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Vinte e Dois

O dia em que uma das melhores do mundo veio ser campeã paulista em Campinas

Jogadoras do Campinas posam com medalhas e troféu do Campeonato Paulista - Daniela Camargo
Jogadoras do Campinas posam com medalhas e troféu do Campeonato Paulista Imagem: Daniela Camargo

Vitor Camargo

Colaboração para o UOL, em Campinas

20/12/2020 04h00

Quanto mais eu pensava a respeito, mais a viagem de uma hora e meia entre São Paulo e Campinas parecia um preço pequeno a se pagar pelo privilégio de ver, ao vivo, uma das melhores jogadoras do mundo atuando em quadras nacionais.

Na tarde de ontem, dia 19, Ituano e Campinas Vera Cruz se enfrentaram no Ginásio AAPP Paineiras, em Campinas, pela final do Campeonato Paulista de basquete feminino. Amplamente favorito, o Vera Cruz buscava a coroação para sua campanha dominante ao longo do torneio: foram catorze vitórias contra apenas uma derrota, enquanto o azarão Ituano precisara da vitória suada contra o Santo André na última rodada para garantir sua vaga na final.

E, ainda durante o aquecimento, o olhar já procurava pela grande estrela da festa. Mesmo em meio a tantas jogadoras de alto nível no esquadrão do Vera Cruz, a camisa 12 do time de Campinas se destacava até mesmo para o torcedor mais desinformado. É um conceito que o jornalista americano Bill Simmons chamou certa vez de o "teste do estrangeiro": se você pegasse um estrangeiro que nunca viu um jogo de basquete na vida, mostrasse para ele o aquecimento das atletas prestes a disputar a final e pedisse para ele identificar qual era a melhor jogadora em quadra, ele teria imediatamente escolhido Damiris Dantas, a ala-pivô (que aliás jogou de pivô titular) do Vera Cruz, com sua combinação de força, agilidade, técnica e graça. E, naturalmente, ele estaria certo.

Essa combinação de habilidades é o que faz de Damiris Dantas a única brasileira na atualidade a disputar a WNBA, a liga norte-americana de basquete feminino que é considerada o mais alto nível de basquete do mundo. Jogando pelo Minnesota Lynx, Damiris Dantas acaba de vir da sua melhor temporada na carreira: em 2019/2020, a ala-pivô teve média de 13 pontos e 6 rebotes por jogo, de longe as melhores marcas da carreira. E, embora o Lynx tenha sido eliminado na primeira rodada dos playoffs da WNBA pelo eventual campeão Seattle Storm, Damiris ainda teve tempo de deixar sua marca: foram 18 pontos e 8 rebotes de média na série, e isso enquanto marcava (e era marcada) boa parte do tempo Breanna Stewart, a ex-MVP da WNBA e eventual MVP das Finais.

A imagem é até mesmo um pouco surreal: quatro meses atrás, Damiris estava batendo de frente contra talvez a melhor jogadora do mundo na atualidade pelos playoffs da WNBA; sábado, ela estava no pequeno ginásio pontepretano levando o Vera Cruz Campinas ao título paulista, tendo inclusive sido eleita a melhor jogadora em quadra. Não é comum ter a chance de ver uma atleta de nível mundial como Damiris, ainda no seu auge, jogando tão perto de casa um torneio doméstico. Uma hora e meia, de fato, não era absolutamente nada.

A combinação de fatores que levou a essa situação também foi, ironicamente, a mesma que impediu os torcedores de aproveitar a oportunidade de ver a estrela do Lynx em quadra. Devido ao calendário curto e os salários baixos, é comum que as jogadoras da WNBA joguem fora dos Estados Unidos durante a intertemporada para preencher seu tempo e complementar a renda. No último ano, Damiris passou esse tempo na liga coreana, que provavelmente teria sido novamente seu destino em 2020 se não fosse a combinação de uma lesão e, claro, da pandemia que o mundo vive no momento. Com esses dois fatores, a paulista de Ferraz de Vasconcelos acabou ficando pelo Brasil e aceitando a proposta para jogar o Campeonato Paulista pelo Campinas Vera Cruz, continuação do projeto pelo qual ela jogara anteriormente no Brasil quando ainda era sediado em Americana.

Mas a pandemia e o coronavirus também levaram os jogos do Paulista a serem disputados sem a presença de torcida no estado, devido às medidas de quarentena que foram adotadas para tentar controlar o vírus no Brasil. Assim, enquanto uma das melhores jogadoras do mundo desfilava todo seu talento dentro de quadra, as arquibancadas ao seu redor estavam vazias e silenciosas, uma triste (mas necessária) recepção para a grande estrela da nossa seleção. Falta de torcida essa, inclusive, que foi a única coisa que impediu o ginásio de vir abaixo com a primeira cesta de Damiris na partida - uma bola de três pontos certeira, lançada do topo do arco ainda no primeiro quarto.

Mas, se Damiris estava em um patamar completamente diferente das outras jogadoras em quadra nesse ponto da sua carreira, um torcedor desavisado não teria adivinhado isso uma vez que a bola começou a rolar. A camisa 12 não era o foco das ações ofensivas da sua equipe, não demandava ou controlava a bola, ou colocava a laranja debaixo do braço para decidir sozinha - características frequentemente associadas ao craque de um time de basquete. Às vezes, a impressão até era que a ala-pivô não estava jogando o quanto poderia, se poupando ou então simplesmente se adaptando ao nível de competição. Damiris acabou o primeiro quarto com seis pontos e três rebotes, mas frequentemente passava posses de bola sem receber a laranja, e estava completamente confortável em ceder o espaço para as outras jogadoras da equipe.

Ao se olhar mais de perto, no entanto, a situação não era essa. Talvez uma forma de ilustrar a gravidade de Damiris Dantas na partida seja através do jogo de xadrez entre os técnicos das equipes. O Ituano, para começar o jogo, usou Mari e Gil para tentar tirar Damiris do garrafão, colocando suas pivôs na linha dos três pontos em uma tentativa de neutralizar a excelente proteção de aro da jogadora do Vera Cruz. Vendo isso, o técnico de Campinas logo contra-atacou com uma defesa por zona, que mantinha Damiris perto da cesta e impedia que ela fosse tirada de posição, mantendo sua presença dominante no garrafão e fechando essa área para o ataque adversário. Com isso, o Vera Cruz forçou o Ituano a viver dos arremessos de fora, que quando não caíam viravam contra-ataques mortais nas mãos do excelente time campinense. À vezes, era a própria Damiris a pegar o rebote e iniciar o contra-ataque; em outras ela apenas fazia seu papel de corta-luz, movimentação de bola e de atrair a defesa - sempre em cima, frequentemente dupla - e abrindo espaço para a movimentação de bola surreal do Vera Cruz, que com o tempo se provou demais para o esforçado mas limitado time do Ituano.

Durante o primeiro quarto, o Ituano conseguiu se manter no jogo e próximo no placar graças a uma partida inspirada da armadora Casanova, mas o coletivo do Campinas era forte demais; eram simplesmente armas demais, opções demais para chegar à cesta a cada minuto, enquanto o Ituano precisava se esforçar ao máximo para conseguir chegar a um bom arremesso a cada posse de bola. Deu certo no começo, mas conforme o volume foi aumentando, a vantagem no placar seguiu o mesmo caminho. Ao invés da qualidade individual de Damiris, o que brilhou foi o extremamente bem treinado coletivo do Vera Cruz em suas muitas partes: as sequências de passes e cortes, os chutes livres, os contra-ataques mortais que lentamente foram destruindo o valente Ituano e abrindo uma vantagem que estava em 35 pontos no apito final.

Damiris (ao centro) comemora título paulista com as jogadoras do Campinas - Daniela Camargo - Daniela Camargo
Damiris (ao centro) comemora título paulista com as jogadoras do Campinas
Imagem: Daniela Camargo

E isso diz muito sobre o encaixe de Damiris nesse time do Vera Cruz, bem como a função que ela chegou para executar em Campinas. A ala-pivô não veio para ser o foco da equipe, sua base em torno da qual o resto iria se montar; pelo contrário, ela chegou como a cereja no topo de um elenco extremamente profundo e talentoso, no qual Damiris não precisava ser a estrela da festa, e ao invés disso podia assumir um papel coletivo que permitia ao seu talento superior se adaptar e elevar todas as jogadoras ao seu redor. Como o grande campeão Bill Russell disse certa vez, a melhor medida da atuação de um jogador de basquete é o quão melhor ele fez seus companheiros dentro de quadra. E foi exatamente o que aconteceu no Vera Cruz: Damiris não precisava chutar vinte bolas e dominar a pontuação (embora sua linha final de 20 pontos e 8 rebotes não deixe nada a desejar) para que o Vera Cruz fosse a melhor versão de si mesmo, ele seria isso com Damiris fazendo seus corta-luzes (sempre eficientes, perfeitos em timing e ângulo), rodando a bola, atraindo a marcação para abrir espaço para as companheiras e em geral fazendo todas as pequenas coisas que permitiam ao resto do elenco tirar o máximo das suas habilidades: o arremesso absolutamente perfeito de Tassia, a precisão mortal de Patty, a garra e agressividade de Babi, todos eles combinando para formar um coletivo maior do que a soma de suas partes. E, no fim do dia, é isso que fez do Vera Cruz tão bom, tão dominante, colocando um ponto de exclamação definitivo com a vitória por 92 a 57 na grande final.

O único momento no qual essa situação pareceu mudar, que uma pequena rachadura na armadura perfeita do Vera Cruz deixou entrever o brilho individual da estrela do Lynx, foi nos minutos finais da partida. Com o jogo já ganho desde a metade do terceiro quarto, as reservas do Campinas entraram para jogar o resto da peleja até que, faltando três minutos para o fim do jogo e a diferença na casa dos trinta pontos, o técnico Élcio Ortiz recolocou as titulares em quadra para finalizar a partida e levantar o caneco. E foi então que a bola - e as jogadoras do Vera Cruz - finalmente pareceram procurar por Damiris Dantas, para que a grande estrela da noite pudesse deixar um último momento de genialidade em quadra. O que ela fez: primeiro com uma bola de meia distância, depois com um arremesso lindo com giro no poste baixo (sua jogada mais tradicional), seguida por uma bola de três pontos da zona morta, e por fim um floater caindo fora de quadra faltando dois segundos no relógio para dar a ela 9 pontos nos últimos 3 minutos, 20 pontos totais na partida, mais do que suficiente para garantir o prêmio de MVP da Final para a atleta de 28 anos. Mesmo sem torcida no ginásio, a energia - na área da imprensa, entre a equipe técnica do Vera Cruz, mesmo as jogadoras de Campinas no banco de reserva - era palpável enquanto Damiris colocava um ponto final perfeito, impecável na temporada do Vera Cruz Campinas, que recebeu o troféu de campeão em meio a muita comemoração, banho no técnico, batucada, e gritos de "BI-CAMPEÃO!".

Daqui a quatro meses, Damiris deve estar de volta em Minnesota com o Lynx, se preparando para mais uma temporada da WNBA, enquanto o Brasil estará em plena campanha de vacinação contra a COVID-19 e o mundo se prepara para as Olimpíadas de Tóquio. A essa altura, talvez a passagem de Damiris no Vera Cruz - assim como todo o ano de 2020 - pareça pertencer a um passado distante, como se fosse uma miragem, um sonho que não temos certeza se foi real ou não. E, no entanto, para quem estava lá, para as jogadoras envolvidas, os torcedores apaixonados - que não puderam ver o jogo ao vivo, mas não por isso foram menos impactados - isso é algo que nunca vai se apagar, e nunca será esquecido. Por um momento, uma estrela da WNBA no auge do seu talento desfilou toda sua qualidade nas quadras brasileiras, e o Vera Cruz Campinas atingiu um novo nível coletivo, com um jogo empolgante e vibrante, para massacrar o Ituano e levantar o Campeonato Paulista de Basquete Feminino de 2020.

E o resto, como eles dizem, é história.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.