PUBLICIDADE
Topo

Tinga

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Espaço público é espaço nosso, não rasgue dinheiro

Orla do Guaíba com a Usina do Gasômetro ao fundo, na cidade de Porto Alegre - Joel Vargas/PMPA
Orla do Guaíba com a Usina do Gasômetro ao fundo, na cidade de Porto Alegre Imagem: Joel Vargas/PMPA
Conteúdo exclusivo para assinantes
Tinga

Tinga é um ex-jogador de futebol. Como profissional defendeu as cores do Grêmio, Internacional, Cruzeiro e da seleção brasileira. Atuou ainda em clubes da Alemanha, Portugal e Japão. Foi campeão da Libertadores, Recopa Sul-Americana, do Campeonato Brasileiro e da Copa do Brasil. Hoje, Tinga é empresário e percorre o país fazendo palestras sobre empreendedorismo, mostrando como se faz "Gestão além da Planilha".

Com Augusto Zaupa

01/10/2021 22h31

Espaço em ambientes abertos, arborizados e com estrutura de lazer ao público em geral é algo que toda a população deseja. Durante anos, houve o debate e o desejo dos moradores de Porto Alegre que a orla do Guaíba fosse melhor explorada, que recebesse investimento da prefeitura e de parceiros privados para que aquela longa faixa de mais de 70 km em frente ao rio Guaíba virasse uma atração local.

Pois bem, depois de longos anos, muito dinheiro aplicado, dois trechos da orla — um deles que começa na famosa Usina do Gasômetro — já foram entregues aos cidadãos para serem desfrutados (muitos gratuitamente). Além disto, o terceiro já tem 90% das obras concluídas e outros também virão.

Ao longo destas faixas onde podemos apreciar um dos pores do sol mais lindos do planeta, há áreas de lazer com arquibancadas, deques, pistas de skate, quadras de futebol society com grama sintética, quadras de areia (para praticar vôlei, futebol ou beach tennis) e passarelas sobre a água, ciclovias, além de outras atrações. Costumo ir sempre aos domingos e me recordo das docas de Lisboa (POR), da área restaurada de Puerto Madeiro, em Buenos Aires (ARG), e até de Amsterdã (HOL), ou outras cidades pelo mundo que valorizam as suas áreas fluviais.

População de Porto Alegre na orla do Guaíba acompanha o famoso pôr do sol da cidade - Cesar Lopes/ PMPA - Cesar Lopes/ PMPA
População de Porto Alegre na orla do Guaíba acompanha o famoso pôr do sol da cidade
Imagem: Cesar Lopes/ PMPA

Depois de décadas e décadas, a cidade parou de dar as costas ao rio Guaíba e a região se tornou um dos cartões postais de Porto Alegre — parece até ironia, mas cidade que tem "porto" em seu nome não enaltecia este ponto.

Apesar de todas as obras e investimentos, infelizmente, os trechos registram constantemente um acúmulo de lixo ao amanhecer às segundas-feiras. A sujeira é consequência da intensa movimentação de pessoas que não se importam com os demais membros da sociedade.

Tinga em uma das quadras com gramado sintético na orla do Guaíba, em Porto Alegre - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Tinga em uma das quadras com gramado sintético na orla do Guaíba
Imagem: Arquivo pessoal

Você até por estar se perguntando, mas o que eu tenho a ver com isso, se não moro em Porto Alegre? A resposta é simples: independentemente da qual cidade onde você resida, não podemos perder o nosso senso de coletividade.

Parcela da população ainda tem o pensamento retrógrado que tudo que é público é de responsabilidade apenas do governo local, que não há necessidade de zelo. Temos que aprender que instalações e equipamentos públicos pertencem a nós, que o dinheiro investido sai dos nossos bolsos, dos impostos que pagamos. É como se comprássemos uma casa e descarregássemos toneladas de lixo, depredássemos os ambientes deste imóvel por simples descaso.

Sempre que vejo uma creche, um hospital público, um viaduto, qualquer que seja a obra, vejo que faço parte desta construção porque o meu dinheiro foi investido ali. A procedência de toda a grana que os governos municipais, estaduais e federal possuem sai dos nossos bolsos.

Parece radical, mas sugeri — em tom de brincadeira — ao prefeito de Porto Alegrem, Sebastião Melo, que peça ao DMLU (Departamento Municipal de Limpeza Urbana) descarregar sacos e mais sacos de lixo nas vias da região da orla, na madrugada de sábado para domingo. Assim, o povo irá levar um choque quando chegar domingo cedo para praticar o seu esporte ou curtir o espaço com amigos e familiares. Às vezes, é preciso este susto para alertar.

"A cidade precisa de regras de convivência. A nossa cidade é uma das que mais disponibiliza espaços públicos à sociedade. São nove parques, quase 700 praças urbanizadas, 72 km de orla, o Centro Histórico, o Quarto Distrito, o Moinho de Vento [Parcão], a Cidade Baixa... Mas você precisa de regras de convivência civilizadas, e a gente só vai conseguir isso com a cidade educadora. Uma cidade educadora é aquela que você prepara o cidadão para a vida, aquela que vai além da educação formal do muro da escola. Mas a democracia também é um empenho da lei, quando falta civilidade o poder público tem que usar das forças que tem, de forma conjugada e integrada para fazer evidentemente a repressão àqueles que comentem verdadeiros absurdos dos espaços públicos", me disse o prefeito da capital gaúcha.

Podemos nos deparar com essa depredação nas praias do Rio de Janeiro, de Santos, de Maceió, do Recife, na Avenida Paulista, no Conjunto Arquitetônico da Lagoa da Pampulha em Belo Horizonte... Indecentemente de qual que seja o CEP, precisamos mudar este conceito de espaço público para espaço nosso, talvez, assim tenhamos mais carinho pelo esforço do nosso trabalho e dos impostos que pagados de forma árdua.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL