marcação com muito mais liberdade na defesa, não oferecendo pull ups fáceis para os Nets —e aproveitando os chutes errados para voar em transição. Bud recorreu a essa formação por menos de quatro minutos no primeiro tempo, e Milwaukee venceu esses minutos por 16-3.

E embora o ataque dos Bucks em nenhum momento tenha parecido tão criativo e eficiente como foi no primeiro quarto do Jogo 3, ele também não foi tão estagnado como no resto da série. Mesmo quando não conseguia sair em transição, os Bucks fizeram um trabalho melhor usando a pressão que Giannis colocava no aro para iniciar sequências de passes. Uma jogada em especial, que os Bucks repetiram várias vezes, me chamou a atenção: um jogador (geralmente Holiday) driblava para dentro, e passava para Giannis na linha dos três pontos; Giannis, então, pegava a bola e atacava direto, em velocidade, forçando a defesa a colapsar no garrafão... e Giannis devolvia a bola para quem iniciou a jogada na linha dos três para um chute ou movimentação de bola.

São ações simples que levaram a chutes melhores e mais movimentação de bola, e embora esse ataque de meia quadra do Bucks não vá ser confundido com o Warriors de 2017, ele gerou ataque o suficiente para complementar a força da natureza que é o ataque de transição do time e impedir que a estagnação tomasse conta. Também ajudou bastante Holiday a, finalmente, embalar na série depois de um fraco começo nos jogos anteriores.

Mas não dá para falar sobre o Jogo 4 e a grande vitória dos Bucks sem adereçar o elefante na sala: a lesão de Kyrie Irving, que saiu do jogo e não voltou mais depois de torcer o tornozelo no segundo quarto. Os Bucks já vinham jogando bem antes da lesão e tinham uma vantagem de quatro pontos na partida. Mas se o sucesso da série (e dos Bucks) é baseado na capacidade de transformar erros do ataque adversário em pontos fáceis de transição, é inegável que a saída de Kyrie ajudou a definir a partida de vez. A saída do armador fez o ataque dos Nets entrar em colapso completo, chutando 43 FG%, 21 3PT% com 11 turnovers e 56 pontos em 30 minutos, e foram justamente esses erros e turnovers que os Bucks usaram para definir o jogo nos contra-ataques.

Ainda não temos informações maiores sobre a extensão da lesão de Kyrie, mas dado o quão feia pareceu, a expectativa por ora é que ele não volte para a série. E, embora sua saída tenha acendido especulações sobre uma volta mais rápida de James Harden às quadras, a verdade é que o outro armador dos Nets não parece próximo do retorno, e o técnico Steve Nash já avisou que não vai apressar sua volta e arriscar agravar a lesão. E, se Kyrie e Harden não jogarem, então a situação dos Nets fica bastante complicada.

Eu falei sobre como o time contornou muito bem a ausência de Harden graças a uma ótima movimentação de bola e capacidade individual das estrelas restantes, mas sem Kyrie, os Nets perdem parte importante dessa capacidade individual e enfrentam dificuldades cada vez maiores para movimentar a bola. No Jogo 3, Milwaukee melhorou na defesa com um estilo mais conservador, que minimizasse ajudas e impedisse a troca de passes, e Brooklyn sentiu a ausência de Harden —tanto ter mais um pontuador capaz de quebrar defesas, como por jogar sem seu melhor passador - e isso fica ainda pior com a ausência de Kyrie. Nós vimos exemplos disso no segundo tempo do Jogo 2: é muito mais difícil para os Nets iniciarem seu ataque sem Kyrie e forçam menos ajuda, enquanto é muito mais fácil para os Bucks sobrecarregarem a defesa contra KD com menos medo de serem castigados por outros coadjuvantes. Isso é um teste para a profundidade dos Nets: é muito mais fácil contornar ou esconder as limitações dos seus coadjuvantes com Kyrie e KD em quadra, mas agora cada detalhe conta. Será que o time pode sobreviver ofensivamente com Brown E Claxton juntos? E se Shamet ou Cabarrot entrarem pelo ataque, como fica o lado defensivo? A volta de Jeff Green vai ajudar, mas os Nets estão de frente para algumas decisões muito difíceis.

Talvez Kyrie e/ou Harden voltem rápido, e nada disso importe. Talvez Durant faça 60 pontos por jogo e Brooklyn avance mesmo assim, porque ele é espetacular. Mas entre as múltiplas lesões se acumulando do lado dos Nets e os Bucks encontrando seu melhor basquete na hora certa, a série parece ter virado completamente de direção. Quem teria imaginado isso cinco dias atrás?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL