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Vinte e Dois

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Prévia da semifinal do Leste entre Philadelphia 76ers e Atlanta Hawks

Ben Simmons, do Philadelphia 76ers, encara a marcação de Clint Capela, do Atlanta Hawks, em jogo da NBA - Bill Streicher/USA TODAY Sports
Ben Simmons, do Philadelphia 76ers, encara a marcação de Clint Capela, do Atlanta Hawks, em jogo da NBA Imagem: Bill Streicher/USA TODAY Sports

Vitor Camargo

Colunista do UOL

06/06/2021 04h00

Como esperado, o favorito Philadelphia 76ers passou com facilidade pelo Washington Wizards em cinco jogos, com a única derrota vindo após a lesão do seu melhor jogador. Enquanto isso, o Atlanta Hawks também mostrou absoluto domínio sobre o New York Knicks, fechando a série em pleno Madison Square Garden por 4 a 1. E, assim, a segunda semifinal do Leste está montada.

Os Hawks, naturalmente, entram na série como grande azarões. O Leste esse ano tem um claro top 3: Sixers, Bucks e Nets, que estão visivelmente acima do resto da conferência, e o desnível para o adversário é considerável. O time da Filadélfia é simplesmente melhor, mais completo e com mais talento de alto nível. Falar isso não é desrespeitar Atlanta, é simplesmente constatar os fatos como eles são.

Dito isso, preciso admitir que fiquei bastante impressionado com o desempenho dos Hawks na primeira rodada. Eu já tinha o time em alta conta, e até mesmo apostei neles para vencer a série e avançar, mas ele acabou superando em muito minhas expectativas. Os Hawks não simplesmente venceram os Knicks; eles dominaram a série de forma absoluta, em todos os aspectos do jogo. Seu ataque foi dominante, sua defesa engoliu o ataque adversário, a superioridade tática foi notável, e a cabeça fria e capacidade de executar seu melhor basquete foi genuinamente impressionante. É verdade que o time de Nova York deu uma bela de uma ajuda com uma série absolutamente péssima, mas isso não apaga os méritos da equipe da Georgia.

Mas, mesmo assim, é difícil enxergar Atlanta sendo genuinamente competitivo contra um Sixers saudável. Muitas das vantagens que os Hawks tiveram sobre os Knicks e dos fatores decisivos que levaram à sua dominação na série mudam completamente de figura contra um time muito superior como Philadelphia.

Parte importante da dominação defensiva dos Hawks contra NY teve a ver com a performance defensiva espetacular de Clint Capela, que foi um monstro na série; ele foi o principal encarregado da ajuda defensiva de Atlanta e esteve em todos os lugares da quadra. Toda vez que Julius Randle atacava ou que RJ Barrett infiltrava, Capela estava lá fechando o caminho, dando tocos e protegendo o aro. Essa capacidade de executar diversos papeis ao mesmo tempo foi fundamental para a defesa agressiva do time sufocar um ataque muito pouco criativo dos Knicks. Mesmo quando NY chegava no aro, Capela estava lá para atrapalhar.

Mas parte disso veio do fato de que os Knicks eram um adversário perfeito para Capela; entre Tom Thibodeau se recusando a jogar com Randle de pivô e a falta de adversários minimamente perigosos na posição 5, o pivô podia ficar em posição de ajuda praticamente o jogo todo, sem se preocupar em caçar jogadores mais habilidosos pelo perímetro ou então em ser tirado de perto do aro por um bom chutador. Mas os Sixers têm Embiid, que oferece um desafio totalmente diferente e vai forçar Capela a ser o defensor primário em grande parte das ações, eliminando muito da sua efetividade na ajuda. Embiid também é um excelente arremessador, o que vai forçar o pivô dos Hawks a jogar mais longe do aro - onde ele tem dominado jogos.

Embora Capela seja um excelente defensor, ele não é exatamente o jogador ideal para defender Embiid no mano a mano. Não tem a força necessária para isso - para ser justo, poucos jogadores na NBA inteira têm. O pivô dos Sixers tende a sobrecarregar seus defensores com faltas, mas as outras opções de Atlanta para a função são terríveis: Okwongu não tem a menor chance, e Collins seria engolido vivo. Capela é a única opção, mas isso gera todos os efeitos já descritos.

Vai ser interessante ver como os Hawks embaralham os matchups defensivos para compensar essa falta de Capela na ajuda; talvez mantendo John Collins - um defensor fraco, mas alguém capaz de proteger o aro e distribuir tocos - em cima de Ben Simmons para ele poder ficar mais livre perto do aro e fazer a dobra quando necessário, o que também colocaria o ótimo DeAndre Hunter marcando Tobias Harris. Mas com isso Atlanta se arrisca a deixar Trae Young isolado defendendo ações contra Simmons e um dos bons arremessadores de Philadelphia no perímetro.

Esse é outro ponto crítico da série: os Sixers não deixarão Atlanta esconder Trae Young na defesa com tanta facilidade. Contra NY, os Hawks colocaram Young marcando Reggie Bullock, o que significa que ele praticamente não foi envolvido como defensor. Quando foi, Bullock não mostrou a capacidade de castigá-lo botando a bola no chão. Os Sixers também não têm armadores dinâmicos criando a partir do drible - seu ponto forte é justamente no trio mais pesado - mas Seth Curry e Danny Green são mais do que apenas bons arremessadores estáticos.

Eles estão entre os melhores da NBA em se movimentar sem a bola, e Philadelphia é muito inteligente na forma como envolve os dois nas ações ofensivas para colocar seus defensores em espaço. Trae é péssimo nisso, e Philly vai atacar ele dessa maneira, forçando o armador de Atlanta a tomar decisões e até mesmo ter que defender a ocasional troca de marcação - o que pode até mesmo desgastar Trae do outro lado da quadra.

E esse, aliás, é o ponto que mais me interessa nessa série: como Young vai enfrentar a defesa dos Sixers. Philly defende o pick-and-roll de forma bastante semelhante aos Knicks, e nós vimos o que aconteceu na primeira rodada: NY continuava recuando seus pivôs para fechar o garrafão e desafiando o armador dos Hawks a pontuar usando o seu floater, o que ele fez de novo, de novo e de novo. Para piorar, essa estratégia conservadora também abriu espaço demais para Young, que usou seu drible para chegar no ponto que queria da quadra e abrir uma infinidade de linhas de passe. Os Hawks vão apostar que seu armador seja capaz de fazer o mesmo contra a defesa de Philly, e Trae é um dos melhores nisso na NBA, mas a defesa adversária não deve dar oferecer mesma facilidade.

Os defensores de perímetro dos Sixers são bem melhores que os dos Knicks em perseguir jogadores ao redor do corta-luz e manter a pressão mesmo depois da ação inicial, o que vai obrigar Trae a brigar mais para manter a jogada viva e continuar a botar pressão sobre seus floaters. E eles podem fazer isso porque Embiid é monstruoso engolindo a região perto do aro, muito mais agressivo e capaz de contestar esses arremessos intermediários sem ceder o passe fácil para o pivô. Engajados e saudáveis, Simmons, que deve marcar Trae durante boa parte do tempo, e Embiid são dois dos cinco melhores defensores da NBA, e os dois estarão bafando no pescoço do armador de Atlanta.

O ataque do Hawks é maior e mais variado do que apenas Young no pick-and-roll, é claro, mas ainda é a principal jogada da equipe. Se a defesa dos Sixers conseguir desacelerá-la, o oponente perde muita força. Outro ponto interessante a se observar é como os Hawks - cujo time titular é muito completo e não oferece boas opções para marcadores ruins se esconderem - vão atacar Seth Curry, para tentar tirá-lo de quadra e aliviar os problemas defensivos para Young do outro lado.

Só que todos esses motivos pelos quais eu acredito que os Sixers tenham uma grande vantagem sobre os Hawks dependem de um fator chave: Joel Embiid. Ele é o melhor jogador de Philly, o provável #2 na votação para MVP e sua presença é o fator que desequilibra tudo dos dois lados da quadra. Só que Embiid machucou o joelho no Jogo 4 da série contra Washington, perdeu o Jogo 5, e seu status está totalmente em dúvida para os próximos dias. A informação oficial é de que ele tem uma ruptura menor no menisco, o que é uma lesão que permite ao jogador atuar, mas corre o risco constante de reagravá-la. E a situação do pivô é a grande dúvida da série: ele vai conseguir jogar? Vai ter restrição de minutos? Vai estar perto de 100%? São perguntas sem resposta, e que podem mudar toda a série.

Se Embiid não jogar, os Hawks têm uma chance. Esse time é legitimamente bom, tem muitas opções, e o que mostraram contra o Knicks foi impressionante.

Mas, a essa altura, a presença de Embiid ainda paira sobre a série, e com ele os Sixers estão em outro nível. Eu espero que os Hawks deem mais trabalho do que o esperado para os Sixers, talvez até forcem um Jogo 7 caso Embiid perca alguns jogos, mas não mais do que isso.

Palpite: Sixers em 6

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL