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LeBron inicia final do Oeste como símbolo da era de jogadores empoderados

LeBron James (ao centro) se ajoelha durante execução do hino nacional americano em protesto antirracista - Mike Ehrmann/Getty Images/AFP
LeBron James (ao centro) se ajoelha durante execução do hino nacional americano em protesto antirracista Imagem: Mike Ehrmann/Getty Images/AFP

Lucas Pastore

Colunista do UOL

18/09/2020 04h00

Quando a bola subir às 22h de hoje (18) na bolha montada em Orlando para a retomada da NBA, LeBron James iniciará a disputa de uma final de conferência pela terceira equipe diferente. Campeão da NBA em 2012, 2013 e 2016, o astro venceu a Conferência Leste em 2007, 2015, 2016, 2017 e 2018, pelo Cleveland Cavaliers, e em 2011, 2012, 2013 e 2014, pelo Miami Heat. Agora tentando conquistar o Oeste com a camisa de Los Angeles Lakers, o ala causou com suas transferências uma ruptura histórica na liga, ajudando a empoderar os jogadores e pautando a construção do elenco de outras equipes ainda vivas na briga pelo título.

Quem assistiu a Last Dance, série documental do Netflix sobre a carreira de Michael Jordan e o último dos seus seis títulos na NBA, viu o ídolo do Chicago Bulls dizer com todas as letras que se aposentou a contragosto, já que queria que a diretoria mantivesse Phil Jackson para brigar pelo hepta na temporada seguinte. Algo impensável hoje em dia, já que é cada vez mais comum jogadores pressionando franquias e, em último caso, as deixando sem olhar para trás. Uma tendência que ganhou força com LeBron.

Em 2010, quando virou agente livre após o fim do seu contrato com os Cavaliers, o hoje comandante do ataque dos Lakers promoveu um histórico e midiático processo para dizer onde iria jogar. Anunciou ao vivo, em rede nacional americana, que iria "levar seus talentos" para o Heat, se juntando aos amigos Dwayne Wade e Chris Bosh, que também chegaram à liga no Draft de 2003.

A movimentação foi ainda mais surpreendente por causa da ligação pessoal de LeBron com Ohio, estado americano que serve como casa para os Cavaliers. O jogador nasceu no estado, brilhou no basquete colegial defendendo uma equipe local e tornou-se esperança para o amaldiçoado esporte da região em seus sete primeiros anos na NBA. Mas decidiu que a franquia de Cleveland não era a certa para dar a ele condições de brigar pelo título, o que o fez ir embora em busca de seu objetivo.

Em 2014, já bicampeão da NBA, LeBron voltaria aos Cavaliers para dar à franquia o único título de sua história, conquistado em 2016. Dois anos depois, após dar novos sinais de insatisfação com os rumos da franquia, decidiu se tornar jogador dos Lakers. No processo, ajudou a mudar a história da liga.

Jordan também foi um marco histórico no processo de empoderamento dos jogadores. Seu contrato com a Nike, por exemplo, rompeu paradigmas e transformou os atletas em protagonistas na negociação de contrato com patrocinadores. Mas em uma era que a fidelidade a equipes era considerada uma questão de honra, o ídolo dos Bulls não passou nem perto de conseguir mudar a relação com franquias como LeBron ajudou a fazer.

O poder que o camisa 23 dos Lakers ajudou a dar aos jogadores ajuda a explicar o histórico boicote a uma rodada dos playoffs como protesto contra a violência policial contra negros. Se Bill Russell diz que se arrepende de ter entrado em quadra após a morte de Martin Luther King e Craig Hodges, ex-colega de Jordan nos Bulls, perdeu espaço na NBA como consequência de sua figura ativista, dessa vez os atletas foram protagonistas do movimento antirracista, cobrando mudanças de paradigmas na liga, nas franquias e liderando protestos antes da retomada das partidas.

LeBron pode não ter sido o maior ativista do boicote, que teve o elenco do Milwaukee Bucks na linha de frente. Antes da retomada da temporada da NBA, uma corrente de jogadores liderada por Kyrie Irving defendia que o retorno dos jogos iria diminuir a força da pauta antirracista. O ala dos Lakers foi uma das vozes mais importantes para que a maioria dos atletas aceitasse a ideia da bolha em Orlando para voltar às quadras.

Mas, por tudo que representa, LeBron se tornou um dos maiores símbolos do movimento dos jogadores. De críticas a Donald Trump em entrevistas coletivas a forte tweet de apoio aos Bucks, se eternizou como protagonista do momento histórico. Tanto que ganhou o apoio de Colin Keapernick, conhecido pelo pioneirismo na pauta antirracista entre jogadores da NFL.

Claro que é errado restringir o legado de LeBron apenas a suas decisões extra-quadra. Líder da temporada em assistências, o ala também ajudou a mudar a NBA com sua mentalidade coletiva. Enquanto antes a organização dos ataques era responsabilidade dos armadores, hoje vemos jogadores com tamanho de ala, como Giannis Antetokounmpo, Ben Simmons e Draymond Green se destacando no quesito. Até mesmo Nikola Jokic, um pivô, age comandando a ofensiva do Denver Nuggets.

É possível ver influência de LeBron nisso. O astro sempre pressionou as diretorias de Cavaliers e Heat a contratarem mais jogadores capazes de ajudar na organização ofensiva. Fez com que a franquia de Ohio contratasse Deron Williams e com que o time da Flórida draftasse Shabazz Napier, por exemplo. Ainda fez elogios públicos a Ricky Rubio, armador espanhol que sempre teve o passe como carro-chefe, quando o europeu ainda era novato.

Se antes de LeBron astros como Michael Jordan e Kobe Bryant se sentiam na responsabilidade de arremessar muitas bolas e causar um impacto quase que exclusivamente com pontos, definindo jogadas até mesmo sob marcação dupla ou tripla, hoje em dia até James Harden, jogador que resolve mais posses de bola em isolação na NBA moderna, não hesitará em achar um companheiro de ataque livre caso dois adversários se dediquem à sua defesa.

É possível ver digitais de LeBron nessa nova mentalidade dos astros. Mas talvez seu maior legado para a NBA seja mesmo o empoderamento dos jogadores, principalmente no mercado. Entre os outros finalistas de conferência, há o Boston Celtics, que atraiu Kemba Walker, ex-Charlotte Hornets, e Gordon Hayward, ex-Utah Jazz. Jimmy Butler achou no Miami Heat um ambiente que casa com sua personalidade após não conseguir o sonhado título no Chicago Bulls e no Philadelphia 76ers.

Talvez LeBron até passe um pouco do ponto na questão. Anthony Davis, que tem a carreira gerenciada pela agência que tem um amigo de infância do camisa 23 na presidência, foi contratado pelos Lakers nessa temporada em processo que desafiou as leis de aliciamento da NBA. Pior para o New Orleans Pelicans, que se viu forçado a trocar seu grande astro por ativos menos valiosos.

Tudo faz parte do pacote LeBron. Goste ou não, ele ajudou a mudar a NBA dentro e fora da quadra. Hoje, contra o surpreendente Denver Nuggets, inicia a briga pelo título da Conferência Oeste para escrever mais um capítulo de sua história de protagonismo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.