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Vinte e Dois

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Como a lesão de Jamal Murray afeta o presente e o futuro do Denver Nuggets

Jamal Murray em ação pelo Denver Nuggets contra o Chicago Bulls em março - Matthew Stockman/Getty Images/AFP
Jamal Murray em ação pelo Denver Nuggets contra o Chicago Bulls em março Imagem: Matthew Stockman/Getty Images/AFP

Vitor Camargo

Colunista do UOL

15/04/2021 04h00

O jogo entre Denver Nuggets e Golden State Warriors, disputado segunda à noite em San Francisco, deveria ser um de comemoração. Stephen Curry, o grande ícone da dinastia do Warriors no século 21, tinha acabado de ultrapassar o lendário Wilt Chamberlain como maior pontuador da história da franquia. Mas o que deveria ser uma noite de comemoração virou de tristeza quando, faltando 50 segundos, o armador Jamal Murray, do Denver Nuggets, foi ao chão sentindo o joelho.

Na manhã seguinte, veio a confirmação do que todos suspeitavam, mas ninguém queria ouvir: Murray rompeu o ligamento cruzado anterior do joelho e está fora do resto da temporada.

Além de trágica no nível pessoal, a notícia é um grande baque para as pretensões do Denver Nuggets, um dos times mais divertidos da liga. Mesmo tendo perdido seus dois últimos jogos, o Nuggets ainda vinha de 17 vitórias em 20 jogos e parecia pronto para entrar no seleto rol dos candidatos ao título da NBA. A perda do seu segundo melhor jogador pode ter enterrado esses sonhos, o que é especialmente brutal considerando o quão aberto o título da NBA parece nessa temporada. Além disso, deixa Denver procurando desesperadamente por novas respostas sobre como continuar um time competitivo sem o seu armador.

Para a temporada regular, Denver provavelmente consegue sobreviver mesmo sem sua outra estrela. A equipe deve voltar o argentino Facu Campazzo para o quinteto titular, como vinha fazendo antes do retorno de Murray. Campazzo não oferece a mesma capacidade pontuadora, mas sua genialidade como passador e criador ajuda o Nuggets a manter sua movimentação de bola e espaçamento funcionando para elevar os coadjuvantes, e Facu tem acertado o suficiente dos seus arremessos (38% de três) para manter defesas honestas. Michael Porter Jr tem brilhado em um papel a lá Klay Thompson, criando oportunidades precisas da bola nas mãos e arremessando com extrema eficiência, mas agora tem a chance de expandir seu jogo e ajudar a absorver a carga criativa que o time perde sem Murray. A lesão não deve impedir Denver de manter a quarta colocação no Oeste e até continuar de sonhando com o terceiro lugar.

Nos playoffs, no entanto, a coisa muda de figura. O jogo na pós-temporada desacelera, fica mais apertado e truncado, e o esquema lindo de movimentação de bola do Nuggets tende a ser menos eficiente. Nessas horas, você precisa de jogadores capazes de criar (e acertar) arremessos difíceis nos segundos finais do relógio, quando seu time não conseguiu gerar um bom arremesso, e boas defesas forçam cada vez mais os ataques para fora da sua zona de conforto.

Murray já mostrou que é capaz de fazer isso contra os melhores times da NBA: ano passado ele fez chover fogo para cima do Utah Jazz na primeira rodada dos playoffs, terminando a série com 34 pontos por jogo de média (incluindo duas partidas com 50); uma rodada depois, Murray arrasou o Clippers com 40 pontos no Jogo 7 decisivo. Nos dois últimos anos, Murray tem média de 24 pontos por jogo, com ótima eficiência em pós-temporada, consideravelmente, acima dos seus números de temporada regular. O jogo do canadense é simplesmente feito sob medida para a pós-temporada; o Nuggets não chegaria nas finais do Oeste em 2020 se não fosse pelo jogo de meia distância e capacidade de acertar chutes difíceis de Murray.

No papel, você pode argumentar que Denver está mais bem equipado neste ano para substituir essa produção com o que tem hoje no elenco. Michael Porter Jr, no seu segundo ano, está mais pronto para assumir parte desse papel. O próprio Jokic está mais confortável do que nunca assumindo a responsabilidade ofensiva e pontuando por conta própria (uma parte importante da sua candidatura para MVP), registrando as maiores médias da sua carreira em arremessos e pontos sem perder a incrível eficiência que faz dele um jogador tão dominante. Gordon pode aumentar seu volume ofensivo. Entre os três, Denver tem opções para distribuir os arremessos que perde com Murray e continuar sendo um time perigoso.

Mas infelizmente basquete não é tão simples assim, e são nas nuances que moram os maiores problemas. Porter só está no seu segundo ano, e Gordon acabou de chegar.

Murray e Jokic têm jogado juntos por cinco anos, e nesse tempo eles desenvolveram o tipo de química e entrosamento que só é possível com as repetições acumuladas dia após dia. Seu jogo a dois é uma obra de arte, e ambos dominam todos os passos dessa dança; ângulos, fintas, comunicação visual, tudo que gera uma fração de segundos de vantagem em relação a uma combinação normal. Essa uma conexão quase espiritual entre dois jogadores de alto nível e que se complementam tão bem é quase um sistema ofensivo por si só; eles criam espaços a partir do nada, e sabem como trabalhar esse pequeno espaço para crescer até se tornar um ótimo arremesso - elevando todos os jogadores ao seu redor. Murray e Jokic já viram todos os tipos de defensores e esquemas defensivos pela frente e têm resposta para tudo. Flexibilidade e versatilidade, peças fundamentais nos playoffs e que estavam no centro das esperanças de título do Nuggets. É uma parte do seu jogo que não pode ser substituído ou compensado, independentemente do talento no resto do time.

A falta de Murray, nesse sentido, limita consideravelmente o perigo que o ataque de Denver oferece. Arremessadores pouco confiáveis (como Facu e Gordon) ficam mais expostos nos playoffs e, sem Murray, Denver tem muito menos ajustes possíveis contra esse tipo de defesa. Pouquíssimos times são capazes de trocar a marcação em pick-and-rolls entre Murray e Jokic sem pagarem por isso, mas é muito mais fácil fazer contra Porter Jr e Gordon. Denver ainda tem força e talento suficiente para não ser descartado por completo da temporada, mas tanto o piso como o teto da equipe caíram consideravelmente.

E ainda mais trágico pode ser o efeito dessa lesão sobre o Denver Nuggets no futuro. Embora a baixa idade do núcleo dessa equipe - Jokic e Gordon têm apenas 26 anos, Murray tem 24, e Porter 22 - passe a impressão de que o time ainda vai ter muitas chances de ganhar um título no futuro, nós sabemos o quão rápido essas janelas podem se fechar na NBA. O tempo de recuperação de ACLs rompidos hoje é de cerca de 12 meses; no caso de Murray, isso significaria perder toda a temporada 2021-22 da NBA, talvez voltando para a pós-temporada depois de um ano sem jogar basquete, o que seria um gigantesco baque para as esperanças de Denver e talvez acabando com o que deveriam ser dois anos de candidatura ao título.

Mesmo depois disso, a situação talvez não volte a ser das melhores para Denver, já que após a temporada 2021-22 acabam os contratos tanto de Gordon como de MPJ. Esse último vai provavelmente comandar um contrato máximo na offseason, o que levanta dúvidas sobre a capacidade - ou disposição - do Nuggets de renovar com Gordon a um salário de mercado.

Quando a troca pelo ala foi feita, o plano do Nuggets era usar esses dois anos para competir com o núcleo Murray-MPJ-Gordon-Jokic, e aguardar para tomar as decisões sobre as renovações de acordo com o que acontecesse no período. Agora, Denver pode se ver obrigado a tomar tais decisões sem nunca ter visto do que esse quarteto é capaz. Renovar com MPJ E Gordon provavelmente colocaria o Nuggets acima da luxury tax, algo que times de mercados menores tendem a evitar; alguns até podem se mostrar dispostos a pagar multas se isso significar manter junto um candidato ao título ou time campeão, mas será que Denver vai estar disposto a abrir o bolso por uma formação que nunca jogou junta? Aaron Gordon foi trazido para ser a peça final do Denver Nuggets rumo ao título, mas agora esse núcleo pode acabar desmontado sem sequer ter tido a chance de tentar.

Por enquanto, o que nos resta fazer é torcer pelo o melhor; que Murray se recupere o melhor e o mais rápido possível, e que possa voltar a jogar em alto nível ainda em 2022 e esse time do Nuggets, que tanto prometia, tenha a chance de realizar o seu potencial - e ofereça a Tim Connelly as informações necessárias para que ele possa tomar as decisões corretas quando chegar a hora, para que o futuro do Denver Nuggets continue tão brilhante como parecia uma semana atrás. E que, daqui a alguns anos, nós lembremos da brutal lesão de Murray não como o fim de um emergente e empolgante candidato ao título, e sim apenas uma nota de rodapé em uma história gloriosa que ainda estava por ser escrita.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL