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Vinte e Dois

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Que lições podemos aprender de um Jogo 1 eletrizante entre Clippers e Jazz

Donovan Mitchell, do Utah Jazz, arremessa contra a marcação de Reggie Jackson, do Los Angeles Clippers, nos playoffs da NBA - Alex Goodlett/Getty Images/AFP
Donovan Mitchell, do Utah Jazz, arremessa contra a marcação de Reggie Jackson, do Los Angeles Clippers, nos playoffs da NBA Imagem: Alex Goodlett/Getty Images/AFP

Vitor Camargo

Colunista do UOL

10/06/2021 04h00

Uma das coisas mais interessantes em se fazer prévias de séries da NBA é poder olhar para trás depois dos jogos serem realizados - ver quais raciocínios estavam certos, e quais não seguiram o esperado. E ainda que tenha sido apenas um jogo entre Utah Jazz e Los Angeles Clippers, esse Jogo 1 ilustra bem alguns pontos fundamentais para os próximos confrontos.

Como eu escrevi na prévia, um ponto central dizia respeito ao quinteto inicial dos Clippers, e se manteriam a formação mais baixa que virou a série contra Dallas mesmo enfrentando um pivô mais dominante em Rudy Gobert. E não só eles usaram o quinteto small ball para abrir o jogo, como fizeram isso muito bem.

A maior vantagem que esse quinteto trazia era como permitia aos Clippers atacarem a defesa de Utah, espaçando a quadra com cinco jogadores abertos. Gobert é um dos melhores protetores de garrafão da história do basquete, mas essa formação trabalhava no sentido contrário: se o Jazz recuasse Gobert para defender o aro como de costume, isso abria espaço para as ações de LA no perímetro e deixava algum jogador livre na linha dos três pontos; mas, se Gobert saísse da área pintada para defender em espaço, os Clippers usavam sua velocidade para atacar o DPOY onde ele é mais vulnerável e tiravam Utah da sua defesa habitual.

LA até mesmo levou isso um passo adiante, colocando o jogador que estava sendo marcado por Gobert na zona morta oposta à ação - fazendo de Gobert o responsável primário pela ajuda, e abrindo linhas de passe fáceis para iniciar movimentações de bola.

Mas isso já era esperado; era por esse motivo que o quinteto baixo dos Clippers fazia sentido para LA. O que eu não esperava é que essa formação também iria funcionar tão bem defensivamente. Com a grande vantagem de tamanho de Gobert no garrafão, ele deveria ser capaz de punir a diferença de altura, mas não foi o caso. Gobert não é um jogador dominante no poste baixo, e depende dos jogadores do Jazz levando a bola até ele em boa posição, o que não conseguiram fazer consistentemente sem Mike Conley, e Gobert acabou apagado.

Parte disso veio das limitações de Gobert, mas a defesa dos Clippers também fez seu papel. Eles trocaram a marcação em toda posse de bola, e isso atrapalhou o estilo ofensivo do Jazz. Sem grandes criadores individuais e sem Conley, Utah depende muito de um ataque contínuo de movimentação de bola que cria pequenas vantagens e trabalhara para aumentar essa vantagem aos poucos até conseguir os chutes que deseja. As trocas constantes de LA limitaram muito a capacidade de Utah de conseguir botar para funcionar seu jogo coletivo, e tiraram o Jazz da zona de conforto. Utah ainda conseguiu trabalhar as jogadas para chutar um número absurdamente alto de bolas de três, algumas até relativamente livres que simplesmente não caíram, mas o ataque pareceu sem ritmo, incapaz de gerar bons chutes perto do aro para voltar a engrenar.

Mesmo quando os reservas entraram, os Clippers mantiveram o controle do jogo. Sem Ibaka, machucado, Ty Lue até mesmo aproveitou para colocar em quadra DeMarcus Cousins pela primeira vez na pós-temporada. Apesar de lento, Cousins oferece a combinação de jogo de perímetro e tamanho que deu aos Clippers a chance de jogar um pouco mais alto sem perder o espaçamento ofensivo. Cousins jogou apenas quatro minutos, mas anotou seis pontos, pegou três rebotes e foi +6 em quadra.

Esse controle do jogo vindo da decisão na escalação titular foi o que ditou o ritmo do primeiro tempo, que acabou com vantagem de 13 pontos para o time de Los Angeles, ainda que Utah tenha chutado apenas 25% de longa distância —um número que deveria voltar ao normal com o tempo.

Mas, então, começou o segundo tempo, e o jogo mudou por completo. E, se o pivô de 2m16 de altura do Jazz não foi a solução para castigar a falta de altura dos Clippers, Utah acabou encontrando sua resposta em um armador de 1m85. Quando falamos em small ball, as principais deficiências que pensamos a serem exploradas são rebotes de ataque e dificuldade de defender jogadores maiores no garrafão, mas existe uma terceira que apareceu nesse segundo tempo: a falta de proteção de aro. Foi se aproveitando disso que Donovan Mitchell começou o segundo tempo com uma sequência de 10 pontos seguidos para esquentar o jogo.

E foi essa explosão de Mitchell e sua facilidade para finalizar perto do aro que levou Ty Lue a cometer o erro fatal do jogo: com apenas três minutos de quarto, Lue desfez seu quinteto small ball e colocou em quadra Ivica Zubac.

A entrada de Zubac anulou por completo as vantagens táticas que os Clippers tinham explorado no primeiro tempo. A presença do pivô no garrafão ofensivo permitiu a Gobert e Favors permanecerem próximos ao aro sem correr risco de deixar um chutador livre, e com isso Utah pode voltar à sua defesa habitual: atacando ferozmente os adversários na linha dos três pontos, forçando-os a botar a bola no chão e infiltrar até darem de cara com um paredão intransponível. Incapazes de forçar os pivôs para longe do aro, os Clippers sofreram demais para entrar no garrafão, mas também não conseguiu recorrer a bons chutes de longe. Por todo o quarto, os Clippers não conseguiram pontuar.

E embora a entrada de Zubac visasse proteger o aro contra Mitchell e reforçar o lado defensivo dos Clippers, o tiro acabou saindo pela culatra. Apesar da presença mais física no garrafão, Mitchell aproveitou o estilo de defesa drop do pivô para pegar velocidade em espaço e não só continuar atacando o aro, mas também forçar ajuda e distribuir a bola. Com Zubac recuando, os Clippers não podiam mais manter sua defesa baseada em trocas agressivas, e com isso LA não conseguiu mais conter o jogo de infiltração e passe de Utah, que continuou gerando bons chutes de longe —e agora essas bolas caíram.

E Lue, inexplicavelmente, não tirou Zubac de quadra mesmo com o jogo se invertendo a favor de Utah. Nem mesmo Cousins, que pelo menos abriria o ataque, chegou a pisar no tablado. Quando Lue finalmente tirou o Bósnio com três minutos passados no quarto período para voltar com a formação small ball, o Jazz tinha transformado a desvantagem de 13 pontos do intervalo numa vantagem de 6.

E, na reta final da partida, o jogo acabou dependendo justamente de um fator que eu tinha destacado como decisivo na série... mas na direção oposta. Eu achava que o maior conforto dos Clippers com as jogadas de isolação, concentrando a bola nas mãos das suas estrelas, deixava o time mais bem colocado para decidir os minutos finais das partidas, enquanto o ataque mais coletivo do Jazz poderia estagnar. Mas foi Donovan Mitchell quem botou a bola embaixo do braço, atacou a cesta desprotegida dos Clippers e gerou ótimos arremessos durante todo o quarto período, decidindo o jogo a favor de Utah com suas jogadas individuais. E ele não fez isso simplesmente abaixando a cabeça e atacando os ótimos defensores individuais dos Clippers, mas inteligentemente caçando os piores defensores e buscando mismatches na defesa de trocas de LA —uma tarefa que ficou muito mais fácil com Lue inexplicavelmente deixando Luke Kennard em quadra, que Mitchell atacou e fez a festa em cima. Mitchell anotou 16 pontos em 5-8 nos arremessos no período decisivo.

Do outro lado, os Clippers não conseguiram igualar. Embora voltasse a espaçar a quadra, Utah pareceu mais confortável defensivamente dessa vez. O time ainda cedeu alguns chutes longos, especialmente para Paul George, mas o Jazz também foi bastante agressivo em atacar os jogadores certos (leia-se Kawhi e George) para forçar a infiltração, e direcionando as inevitáveis bolas longas nas mãos dos coadjuvantes que ELE queria, não que os Clippers queriam —notavelmente Marcus Morris, que chutou seis bolas longas e acertou apenas uma no quarto período. E, usando essa agressividade para impedir as ações iniciais, Utah conseguia tirar tempo suficiente do relógio para que Gobert pudesse sair mais confortavelmente do garrafão para defender, já que LA teria menos tempo para castigar sua menor mobilidade.

E foi exatamente isso que definiu a posse final da partida: os Clippers executam uma ação no topo do arco para Kawhi e Paul George, mas a defesa agressiva de O'Neale e Ingles força a bola até Marcus Morris, em teoria o homem livre no perímetro marcado por Gobert. Só que, com o tempo acabando, Gobert pode tranquilamente ir até a linha dos três para defender Morris; Morris tenta o chute, e acaba bloqueado para a vitória de Utah.

Foi um excelente jogo, muito instrutivo, e eu mal posso esperar pelo próximo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL