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Vinte e Dois

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

O que explica a melhora de Aaron Gordon após troca de Orlando para Denver

Aaron Gordon passa por cima do mascote do Orlando Magic durante tentativa de enterrada - Elsa/Getty Images/AFP
Aaron Gordon passa por cima do mascote do Orlando Magic durante tentativa de enterrada Imagem: Elsa/Getty Images/AFP

Vitor Camargo

12/04/2021 04h00

Recentemente, eu escrevi aqui sobre a atuação do Orlando Magic durante a data limite para trocas da NBA, e como a franquia finalmente decidiu desmanchar o que não vinha dando certo e recomeçar do zero. O foco da coluna, naturalmente, era sobre o que essas trocas significaram sobre o futuro da equipe, e como elas compõem a base de Orlando para sua próxima reconstrução.

Ainda assim, existe um jogador específico que eu quero falar em separado quanto à sua troca, pois sua trajetória pode nos ensinar uma lição muito valiosa no basquete (que, em certa medida, se estende a qualquer esporte coletivo): quando nós estamos analisando um jogador, seja assistindo aos jogos e lances, ou então olhando para suas estatísticas, nós estamos avaliando aquele jogador dentro de um contexto muito específico. O sistema no qual ele joga, a função que desempenha, os companheiros que ele possui e como as habilidades desses diferentes jogadores se complementam (ou deixam de se complementar), tudo isso vai afetar o que nós estamos enxergando - e, portanto, a nossa análise. E, quando pensamos sobre esses jogadores, costumamos nos ater demais ao que vimos dentro desse contexto específico, e falhamos ao separar o jogador desse contexto para chegar mais perto do que aquele jogador é de verdade. Não são poucos os jogadores na NBA que podem parecer grandes craques no ambiente certo, e desastres tóxicos no errado.

O que nos traz a Aaron Gordon, o ex-ala do Orlando Magic que foi trocado para o Denver Nuggets na última trade deadline. Escolha #4 no que era considerado um excelente Draft em 2014, Gordon chegou na NBA com ótimas expectativas: era um jogador extremamente atlético e explosivo que atraía comparações a Blake Griffin, uma combinação rara de força e técnica que chamava a atenção apesar de ser ainda bastante cru. Ao longo dos seus seis anos em Orlando, no entanto, Gordon sempre foi visto como uma grande decepção: um jogador estagnado, que sempre parecia prestes a dar um salto que nunca chegava, alguém que (embora fosse um jogador sólido) deveria ser capaz de muito mais dadas suas habilidades naturais.

E, então, Gordon foi trocado para o Nuggets, e algo aconteceu.

Olhando apenas os números superficiais, você não pensaria que tem algo diferente com Gordon em Denver; que ele continua sendo o mesmo jogador decepcionante que foi em Orlando. Nos seus sete jogos em Denver (uma amostra ainda muito pequena), Gordon tem médias de 16 pontos, 5 rebotes e 4 assistências por 36 minutos, depois de ter médias de 18 pontos, 8 rebotes e 5 assistências em Orlando nessa temporada. Ainda que seja normal que em um time com mais opções ofensivas o seu volume de jogo tenha caído, nada parece ter mudado para Aaron Gordon.

E então você começa a olhar mais de perto. Depois de ter uma pífia eficiência em Orlando (43,7 FG% e 50,9 eFG% em 2020-21, e 44,7% e 50,0% respectivamente na carreira), Aaron Gordon tem 58,1 FG% e 62,1 eFG% em Denver. Suas estatísticas avançadas também dispararam: a estatística Box Plus/Minus, da ESPN, diz que Gordon já gerou mais valor em Denver (+2,0) do que em sua carreira inteira em Orlando (+0,1), enquanto seu Win Shares por 48 minutos de quadra subiu de 0,088 para 0,136. Mas a estatísticas mais interessante talvez seja o desempenho da sua equipe quando Gordon está em quadra. No Orlando de 2020-21, a equipe teve um Net Rating (ou seja, um saldo de pontos a cada 100 posses de bola) de -2,9 nesses minutos. Em Denver, esse número é de 16.1, marca superior à de qualquer time da NBA.

"Espera um pouco, isso não quer dizer nada!", você está certamente pensando. "Se Gordon foi de um dos piores times da NBA para um legítimo candidato ao título, é lógico que o time vai jogar melhor ao seu redor. Isso acontece por causa do time, não do jogador em si!".

Se você pensou isso, você está absolutamente correto. Dados dentro vs fora da quadra podem ser sempre perigosos, especialmente em amostras pequenas, e muito vezes podem estar refletindo muito mais sobre o contexto ao redor do jogador do que o atleta em si. Os números da equipe com Aaron Gordon em quadra podem ser positivos, talvez, porque são os mesmos minutos em quadra de Nikola Jokic, a grande estrela do time, ou então outros jogadores melhores como Jamal Murray e Michael Porter Jr que estão ao seu lado. Nada indica que isso vem do próprio Aaron Gordon.

E, a princípio, é verdade: o dado em si não diz nada, e é preciso continuar analisando para podermos tirar conclusões. Mas, nesse processo, aos poucos um padrão começa a se formar. Nos sete jogos desde a chegada de Gordon ao Nuggets, a franquia tem um saldo excelente de +7,1 pontos por 100 posses de bola quando Nikola Jokic (seu craque e o provável MVP da temporada em toda a NBA) está em quadra sem Aaron Gordon; esse número, no entanto, dispara para incríveis +17,1 quando Jokic tem Gordon ao seu lado. Esse mesmo efeito pode ser observado para Jamal Murray (-1,1 sem Gordon, +29,3 com Gordon), Michael Porter Jr (+1,7 sem Gordon, +15,6 com Gordon) e literalmente qualquer combinação desses jogadores (a combinação Murray-Jokic junta em quadra sem Gordon tem Net Rating de + 24,2, que salta para +32,5 com Gordon; Murray-Jokic-MPJ sem Gordon tem +21,5, e +31.6 com ele). De novo, esses dados coletivos costumam ter bastante ruído, e a amostra é ainda muito pequena (apenas 7 jogos), então precisam ser levados com algum cuidado. Mas todos esses números indicam uma mesma direção: de que o impacto que Aaron Gordon está tendo na equipe do Denver Nuggets é real.

E como essas duas coisas podem ser possíveis ao mesmo tempo? Como o mesmo Aaron Gordon, que em Orlando era um jogador decepcionante, ineficiente e estagnado, se tornou um dos jogadores de maior impacto em um legítimo candidato ao título?

Um bom lugar para começar a entender é pela imagem abaixo.

Mapa de arremessos de Aaron Gordon em Orlando, 2020-21 - Reprodução própria/NBA Stats - Reprodução própria/NBA Stats
Mapa de arremessos de Aaron Gordon em Orlando, 2020-21
Imagem: Reprodução própria/NBA Stats

Essa imagem mostra todos os arremessos dados por Aaron Gordon nessa temporada pelo Orlando Magic. Está vendo todos aquela enorme quantidade de Xs vermelhos espalhados por toda a meia distância, e o enorme volume de bolas de três pontos? Pois é, esse era um dos problemas de Gordon na sua primeira casa. O perfil de arremessos de Gordon sempre foi o de um ala criador, nos moldes de um Kawhi Leonard ou Paul George, o que não seria tão problemático se Gordon não fosse um arremessador medíocre, com 32% de aproveitamento para três na carreira e 34% nos chutes de meia distância. Apenas 22% dos seus arremessos em Orlando eram dados ao redor do aro, onde Gordon é um excelente finalizador graças à sua capacidade física, em contraste com os 24% dos chutes vindos da meia distância e 38% da linha dos três pontos, onde seu arremesso fraco arremesso se fazia notar.

Esse é um claro exemplo de quando o atleta está jogando muito fora do que seria indicado para suas habilidades. Em Orlando, Gordon jogava essencialmente como um ala criador de alto volume: 19% dos seus arremessos vinham como ballhandler em um pick and roll, um número próximo a jogadores como Russell Westbrook, LeBron James e Gordon Hayward, e 7% vindo de jogadas de isolação, número de Bradley Beal, Trae Young e Steph Curry - apesar de Gordon ser um dos jogadores menos eficientes de toda a NBA em ambos os tipos de jogada. Basicamente, Gordon estava jogando como uma estrela embora não fosse uma, e tampouco tivesse as características que são necessárias para ser bem-sucedido nesse estilo de jogo.

Parte disso é responsabilidade do próprio Gordon, que sempre deixou claro que essa era a forma como ele queria jogar - seja porque ele se enxergava como uma estrela de perímetro, seja porque era o que ele queria ser, ou então por achar que era a melhor forma do time vencer. Esse estilo sempre foi frustrante para fãs e analistas, porque as habilidades de Gordon sempre combinaram mais com uma peça secundária de alto nível. Eu pessoalmente (e dadas as devidas proporções) sempre achei que o papel ideal para Gordon seria o de Draymond Green Light em um time de bom nível: um defensor versátil e competente capaz de marcar três ou quatro posições, um bom passador em movimento capaz de fazer leituras secundárias para passes, que pudesse gravitar em torno de jogadores melhores como a peça que conecta todas as outras preenchendo os buracos. Todo mundo sempre dizia que para Gordon ser a melhor versão de si mesmo, ele precisava deixar para trás o jogo de estrela e aceitar o papel secundário que suas habilidades mais se adequavam.

Mas parte (grande) do problema também era que a situação em Orlando foi a pior possível para Gordon, e de certa forma ele foi forçado a fazer esse papel além das suas capacidades por pura falta de opção. Como explicado na coluna da semana passada, a combinação dos fracassos de Orlando no Draft e sua compulsão por acumular jogadores de garrafão e perfil defensivo deixaram o time extremamente carente de opções de criação. A falta de um bom armador impediu que Gordon e os demais jogadores pudessem receber a bola em movimento ou em situações favoráveis, enquanto a falta de espaçamento e de arremessadores congestionava completamente o garrafão. Não importa quão bom Gordon fosse perto da cesta, de nada adiantava se ele precisasse passar por quatro ou cinco corpos para chegar até o aro; inevitavelmente, muitas posses iriam acabar em uma série de arremessos forçados de meia distância. Junte a isso a falta de outros jogadores capacitados para executar esse importante papel de criação vindo do perímetro, e não é à toa que Gordon se viu forçado a assumir a função. E o que nos restava era imaginar como seria Aaron Gordon em outras circunstâncias, uma que fizesse melhor uso de suas habilidades.

Então veio a troca entre Orlando e Nuggets, e uma nova oportunidade se abriu. Se em Orlando Aaron Gordon podia se convencer de que era o melhor (se não o único) jogador para executar essa tarefa, e que ele portanto deveria jogar como um ala criador de alto volume, isso obviamente não era mais verdade uma vez que chegou ao Colorado e passou a jogar ao lado do provável MVP da NBA (Jokic) e um jogador que menos de um ano atrás estava tendo jogos de 50 pontos em playoffs (Murray). Denver não precisava de outro pontuador ou criador; ele precisava de um defensor versátil, alguém que pudesse jogar fora da bola, fazer as jogadas que conectam todas as outras, e simplesmente elevasse todo mundo. Pela primeira vez, Aaron Gordon estava na situação perfeita para tirar o máximo dos seus talentos - e, embora a amostra ainda seja obviamente pequena, os primeiros resultados tem sido muito promissores. E é possível começar a perceber a diferença pela imagem abaixo.

Mapa de arremessos de Aaron Gordon em Denver, 2020-21 - Reprodução própria/NBA Stats - Reprodução própria/NBA Stats
Mapa de arremessos de Aaron Gordon em Denver, 2020-21
Imagem: Reprodução própria/NBA Stats

Compare o perfil de arremessos de Gordon em Denver (acima) com o em Orlando, e a diferença é nítida. Os arremessos de meia distância quase desapareceram; apenas 8% dos seus chutes vieram dessa distância, enquanto os arremessos perto do aro dispararam de 22% para 38% (e de 15% para 28% na região entre 3 e 10 pés do aro). Seu ataque passou a vir em sua grande maioria de jogadas no fluxo do ataque, vindo de handoffs e principalmente cortes fora da bola - algo na qual Gordon sempre foi excelente, só que agora ele tem bons passadores para lhe dar a bola durante esses cortes e muito mais espaços abertos para aproveitar. Seu aproveitamento nos chutes de dois pontos em Orlando era de 47%, e agora é de 70% (incluindo incríveis 90% perto do aro); e, talvez mais importante, esses arremessos tem vindo naturalmente, sem estagnar o que já era um excelente ataque do Nuggets. Em Orlando, Aaron Gordon tocava na bola em média 64 vezes por jogo, e dava 3,5 dribles a cada vez que tocava na bola. Em Denver, os números são de 37 toques por jogo e 1,2 dribles por toque. Em resumo, Gordon agora está em uma situação que faz um papel muito melhor em esconder o que ele não sabe fazer bem, e aproveitar as áreas onde ele é excelente - e, como resultado, Gordon parece um jogador completamente diferente.

Denver, é claro, sabia perfeitamente disso quando fez a troca com Orlando. Dono de um dos melhores ataques da NBA e enxergando a si próprio como um candidato ao título, a maior carência de Denver para essa temporada era um defensor capaz de marcar os grandes alas criadores do Oeste - os LeBrons, Doncics e Kawhi Leonards. Gordon cumpre muito bem essa função (ou dentro do que é humanamente possível), e ainda por cima possui a flexibilidade que permite ao Nuggets esconder o explosivo mas fraco defensivamente Michael Porter Jr nos adversários menos perigosos. E se ofensivamente a falta de um bom arremesso, a seleção questionável de chutes e o excesso de tentativas de criação de Gordon foram um problema em Orlando, o Nuggets sabia que isso não seria um problema em um ataque com tantos arremessos e movimentação de bola quanto o seu, enquanto seus ferozes e explosivos cortes para a cesta adicionavam um elemento vertical extremamente valioso para o grande passador que é Nikola Jokic.

Em resumo, o que o Nuggets fez foi trocar não pelo jogador que Gordon foi em Orlando, mas o jogador que eles sabiam que ele poderia ser em Denver - o presidente de operações Tim Connelly olhou além do que Gordon fez dentro de um contexto desfavorável para enxergar o que o jogador era em si, e sua avaliação de como esse jogador se encaixaria na sua equipe foi excelente. Ainda é cedo demais para dizer se a troca (e o tempo de Gordon em Denver) vai ser um sucesso, é claro, mas os primeiros resultados são promissores - Denver está 8-0 desde a trade deadline, com vitórias sobre candidatos ao título como Clippers e 76ers, e Gordon parece ser uma parte importante dessa arrancada. A troca parece ter subido Denver de patamar, de um time que sonhava com o título para um legítimo candidato, e agora Connelly e o Nuggets esperam que daqui a alguns meses eles olhem para trás e lembrem dessa troca como o momento que esse título começou.

(Todas as estatísticas e dados dessa coluna estão atualizados até domingo, 11/04, e não incluem os jogos disputados nessa data)

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL