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Vinte e Dois

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Analisando a semifinal do Oeste entre Phoenix Suns e Denver Nuggets

Nikola Jokic, do Denver Nuggets, arremessa sobre a marcação de Deandre Ayton, do Phoenix Suns, em jogo da NBA - Christian Petersen/Getty Images/AFP
Nikola Jokic, do Denver Nuggets, arremessa sobre a marcação de Deandre Ayton, do Phoenix Suns, em jogo da NBA Imagem: Christian Petersen/Getty Images/AFP

Vitor Camargo

Colunista do UOL

07/06/2021 04h00

Entre todas as séries de primeira rodada dos playoffs da NBA, eu não acho que dois times tenham passado por um caminho tão esquisito para chegar nas semifinais de conferência quanto Phoenix Suns e Denver Nuggets.

A série entre Suns e Lakers, em particular, pareceu mais uma montanha russa do que basquete, de tantas reviravoltas. Os Suns começaram o Jogo 1 no controle e abriram vantagem, mas a lesão de Chris Paul mudou tudo na outra direção; os Lakers se ajustaram, venceram os Jogos 2 e 3 e pareciam claramente superiores. Só que daí foi a vez de Anthony Davis se machucar no Jogo 4, e Phoenix retomou a dianteira da série para vencer em seis jogos.

Os Suns merecem os créditos pela resiliência e pela capacidade de adaptação contra um adversário complicado, mas é também difícil de negar que as lesões foram o principal fator em ditar o tom da série (para os dois lados).

Já o confronto entre Nuggets e Blazers pode não ter chamado tanta atenção, mas foi tão interessante quanto - e incluiu o melhor jogo dos playoffs até aqui. A grande história foi o duelo espetacular entre as estrelas Lillard e Jokic, e grande parte da vitória dos Nuggets veio das atuações magistrais do seu MVP, especialmente nos dois jogos decisivos. No Jogo 6, em especial, Jokic anotou 20 pontos no terceiro quarto (e 38 no total) para tirar Denver de uma desvantagem de 19 pontos e levar o time a fechar a série.

De certa forma, o que ditou o tom da série foi a defesa dos Blazers sobre o sérvio. A estratégia de Portland, que eu detalhei em outra coluna, era a de marcá-lo ao máximo no um-contra-um, evitar ajuda de defensiva, tirar os passes e forçar o jogador a pontuar por conta própria. Jokic fez sua parte, e os números ofensivos dos Nuggets foram bons em geral, mas por quatro jogos a tática pareceu ter funcionado para cansar o MVP, desgastar a defesa de Denver e esfriar seus coadjuvantes - o astro tinha média de apenas três assistências por jogo, e a série estava empatada.

Mas a estratégia caiu por terra no Jogo 5, quando os Blazers - talvez por fadiga, talvez por simples erro mental - acabaram mudando a estratégia e dobrando mais em Jokic quando ele estava pegando fogo. Por mais que os números indiquem que o ataque dos Nuggets já estava bom antes e que essa estratégia deixe seu time vulnerável a tomar 40 pontos do MVP da NBA, a série foi decidida no momento que os Blazers mudaram de tática e começaram a dobrar em Jokic. Ele ganhou o espaço que precisava para fazer seus passes magistrais, os coadjuvantes de Denver pegaram fogo, e o time anotou os pontos que precisava para levar os Jogos 5 e 6.

Trago isso aqui porque o dilema de como defender Jokic também vai ser o pilar tático central dessa semifinal. Vendo o relativo sucesso dos Blazers, é possível que os Suns tentem copiar a tática: deixem Ayton marcando o astro, o resto da defesa fica no seu homem, e pronto. Mas falar é muito mais fácil do que fazer, e isso dependeria muito de Ayton. Ele não é um bom defensor (e muito inferior a Nurkic), mas também não é péssimo; ele tem a combinação de tamanho, força e envergadura para pelo menos não ser dominado fisicamente e dificultar os arremessos do sério. Foi assim que o pivô de Phoenix fez um trabalho tão sólido em Anthony Davis na primeira rodada.

Mas os Nuggets são muito melhores espaçando a quadra e rodando a bola que os Lakers; caso os Suns decidam por essa abordagem, Denver deve usar mais Jokic fora da bola - pick-and-rolls, handoffs, ações secundárias - para forçar Ayton a defender em espaço e tomar decisões, o que ele é muito pior fazendo. Isso também tiraria o único protetor de aro de um time baixo de Phoenix de perto da cesta e poderia até mesmo sobrecarregar Ayton em faltas.

Como os Suns navegarão esse dilema, e como o ataque de Denver se ajusta, vai ser o ponto chave do confronto. O fato de que Phoenix é um time muito mais bem equipado com seus alas para defender o segundo melhor jogador de Denver, Michael Porter Jr, pode ser um fator importante caso decidam sobrecarregar Jokic.

Onde os Nuggets mais sofreram contra os Blazers, no entanto, foi do outro lado da quadra. A defesa foi absolutamente terrível, e os armadores velozes de Portland conseguiram infiltrar com enorme facilidade, forçar ajuda defensiva e iniciar sequências de passes que levaram a uma chuva de bolas longas. Denver está desfalcado demais para ter pernas frescas e acompanhar esse tipo de velocidade, especialmente considerando que o time está sem três dos seus principais jogadores de perímetro (Murray, Dozier e Barton). Em certo momento o time parecia simplesmente esgotado demais para correr na defesa e apostou em vencer no volume ofensivo.

O ataque dos Suns não é tão bom como o dos Blazers, mas ainda é um dos melhores da NBA e possui algumas semelhanças consideráveis com o do time de Portland: a baixa estatura, a capacidade de espaçar a quadra e a criação concentrada em dois excelentes armadores em Chris Paul e Devin Booker. Com tantos desfalques, Denver não tem opções suficientes para defender essa dupla; Rivers fez um trabalho espetacular em CJ McCollum na primeira rodada, mas Booker é melhor, maior, mais forte e muito mais difícil de ser marcado. Parte de mim gostaria de ver os Nuggets usando Aaron Gordon para defender Booker em alguns momentos, mas isso deixaria um jogador bem mais baixo defendendo Crowder ou Bridges, e os alas de Phoenix são muito mais perigosos e agressivos aproveitando missmatches.

Ainda assim, eu não consigo deixar de achar que esse confronto é um pooouco mais vantajoso para a defesa de Denver em relação à série passada. O que matou defensivamente os Nuggets foi a velocidade dos armadores de Portland e como eles conseguiam infiltrar e obrigar a defesa a reagir de bate-pronto. Os armadores dos Suns têm um jogo ligeiramente diferente, mais cadenciado e lento, baseado no controle do ritmo e não tão atlético e veloz. De certa forma, eu acredito que isso é preferível para a cansada defesa de Denver; Paul e Booker vão dar muito trabalho, com certeza, mas esse jogo mais cadenciado e de meia distância permite à defesa dos Nuggets ficar mais bem postada e minimizar a ajuda defensiva e rotações confusas que levam às bolas livres de três, as bolas que os Blazers usaram para apertar tanto a série.

Uma forma dos Suns minimizarem isso - e que você pode apostar que vai acontecer bastante - é acelerar o ritmo e correr após rebotes defensivos para tentar pegar a defesa em movimento e desmontada, como fizeram com muito sucesso contra os Lakers; mais um motivo, aliás, pelo qual o ataque de Denver pontuando consistentemente é chave.

E, claro, a grande variável que pode mudar a série é o ombro de Chris Paul. Ele é um mestre do pick-and-roll, e por mais que Jokic seja um sólido defensor, um Paul saudável consegue atacar o pivô e forçar o sérvio a marcar em espaço, quebrando toda a defesa - foi o que ele fez no começo da série contra Los Angeles antes de a lesão acontecer. Se Denver mantiver a defesa honesta para minimizar ajuda, Paul é capaz de botar a bola embaixo do braço e fazer 30 pontos para castigar essa estratégia melhor do que talvez qualquer armador da história da NBA tirando Curry.

Mas o Paul que vimos na série contra os Lakers após a lesão não é esse. Ele teve seus momentos decisivos nos chutes médios, mas está bastante hesitante em bolas mais longas e não está tão dinâmico a partir do drible. ESSA versão de Paul ainda vai castigar Denver da meia distância, mas é uma que os Nuggets provavelmente aceitam que arremesse 25 vezes no jogo se isso significar podar o resto do ataque.

Esse equilíbrio - o quanto Denver pode aceitar o chute médio de Paul em troca de manter sua defesa postada - depende diretamente de quão saudável o ombro do armador estará. Quanto mais perto de 100% Paul estiver, mais a série pende para Phoenix; quanto mais limitado, mais os Nuggets têm a vantagem.

No fim do dia, eu acabei optando por apostar em Phoenix; a tendência de Paul é ir melhorando com o tempo, e Denver está machucado demais, com alternativas de menos, para responder caso o armador consiga impor seu jogo sobre a série. Mas ele dificilmente estará 100%, e a margem de erro é mínima; Jokic tem tudo para dominar essa série ofensivamente, especialmente se os Suns não forem tão extremos na forma de defender o pivô e permitirem que seus passes ditem o ritmo para a série.

Essa série promete.

Palpite: Suns em 7

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL