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Vinte e Dois

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

O que esperar da semifinal do Oeste entre Utah Jazz e Los Angeles Clippers

Paul George, do Los Angeles Clippers, encara a marcação de Mike Conley, do Utah Jazz, em jogo da NBA - Jayne Kamin-Oncea/USA TODAY Sports
Paul George, do Los Angeles Clippers, encara a marcação de Mike Conley, do Utah Jazz, em jogo da NBA Imagem: Jayne Kamin-Oncea/USA TODAY Sports

Vitor Camargo

Colunista do UOL

08/06/2021 04h00

Eu sempre acreditei que, o longo da história de certos times na NBA, você vai encontrar momentos críticos que podem definir a trajetória daquele núcleo - por bem ou por mal. Enquanto um momento de superação contra adversidade pode aumentar o nível de confiança e química dentro de um time rumo a voos maiores, uma derrota humilhante pode criar rachaduras que acabem por destruir uma equipe.

E embora não seja possível cravar com antecedência, especialmente no calor do momento e sem ter ainda a visão do todo, a vitória sobre os Mavericks passou a sensação de que pode acabar sendo uma virada de chave na trajetória desse LA Clippers, especialmente depois do fiasco que foi 2020. Ao longo de toda a série, os Clippers se encontraram diversas vezes com as costas contra a parede: perderam os dois primeiros jogos em casa e pareciam totalmente abatidos, sem resposta e prontos para entregarem os pontos, mas se recuperaram em Dallas e empataram a série. Os Mavs venceram o Jogo 5 com uma performance histórica de Doncic e colocaram os Clippers a uma derrota da eliminação, mas novamente LA venceu quando precisava. No Jogo 7, toda a pressão do mundo estava do lado de Los Angeles e novamente Luka teve um jogo histórico. Mesmo assim os Clippers dominaram o jogo e saíram com uma vitória convincente. Ao longo da série, LA teve muitos momentos em que poderia ter virado de lado e desistido, entrado em desespero ou sido sobrecarregado, mas a equipe mostrou uma força mental e resiliência verdadeiramente impressionantes para superar as adversidades e avançar de fase. O tempo vai dizer se isso foi um momento de virada com um significado maior ou apenas um ponto fora da curva. No entanto, para um time cuja maior parte das dúvidas vinha da sua falta de identidade e capacidade coletiva nas horas críticas, a resposta foi impressionante.

Os Clippers agora enfrentam Utah Jazz, o time de melhor campanha da NBA. Vai ser muito interessante ver como a equipe entra para essa série: se absorve os ajustes e adaptações que fez nas disputas contra Dallas ou se encara como algo novo e volta "do zero".

O grande ajuste dos Clippers que mudou a série contra Dallas foi abraçar de vez o small ball, colocando seu pivô (Zubac) no banco e Batum de titular. Sem pivô, LA conseguiu espaçar melhor a quadra no ataque para focar nas bolas de três, seu grande trunfo na temporada regular, enquanto tirava o elo fraco da sua defesa que Luka estava explorando com tanto sucesso. Essa foi de longe a melhor formação dos Clippers e, em teoria, é de se esperar que a equipe leve essa formação para o resto da pós-temporada.

Mas parte importante do sucesso do small ball dos Clippers veio do fato que Dallas não tinha os jogadores para punir a falta de altura da equipe de LA. Porzingis e Kleber são jogadores altos, mas voltados para o perímetro, que não assustam nos rebotes ou dentro do garrafão, então LA pôde jogar baixo sem se expor aos riscos comuns dessa tática. O Dallas até tentou contra-atacar com Boban Marjanovic no garrafão, mas, embora a presença do gigante tenha ajudado no ataque, ela também criou um problema enorme na defesa, e o Clippers aproveitou para destruir a defesa dos Mavs. Mesmo com Boban, a equação ainda pendia muito mais a favor do Clippers quando essa formação baixa estava em quadra.

Utah, no entanto, tem em Rudy Gobert exatamente o tipo de jogador de garrafão que faltou aos Mavs. Apesar de ser mais famoso pela sua defesa ainda, o pivô é um ótimo jogador ofensivo, muito perigoso cortando para a cesta e mais do que capaz de punir times mais baixos no garrafão com seus rebotes e finalizações. E embora o Jazz também use Gobert defendendo mais próximo da cesta em grande parte do tempo - como os Mavs tentaram fazer com Boban - o francês é um defensor infinitamente superior, e Utah em geral um time muito mais confortável e experiente defendendo ao redor desse esquema do que Dallas.

Isso oferece um dilema interessante. De certa forma, é verdade que você quer atacar Gobert e a defesa do Jazz forçando o pivô a sair do garrafão e defender na linha dos três pontos, o que os Clippers estariam bem qualificados para fazer com essa lineup baixa, mas a decisão também expõe muito defensivamente. Contra Dallas, esses dois aspectos ainda estavam muito mais favoráveis aos Clippers. Contra Utah? Eu não tenho certeza se não favorece o Jazz.

Um meio-termo para os Clippers seria usar Serge Ibaka como titular. Ele oferece boa proteção de aro e altura no garrafão, além de ter um bom chute de longe e poder para puxar Gobert no pick-and-pop. Esse seria o melhor dos dois mundos para os Clippers, uma forma de manter o estilo com cinco jogadores abertos no ataque sem sacrificar tanto em altura na defesa. Mas Ibaka está lidando com lesões nas costas e perdeu cinco jogos contra Dallas, portanto, é incerto se ele vai conseguir ser um fator na série.

Sem Ibaka, caso os Clippers optem por Zubac titular, eles precisarão forçar a defesa do Jazz de outras maneiras. Uma das maiores fraquezas (no papel) do Jazz são os armadores nos moldes Steph/Lillard que chutam de três pontos a partir do drible no pick-and-roll. Como Gobert recua para o garrafão nessas jogadas, isso abre espaço para tais arremessos e coloca muita pressão no outro defensor envolvido para contornar o corta-luz e contestar o chute por trás. Embora os Clippers sejam excelentes nas bolas de três pontos (e foi o fator chave na sua vitória no G7 contra Dallas), eles não têm esse tipo de jogador. LA está no seu melhor de trás do arco quando roda a bola em busca de jogadores livres. Kawhi e Leonard são ótimos chutadores e capazes de fazer isso algumas vezes, claro, mas não é onde está o melhor do seu jogo, e Utah provavelmente vai aceitar que eles saiam das suas características para caçar tais arremessos.

MasLA também é elite nos chutes de meia distância, e esse é exatamente o tipo de arremesso que a defesa do Jazz força que seus adversários tentem. Parte do que fizeram os Grizzlies tão resilientes contra o Jazz na primeira rodada foi justamente que o time domina essas as bolas médias, e LA pode aproveitar isso ainda melhor. Kawhi Leonard, em especial, vai fazer a festa se tiver espaço da meia distância. Isso bate de frente com a outra fraqueza do Jazz, que é a falta de defensores mais físicos de perímetro para marcar alas mais altos como Kawhi. Royce O'Neale geralmente é quem fica encarregado do mais perigoso pontuador adversário no perímetro, mas ele não consegue defender Leonard sozinho, e Paul George também pode aproveitar alguns missmatches. A defesa coletiva do Jazz é de elite, mas tem buracos individualmente. Os Clippers tentarão atacar esses espaços em isolação ou com ações simples.

Do outro lado, vai ser interessante ver como os Clippers - um time cuja principal força defensiva está no trabalho individual de suas duas estrelas - defendem um ataque do Jazz que depende tanto do seu coletivo. Quando o ataque de Utah está afiado é lindo de se ver. No Jogo 5 contra Memphis proporcionou um show de cortes, movimentação de bola e decisões rápidas e inteligentes buscando companheiros livres. Os cinco jogadores em quadra parecem partilhar uma mesma mente, e todas as ações são conectadas e sincronizadas num nível quase supernatural para gerar uma infinidade de bolas longas. Utah deve conseguir atacar a defesa do Clippers com isso, forçando muitas trocas e movimentações contínuas, mas o calcanhar de Aquiles do time tem sido quando o jogo desacelera e depende de jogadas individuais. Será que Donovan Mitchell consegue bater de frente com Kawhi num duelo por pontos?

Para mim, essa vai ser a chave da série. Esses são dois times que dependem muito das bolas de três e são excelentes gerando esses chutes, mas o que fazer quando as bolas simplesmente não estão caindo? No caso dos Clippers, nós sabemos a resposta e, inclusive, vimos em ação contra Dallas: coloque a bola nas mãos de Kawhi e deixe ele atacar no um contra um - ainda mais contra um time sem boas opções de defesa individual.

No caso do Jazz, a resposta é mais nebulosa. Só porque não conseguiu resolver esse enigma no passado, não quer dizer que continue assim com um time visivelmente melhor. Ainda assim, é uma interrogação legítima sobre como Utah vai atacar os defensores de elite do Clippers. E, para mim, a dúvida é suficiente para fazer a série na direção de LA - por um fio.

Palpite: Clippers em 7

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL