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Tinga

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Pai, muito obrigado por ser tão inspirador

Tinga ao lado dos filhos Daniel (e) e Davis (d) durante ação social do ônibus Fome de Aprender - Arquivo pessoal
Tinga ao lado dos filhos Daniel (e) e Davis (d) durante ação social do ônibus Fome de Aprender Imagem: Arquivo pessoal
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Tinga

Tinga é um ex-jogador de futebol. Como profissional defendeu as cores do Grêmio, Internacional, Cruzeiro e da seleção brasileira. Atuou ainda em clubes da Alemanha, Portugal e Japão. Foi campeão da Libertadores, Recopa Sul-Americana, do Campeonato Brasileiro e da Copa do Brasil. Hoje, Tinga é empresário e percorre o país fazendo palestras sobre empreendedorismo, mostrando como se faz "Gestão além da Planilha".

Com colaboração de Augusto Zaupa

06/08/2021 04h00

Esta semana recebi um convite que me deixou extremamente feliz. Uma oportunidade para externar todo o amor, respeito e admiração que sinto pelo meu pai. Peço licença para assumir este espaço do cara que vocês chamam de Tinga, e eu de pai. Oi, aqui quem escreve é o Davis Silva, o primogênito do dono desta coluna.

Estou muito grato por ter essa oportunidade, principalmente por saber o quanto este espaço é importante para o meu pai, que se dedica semanalmente para transmitir suas experiências e aprendizados. Posso ficar aqui por dias, semanas ou anos só falando dele, mas tentarei ser sucinto. É gratificante poder passar um pouco do que ele é para mim e ao meu irmão Daniel, de 14 anos.

Meu irmão e eu temos uma relação boa demais com o nosso pai, vai além desta conexão genitor e crias, é uma questão de parceria, de poder contar para qualquer coisa para que possamos precisar, como um melhor amigo que sempre te acompanha. Ele nunca se limitou ao fato de nos educar e financiar nossos estudos, alimentação, moradia, vestuário...

Nos inspiramos muito na imagem dele, mas isso não está atrelado ao Tinga jogador, mas sim ao Paulo César Fonseca do Nascimento, pai e marido sempre dedicado à família, aos que os cerca e aos que nem fazem parte do seu circulo diário de amizades. É um baita cara, de grande caráter, que inspira a mim e ao meu irmão.

Nestes meus 18 anos de convívio com ele, sempre o presenciei engajado em ações sociais, principalmente no bairro onde nasceu e cresceu, na Restinga (zona sul de Porto Alegre) — tanto que carrega com o orgulho o apelido Tinga. Desde que me conheço por gente, ele e minha mãe estão envolvidos nestas causas e nos fizeram participar de ações para pudéssemos dar valor o que tínhamos debaixo do nosso teto. Nunca foi nada forçado, pelo contrário, sempre nos deixou à vontade, e isso foi de extrema importância para o nosso amadurecimento.

Tinga brinca com o filho Davis em treino do Borussia Dortmund, quando o ex-volante defendia o time alemão - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Tinga brinca com o filho Davis em treino do Borussia Dortmund
Imagem: Arquivo pessoal

Meu pai anunciou a sua aposentaria dos gramados em 2015, quando estava com 37 anos e ainda poderia render em campo por tudo que sempre ofereceu e se dedicou, independentemente das camisetas de clubes que vestiu. Mesmo assim, uma grave lesão o fez tomar esta decisão. Passados seis anos, muitos ainda se assustam, ficam surpresos quando o veem empreendendo, buscando novos horizontes, pois o enxergam como um ex-jogador que não havia completado nem o ensino fundamental. Mas o meu pai nunca se acomodou, encerrou os estudos ao cursar um supletivo e buscou o que sempre almejou.

Mas nós, que o conhecemos intimamente, que temos contato diário com ele, não achamos nada surpreendente ao vê-lo escrevendo coluna em um dos maiores portais do Brasil, ministrando palestras, gerindo agência de turismo, tocando negócios em diferentes áreas, produzindo podcast... Ele tem capacidade de falar sobre qualquer assunto, sempre busca aprender ao dialogar com pessoas de diferentes segmentos. A sua capacidade de buscar conhecimento, assimilar e colocar em prática é natural, espontânea e inspiradora.

Meu pai sempre foi muito direto na forma de nos educar, visto que ele aprendeu com a vida por ter parado de estudar na 5ª série. Ele nos conta várias passagens com a nossa avó Nadyr. Ela saia de casa para trabalhar à noite, passava a madrugada limpando o banheiro e outras dependências de um clube social em Porto Alegre durante casamentos e formaturas.

No dia seguinte, logo cedo, ela chegava em casa com sacolas cheias de comida, suco, refrigerante... Eram sobras das festas. Ali, meu pai nos diz até hoje o quanto é bom trabalhar, o quando trabalhar é gratificante, que nos traz recompensas. Ele viu amigos serem presos por se envolverem com o crime, mas também carrega casos de outras pessoas da Restinga que estudaram e se deram bem na vida.

O meu pai não teve uma escola para o ensinar isso, ele aprendeu na prática, na marra. Ele nos instruiu muito bem para tomarmos as nossas decisões em momentos cruciais, fomos muito bem instruídos. Estes ensinamentos eu carrego até hoje e pretendo passar futuramente aos meus filhos.

Sem intervenção para eu me tornar jogador

Como qualquer guri no Brasil, que começa a jogar futebol na rua e na escola, de assistir aos jogos na TV, acabei me apaixonando pelo esporte e sonhava com isto para a sua vida. Meu pai nunca nos proibiu de traçar a mesma carreira dele - meu irmão está no sub-15 do Grêmio —, como também nunca nos forçou a seguir os seus passos.

Filhos de Tinga, Daniel (d) e Davis (e), defendem o sub-15 do Grêmio e o sub-20 do Santos, respectivamente - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Filhos de Tinga, Daniel (d) e Davis (e), defendem o sub-15 do Grêmio e o sub-20 do Santos, respectivamente
Imagem: Arquivo pessoal

Ele sempre nos mostrou o lado positivo e o negativo na carreira de um atleta profissional. Na escolha dele, faríamos uma faculdade, pois seria uma opção concreta de carreira, visto que é um caminho bem mais seguro que é essa loteria que é o mundo do futebol.

Porém, no momento que ele viu que era isso que nós queríamos, principalmente eu por ser o mais velho, ele nos apoiou. Logo de cara, ele nos disse que seria tudo conosco, ou seja, que chegaria a um grande clube pelos meus méritos, sem nenhuma intervenção dele por ter sido jogador de alto rendimento por quase duas décadas. Ele se porta da melhor forma possível, nos aconselha. É a pessoa que eu mais falo no meu dia a dia, ouço os seus conselhos para fatores dentro e fora do campo.

Recentemente, deixei Porto Alegre e assinei contrato com o Santos para integrar o time sub-20. Todos em casa, incluindo a minha namorada, encararam como uma grande oportunidade. Não houve obstáculos, o meu pai sempre me motivou a isso, correr atrás do que eu almejava e ainda sonho.

Como qualquer pai amoroso, presente e dedicado, ele vai sentir a minha ausência, vai ficar com o coração apertado e se preocupar. Apesar desta saudade mais do que natural, acredito que ele esteja muito orgulhoso pelo que consegui alcançar.

Pai, te amamos demais. Feliz Dia dos Pais.

Obrigado, obrigado, obrigado...

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL