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Vinte e Dois

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Cinco histórias para se acompanhar na reta final da temporada da NBA

Vitor Camargo

Colunista do UOL

13/04/2021 04h00

Conforme a maioria dos times da NBA atinge ou ultrapassa a marca de 54 partidas disputadas, a temporada regular da NBA 2020-21 está oficialmente entrando no seu quarto final (lembrando que, por conta dos efeitos da pandemia, essa temporada terá apenas 72 jogos por time, ao invés dos 82 em um ano normal). E essa reta final, tradicionalmente, costuma ser a menos interessante da temporada. Os times sem perspectivas de brigar pelos playoffs começam a se preocupar mais com o Draft, dando mais minutos para calouros ou reservas e tentando perder alguns jogos a mais para melhorar sua posição no recrutamento. Os principais times, sabendo que a pós-temporada é o que realmente importa, também passam a descansar seus principais jogadores e fazer experimentos com rotações diferentes. Os jogos tendem a ser progressivamente menos competitivos, e cada vez menos os times possuem incentivos para mostrar seu melhor basquete.

Mas isso não quer dizer que esse último mês e meio da temporada seja apenas uma grande enrolação enquanto esperamos a chegada da pós-temporada. Muito pelo contrário; diversas questões importantes ainda estão em aberto, e o andar da carruagem nessas últimas semanas pode ser decisivo para definir alguns pontos críticos tanto para a pós-temporada como para a NBA como um todo - especialmente em um ano tão atípico como esse.

Então, com isso eu mente, eu separei algumas narrativas ainda importantes de se acompanhar nessa reta final da temporada. Se a perspectiva de um jogo entre Rockets e Cavaliers em abril não é a mais animadora para você - e ninguém pode te culpar se for o caso - aqui estão cinco histórias que vale a pena ficar de olho nas próximas semanas.

1. Briga pelos play-ins

Em 2020, quando a NBA foi obrigada a suspender sua temporada e retomá-la em um formato de "bolha", ela adicionou uma novidade: o play-in. No caso, o time que terminasse em oitavo lugar na sua conferência não era mais automaticamente classificado para a pós-temporada; ele precisava disputar com o nono colocado um confronto direto pelo direito a essa vaga.

A ideia de um torneio play-in não era exatamente nova; por mais de dez anos conceitos semelhantes foram discutidos dentro dos círculos da NBA, como uma forma de aumentar os incentivos das equipes médias nessa reta final da temporada e evitar o famoso tanking. E, depois do seu sucesso na bolha, a NBA decidiu não só trazer o play-in de volta, como ele voltou em um formato expandido: ao final da temporada regular 2020-21 da NBA, apenas os seis primeiros colocados de cada conferência estão automaticamente classificados para os playoffs, enquanto os times entre o sétimo e décimo lugar disputam o play-in. O sétimo colocado enfrenta o oitavo da conferência em um jogo único; o vencedor dessa partida se classifica para os playoffs como a seed #7. Em paralelo, o nono e o décimo colocados disputam um jogo entre si, e quem vencer enfrenta o perdedor do outro jogo com a oitava vaga da pós-temporada em jogo.

Ou seja, existe agora muito mais em disputa do que antes. Em anos normais, um time como o Chicago Bulls - décimo colocado na conferência Leste e 4 jogos atrás do oitavo colocado - não teria muito pelo que jogar, e provavelmente entraria nos times presos no marasmo da reta final. Ao invés disso, a equipe fez uma troca agressiva por Nikola Vucevic e sabe que ainda tem um caminho para a pós-temporada desde que consiga se manter à frente do Toronto Raptors (2 jogos atrás) e Washington Wizards (3 jogos atrás).

Isso fez com que as perspectivas mudassem pelos dois lados: tanto dos times brigando para entrar nas vagas restantes dos play-ins, como os times que querem a todo custo garantir a vaga direta para a pós-temporada e evitar correr o risco de uma eliminação precoce. Na conferência Oeste, por exemplo, nós temos cinco times disputando três vagas de play-ins: o Memphis Grizzlies detém hoje a oitava colocação, seguido por San Antonio em nono (1 jogo atrás), Golden State em décimo (2 jogos atrás), New Orleans (3 jogos atrás) e Sacramento (5 jogos atrás). E essa corrida, em geral, ainda está completamente aberta. Memphis tem sido o time mais consistente, e larga na frente para garantir uma dessas três vagas. Atrás disso, no entanto, vem uma bagunça completa. O Spurs se recuperou de uma péssima sequência com a vitória heroica sobre o Dallas Mavericks no domingo, mas ainda vem de uma sequência de sete derrotas em dez jogos, e tem o segundo calendário mais difícil de toda a NBA para essa reta final. Golden State (tirando Steph Curry) tem sido uma bagunça, e continua sofrendo com lesões; a mais recente foi de James Wiseman, que deve perder o resto do ano com um menisco rompido, embora a volta de Steph Curry deva ajudar nesse último gás. Pelicans e Kings correm por fora, esperando um deslize das demais equipes; uma disputa nivelada por baixo, talvez, mas que promete seguir até os últimos jogos.

Por outro lado, o Dallas Mavericks hoje está na sétima colocação, e pronto para fazer uma arrancada que garanta uma vaga direta aos playoffs. Um dos times mais quentes da NBA apesar de derrotas problemáticas para Spurs e Rockets, Dallas tem apenas uma derrota a menos que o sexto colocado (Portland) e possui o calendário restante mais fácil em toda a liga; ainda que dificilmente o chaveamento vá ficar muito mais fácil com uma colocação melhor, evitar o play-in deve ser prioridade para o Mavericks no momento, derrubando talvez Portland ou até mesmo o atual campeão Los Angeles Lakers - três jogos acima de Dallas mas jogando atualmente sem seus dois astros em LeBron e Anthony Davis - para o torneio classificatório.

No Leste, as vagas parecem mais definidas: a vantagem de Chicago sobre Toronto ou Washington pode ser de apenas 2 ou 3 jogos, respectivamente, mas essas duas equipes estão jogando um basquete tão pobre que poucos acreditam em uma mudança na classificação. Mas isso não quer dizer que o Leste não vá ser agitado pelo play-in; apenas UM jogo separa hoje o quarto colocado Hawks do sétimo colocado Celtics, e três separam Atlanta do décimo colocado Pacers. Nesse bolo estão Boston e Miami, dois candidatos ao título antes da temporada e que querem desesperadamente evitar esse trabalho extra - e, possivelmente, fugir das três potências que ocupam o topo do Leste na primeira rodada.

2. Times pós-trade deadline

Alguns times fizeram movimentos significativos na data limite para trocas, e o tempo vai ser curto para que essas franquias coloquem ordem na casa. Alguns times - os vendedores - sequer precisam botar muita ordem na casa, como falei na coluna sobre o Orlando Magic semana passada; basta dar rodagem e minutos para os jovens talentos e tentar ter uma visão clara do que você tem em mãos. Mas para times que buscam algo a mais nessa temporada, é uma corrida contra o tempo.

Eu já escrevi também sobre um desses times recentemente, no caso sobre a aquisição de Aaron Gordon pelo Denver Nuggets e como essa troca oferece ao Nuggets possivelmente a peça que faltava para o time ser um candidato sério ao título. Denver tem sido o time mais dominante da NBA desde a trade deadline, e apesar da derrota frustrante para o Boston Celtics tudo indica que o Nuggets é uma força a ser levada em conta - especialmente depois que tiver de volta seu segundo melhor jogador, Jamal Murray.

Menos promissora é a situação do outro time que se movimentou com força na trade deadline, o Chicago Bulls. Sua aquisição do All Star Nikola Vucevic deveria colocar o time um patamar acima e tornar Chicago um time a ser temido no play-in, mas embora Vucevic esteja jogando o fino da bola em Chicago (22 pontos, 10 rebote, 4 assistências por jogo), o time não tem acompanhado: são 3 vitórias contra 6 derrotas desde a chegada do pivô. Uma troca dessas sempre precisa de algum tempo de adaptação, e é injusto julgar Chicago pelo que vai acontecer em alguns jogos ou mesmo no resto dessa temporada dada a troca, que sempre teve um olho nos próximos anos. Mas trocar por um pivô de 30 anos sempre vai direcionar seu horizonte um pouco mais para o curto prazo, e se Chicago não conseguir aproveitar sua dupla de All Stars já nessa temporada (uma na qual, vale lembrar, Chicago não tem sua própria escolha de primeira rodada de Draft) as coisas podem ficar feias rapidamente para o Bulls. A franquia tem 19 jogos para acertar sua equipe pós-trocas, e contando.

Outro time interessante nesse sentido é o Brooklyn Nets, que apesar de não ter feito trocas foi um time bem ativo ao adquirir Blake Griffin e LaMarcus Aldridge após seus respectivos buyouts. As aquisições levantam muitas dúvidas sobre a rotação de garrafão da equipe indo aos playoffs: Nic Claxton vinha ganhando muitos minutos antes das aquisições, principalmente por sua capacidade de trocar a marcação e defender jogadores menores, mas tem jogado menos desde então. Griffin é um passador e arremessador bom o bastante para ter um impacto positivo (e de fato, o ex-Clipper teve alguns bons momentos com a camisa do Nets) mas não é capaz de ancorar a fraquíssima defesa do time como pivô, e LaMarcus Aldridge pouco adiciona ao time a essa altura. Desde o começo do ano, muitos acreditavam que a formação ideal para o Nets tinha Durant jogando na posição 5, então como isso fica depois de adquirir dois jogadores de garrafão? Não ajuda que Durant, Irving e Harden jogaram apenas DOIS jogos juntos com a camisa do Nets; agora que Durant voltou de lesão, Harden se lesionou, e o trio terá ainda menos tempo junto de quadra antes dos playoffs. É nas suas três estrelas que as esperanças de título do Nets se apoiam, e desenvolver a química e entrosamento entre eles antes dos jogos decisivos pode fazer a diferença em junho.

3. Classificações afetando corrida pelo MVP

Pergunte para a grande maioria dos analistas de NBA ao redor do planeta sobre quem é o MVP da temporada regular da NBA esse ano, e a resposta será Nikola Jokic. O pivô de Denver está tendo um ano espetacular, aumentando sua carga de arremessos e passes sem perder nada da sua surreal eficiência, e sendo o maestro do segundo melhor ataque da liga.

Mas uma coisa é apontar um MVP casualmente durante o ano, outra é colocar o nome do jogador na hora de votar; e se tem uma coisa que nós sabemos que os votantes levam em conta nesse momento, é a posição dos times na classificação. MVPs geralmente vem de um dos dois primeiros colocados na sua conferência, embora haja exceções. Russell Westbrook venceu o MVP em 2017 comandando o sexto colocado do Oeste, e se tem um ano onde essas convenções deveriam ser atiradas pela janela é esse. Ainda assim, esse viés dos votantes é real, e por isso vale questionar como isso afeta a candidatura de Jokic.

Denver atualmente ocupa a quarta posição do Oeste, abaixo do normal para um MVP, mas de forma alguma uma posição péssima. O quanto isso pode afetar os votantes? É incerto; eu pessoalmente acho que uma quarta colocação do Oeste não vai impedir sua vitória. Mas uma mudança na classificação pode causar um impacto maior. Denver atualmente está dois jogos atrás do Clippers pela terceira posição; se Denver conseguir ultrapassar a franquia de Los Angeles e terminar em terceiro, por exemplo, me parece quase uma certeza que Jokic (salvo uma catástrofe) leve o prêmio para casa. Por outro lado, e se Denver não conseguir manter o bom momento e for ultrapassado pelo Lakers (um jogo atrás apenas), caindo para quinto? Será que essa queda pode fazer os votantes procurarem em outro lugar? A falta de outros óbvios candidatos ajuda o sérvio nesse sentido - Embiid e LeBron seriam fortíssimos concorrentes se não tivessem perdido tantos jogos machucados, e a candidatura de Harden sempre seria problemática por causa da novela em Houston mesmo antes dele se machucar - mas talvez isso abrisse uma brecha para outros insurgentes.

Nesse caso, eu consigo enxergar três outros jogadores que poderiam se beneficiar também dessa dança das cadeiras na classificação. Eu acho improvável que Giannis Antetokounmpo ganhe outro MVP simplesmente porque votantes não gostam de votar em jogadores para títulos consecutivos, ainda mais três seguidos; mas se ele voltar às quadras e Milwaukee - três jogos atrás do Nets e do 76ers pelo topo do Leste e com um saldo melhor que ambos - fizer um arrancada para terminar em primeiro, será que isso atrairia a narrativa ao seu favor e fizesse mais pessoas notarem mais uma espetacular temporada do grego? E Damien Lillard no Portland Trail Blazers, um mago dos momentos decisivos cujo time está 3 jogos atrás de Denver na classificação?

O mais interessante nome nesse sentido talvez seja Luka Doncic, tendo mais um ano absurdo e de nível MVP, mas cujo nome caiu fora da conversa devido à fraca campanha do Dallas Mavericks. Mas Dallas está ressurgindo e tem o calendário mais fácil da liga pela frente; tirar os 4 jogos que separam Dallas de Denver pode ser difícil demais, mas e se os dois acabarem separados por apenas uma vitória? Isso pode ser suficiente para a campanha parar de pesar no argumento e transformar a conversa em uma disputa real?

No momento, o prêmio é muito claramente de Nikola Jokic para perder; mas conhecendo o viés que permeia os votos de MVP, ainda podemos ter algumas mudanças que não tenham nada a ver com os jogadores em si.

4. Supostos candidatos sofrendo

Essa temporada da NBA talvez seja a mais aberta em muitos anos; é possível apontar pelo menos sete ou oito times diferentes como candidatos ao título, um número muito maior que em um ano normal.

Ainda assim, é curioso notar que alguns times que teriam sido apontados como candidatos antes da temporada estão muito abaixo do esperado, e talvez até mesmo fora desse seleto grupo de times com chances reais de título. Toronto talvez não fosse considerado realmente um time para ser campeão, mas estava vindo de uma semifinal de conferência que foi até o Jogo 7; ver o Raptors em décimo primeiro do Leste é muito estranho. O próprio Dallas era um time em ascensão que deu trabalho ao Clippers nos playoffs mesmo com a lesão de Kristaps Porzingis, e tem sido uma decepção em 2021. Mas, como a arrancada de Dallas mostra, às vezes times talentosos simplesmente podem pegar no tranco (ainda mais em um ano atípico como esse) antes dos playoffs.

Tradicionalmente, é comprovado que um time jogar bem nas últimas semanas antes dos playoffs não tem qualquer relação com seu sucesso (ou não) em pós-temporada. Ainda assim, times como Dallas não vão reclamar de encontrar sua melhor forma a tempo dos jogos que realmente importam. Faltam ainda quase cinco semanas até o fim da temporada regular, e é o tempo que resta para times que tem jogado abaixo do seu nível de talento encontrem as respostas para as perguntas que atrapalharam sua temporada.

Se Dallas e possivelmente Denver são os representantes desses times no Oeste, no Leste temos Celtics e Heat, os dois finalistas de conferência de 2020 que despencaram para um nível abaixo dos líderes do Leste esse ano. Em meio a lesões e problemas com COVID, ambos passaram longe de jogar um basquete convincente e estão hoje lutando para escapar do play-in. Boston até tem jogado melhor ultimamente, o que não coincidentemente corresponde ao time finalmente começar a ficar saudável. Miami ainda procura pelas suas respostas, mas já mostrou do que é capaz nos playoffs um ano atrás. A não ser que mostrem nessas últimas semanas algo diferente do que vimos até aqui, é difícil pensar nesses dois como candidatos ao título; mas, se mostrarem, vão ser times que nenhum favorito vai querer ver pela frente na pós-temporada.

5. O Lakers e a volta de LeBron e Davis

E, por fim, temos os atuais campeões. Por mais que esse ano o título pareça aberto e um número enorme de candidatos sonhe com o troféu, o Los Angeles Lakers ainda é visto pela maioria como o time a ser batido e estando em um patamar acima dos demais... desde que esteja saudável.

Mas saudáveis eles ainda não estiveram em 2021. Anthony Davis já perdeu 30 jogos com diversas lesões, a mais recente no tendão de Aquiles, e LeBron não joga desde o fim de março com uma lesão que ainda deve custar ao camisa 23 mais algumas semanas. Pensando em termos de pós-temporada, isso não realmente importa muito; tudo indica que LeBron e Davis estarão de volta e saudáveis à tempo para a pós-temporada, e se for o caso então Lakers ainda é o favorito a levantar o troféu, e essas leões na temporada regular se tornam irrelevantes.

No entanto, essas lesões e a prolongada ausência das duas estrelas do Lakers geraram uma situação curiosa para a franquia, que pode ficar ainda mais maluca nas próximas semanas. O Lakers atualmente ocupa a quinta colocação do Oeste, três jogos na frente do Dallas Mavericks e a primeira vaga dos play-ins. Considerando que Davis e principalmente LeBron ainda devem perder mais jogos machucados, é possível que os atuais campeões e favoritos acabem por precisar jogar o play-in para particular dos playoffs? E, mesmo que não cheguem a sétimo, mesmo cair para um sexto lugar significaria um duelo contra Clippers ou Nuggets logo na primeira rodada dos playoffs.

O Lakers sem LeBron e Davis tem conseguido sobreviver relativamente bem (5 vitórias e 7 derrotas) dadas as circunstâncias, uma sequência que inclui uma vitória impressionante recente sobre o Brooklyn Nets, mas se a ausência de LeBron se prolongar "relativamente bem" talvez não seja suficiente para manter a quinta posição no Oeste. E se o Lakers cair, podemos acabar tendo emoções bem cedo na pós-temporada do que o esperado.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL