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Tinga

Responsável por milhões, presidente de clube é escolhido por poucos

Eleição do Vasco teve contagem de votos, mesmo com decisão judicial que suspendeu o pleito, que segue indefinido - Bruno Braz / UOL Esporte
Eleição do Vasco teve contagem de votos, mesmo com decisão judicial que suspendeu o pleito, que segue indefinido Imagem: Bruno Braz / UOL Esporte
Tinga

Tinga é um ex-jogador de futebol. Como profissional defendeu as cores do Grêmio, Internacional, Cruzeiro e da seleção brasileira. Atuou ainda em clubes da Alemanha, Portugal e Japão. Foi campeão da Libertadores, Recopa Sul-Americana, do Campeonato Brasileiro e da Copa do Brasil. Hoje, Tinga é empresário e percorre o país fazendo palestras sobre empreendedorismo, mostrando como se faz "Gestão além da Planilha".

19/11/2020 04h00

O final de ano está chegando e com ele vem a reboque as eleições que irão definir os futuros presidentes de grandes clubes brasileiros, como Corinthians, São Paulo, Internacional, Santos e Vasco...

É neste momento que testemunhamos como ainda somos obsoletos, pois seguimos nos deparando com barreiras que impedem a democratização de todo o processo de tomada de decisões dos principais times do país. É lógico, os que estão no poder se recusam a modernizá-lo.

As decisões que atingem multidões são realizadas por pequenos grupos que perpetuam no poder. Em média, são cerca de 500/600 conselheiros que decidem o dia a dia dos principais clubes do país. Num cenário de 8 milhões de torcedores, a escolha de quem será o futuro mandatário é tomada por 0,006% da torcida de determinada agremiação. Isto é uma grande falha.

Se o futebol é feito para os torcedores, são eles que deveriam ter o direito, o respeito e a credibilidade para escolher quem irá gerir o seu clube de coração. O torcedor é o elemento fora do sistema, então tem a visão mais nítida daquilo que é melhor para o seu time. Muitos irão dizer que futebol é passional, que é emoção. Consequentemente, o candidato tem a obrigação de fazer o torcedor se apaixonar por ele para ganhar a confiança do voto.

Em inúmeros casos, a torcida não é condizente com a escolha de determinado dirigente que irá gerir o clube. Se ele tivesse o poder de decisão, poderia assim dividir as responsabilidades, pois ele fez parte do processo.

Em vários times brasileiros, para se tornar elegível à presidência é preciso passar por uma longa jornada que pode durar mais de uma década. Primeiro, é necessário ter dois anos como associado do clube. Depois, ser eleito à chapa de conselheiros. Na sequência, exercer três mandatos no Conselho Deliberativo (seguidos). Posteriormente, ser nomeado conselheiro nato (o que seria vitalício) e exercer mais um mandato de três anos. Ou seja, na melhor das hipóteses, uma pessoa demora 14 anos para se candidatar a presidente.

A abertura política aos sócios-torcedores — que estão com os pagamentos das mensalidades em dia — é o ponto de partida para participação maior deste processo, pois atualmente há times que cativam milhões de torcedores escolhem os seus presidentes em pleitos que têm menos 1% dos seus aficionados.

Fala-se há muito tempo em relação às mudanças no futebol brasileiro. Mas me chama a atenção que são sempre os mesmos CPFs que estão nas diretorias dos times, tantos nos cargos gerenciais como executivos. Não vejo um cenário de mudança, algo para oxigenar este sistema.

A alternância de poder é uma das coisas mais ricas na democracia, é benéfico e importante para qualquer processo evolutivo. Mas, infelizmente, não é o que temos visto no futebol do Brasil.

Tinga, novo gerente de futebol do Cruzeiro - Washington Alves/Light Press/Cruzeiro - Washington Alves/Light Press/Cruzeiro
Tinga foi anunciado como gerente de futebol do Cruzeiro em dezembro de 2016
Imagem: Washington Alves/Light Press/Cruzeiro

Para o bem do esporte, é preciso definir alguns critérios a serem exigidos a qualquer pessoa que tenha a pretensão de ser presidente de um clube: plano de carreira; responsabilidade fiscal e de bens particulares em caso de comprovação de gestão ineficiente ou fraudulenta; ser remunerado, uma vez que o futebol deseja ser considerado uma atividade profissional, mas não é possível aceitar que o chefe maior que gere anualmente mais de R$ 400 milhões não seja assalariado para se dedicar exclusivamente; exposição e comprovação do seu Imposto de Renda e dos familiares de 1º Grau, quando entra e quando sai do clube; e mandato de quatro anos para este tipo de cargo que gerencia um time de massa.

A própria Confederação Brasileira de Futebol concede cursos de gestão, algo que tive a oportunidade de fazer. Mas 90% das pessoas que foram meus colegas nestas formações nunca tiveram a oportunidade de trabalhar neste meio. As diretorias estão impregnadas com os mesmos dirigentes e seus aliados.

Da mesma forma, não acredito nos Conselhos de Gestão, algo que se tornou moda nas equipes. É algo novo no Brasil e que chegou ultrapassado. Já começa errado quando vemos no meio do business do futebol uma turma de cinco ou seis membros que ditam as regras, sendo que nenhum deles foi jogador profissional e sabe o passo a passo dentro do campo e toda a rotina de uma equipe. É como se um Conselho de um hospital não contasse com a participação de um médico, assim como em qualquer outra atividade que dispões em seu quadro de gestão ao menos um profissional relacionado à área que a empresa presta serviço.

Nos últimos anos, quando um ex-jogador retorna ao clube onde foi ídolo, em boa parte dos casos, ele entra de duas maneiras: ou está passando por dificuldades financeiras e é chamado para trabalhar nas categorias de base como se fosse um favor, ou é convidado para exercer alguma função de dirigente ou de treinador para ser o salvador da pátria algum momento de perrengue. Em nenhuma delas isto dá certo. O que importa é capacidade e o conhecimento. Jogar, treinar e dirigir são funções completamente distintas e não podemos confundir isso.

Pela minha experiência como gerente de futebol no Cruzeiro, já fui convidado a participar de chapas para presidir o Internacional e ouvi pedidos de torcedores para entrar na política colorada. Mas não posso parar de trabalhar para gerir um clube. Como farei para pagar o colégio dos meus filhos, sustentar o mesmo padrão de vida que eu tinha quando ainda jogava?

Também não tenho anos dedicados ao Conselho Deliberativo, como é necessário. Não se limita a ser capacitado para exercer o cargo, é preciso estar dentro do sistema.

Em meio a isto tudo, ainda esbarramos em estatutos antiquados que amarram os clubes até na hora de contratar treinadores, pois muitos declinam de convites em anos de eleição por temerem o que ocorrerá ao fim daquela temporada.

A reforma estatutária é mais que necessária. A maioria das eleições ocorre sempre ao término da temporada, algo prejudicial, pois as decisões geralmente são definidas dependendo do sucesso ou do fracasso desportivo. Sem contar que o processo de transição de poder é sempre muito conturbado e conflituoso. O prazo também é curto para que o novo presidente tome posse, estabeleça mudanças no processo, entenda todo contexto do interno do clube para depois montar o elenco para a próxima temporada.

Por esses fatores, penso que todo processo eleitoral deveria ocorrer em setembro, faltando no mínimo três meses para o encerramento da temporada. Assim, haveria um tempo mínimo de transição e preparação para o novo mandato.

Torço para que surjam novas cabeças para debater e inovar o esporte que amamos.

*Com colaboração de Augusto Zaupa

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.