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O futebol não pode ser egoísta

Taça do Campeonato Brasileiro - Divulgação/CBF
Taça do Campeonato Brasileiro Imagem: Divulgação/CBF
Tinga

Tinga é um ex-jogador de futebol. Como profissional defendeu as cores do Grêmio, Internacional, Cruzeiro e da seleção brasileira. Atuou ainda em clubes da Alemanha, Portugal e Japão. Foi campeão da Libertadores, Recopa Sul-Americana, do Campeonato Brasileiro e da Copa do Brasil. Hoje, Tinga é empresário e percorre o país fazendo palestras sobre empreendedorismo, mostrando como se faz "Gestão além da Planilha".

23/07/2020 04h00

O começo do Campeonato Brasileiro de 2020 já tem data para começar: 8 de agosto. Já estava mesmo na hora de a bola voltar a rolar. Acredito que todos os clubes da Série A estão prontos, até porque são mais de 120 dias sem atividades.

Quando se fala em jogar, não é apenas a questão de uma partida de futebol, mas, sim, o que está por trás do jogo. Muitas pessoas vivem e dependem da bola. É necessário ter uma visão real do que se trata esse esporte.

Quando se fala em futebol parece que são apenas 22 pessoas em campo, o que é uma conclusão equivocada, principalmente quando se pensa que é apenas como algo ligado ao entretenimento. Mas para quem trabalha com futebol, como eu, este esporte é muito mais do que apenas 90 minutos de diversão. No meu entendimento, ele é uma atividade econômica também, e de grande valia.

Muita gente depende dos clubes, porque eles empregam e movimentam a economia de diversos setores. Não podemos esquecer e deixar de lado os funcionários das lojas oficiais dos times, pessoal do RH, do financeiro, do administrativo, da segurança, dos que cuidam dos vestiários e da manutenção dos gramados, árbitros... Ou seja, há uma cadeia, incluindo trabalhadores informais, que está envolvida neste negócio.

Se já está complicado fechar as contas para os clubes, como fica o profissional que trabalha no entorno do evento e não tem nenhum amparo?
Desta forma, não compactuo com a ideia que os clubes "forçaram" a barra para a retomada dos campeonatos. Foi passado um protocolo de segurança para que as equipes cumprissem e elas fizeram tudo o que havia sido pedido.

É natural que os clubes queiram retomar as atividades após investirem alto em testes em jogadores, membros da comissão técnica e até familiares, além de readequarem os seus protocolos diários no combate ao coronavírus. Os clubes são como empresas e têm o direito de retomar as suas atividades.

O futebol, porém, não pode ser egoísta. Não pode deixar de lado as outras atividades que seguiram adiante, mesmo num momento de pandemia e risco de contaminação. Acho que houve um certo egocentrismo, olharam em parte apenas para o próprio umbigo.

Penso que no primeiro campeonato que voltou, que foi o Carioca, o comportamento foi exclusivista. Não só na figura do Flamengo, mas de todos os clubes. As pessoas que organizam a competição e as que estão à frente dos clubes poderiam ter pensando um pouco mais em tantas outras atividades que seguiram trabalhando para que nós pudéssemos ficar em casa, como os casos dos garis, motoboys, frentistas de postos de gasolina, motoristas e cobradores de ônibus, médicos, enfermeiras... Mas todos esses trabalhadores foram esquecidos ou ignorados.

Quando eu liguei a televisão para assistir o retorno do futebol no Brasil, eu não me senti representado porque, como empresário, eu também sofri com essa crise. Tive que dispensar funcionários nas minhas empresas.

Gostaria de ter visto um ídolo do Flamengo, Vasco, Fluminense ou Botafogo usando uma camiseta que passasse uma mensagem de apoio aos médicos, comerciantes, autônomos... Eu me sentiria mais confortável ao ver essa mensagem de força, de apoio a estes trabalhadores, porque muitos não estão tendo a chance de voltar às atividades e acabaram perdendo o emprego ou fechando os seus negócios.

Quando se discute apenas o jogo, a volta dos campeonatos, e não menciona os demais setores da sociedade, isso, para o público que não conhece o futebol, soa como egoísmo.

Também ouvi muitas vezes que os jogadores não tiveram voz ativa durante esta paralisação forçada devido à pandemia.

Mas o jogador de futebol no Brasil nunca foi ouvido para participar das decisões.

Normalmente, quando tem espaço, a imprensa quer saber do jogo ou de alguma polêmica. Dificilmente se pergunta o que o jogador pensa.

Por outro lado, quando a imprensa questiona, o jogador da atualidade costuma ser tão blindado que não entra no debate. Há também o despreparo da maioria que não está alinhado sobre determinado assunto.

Agora, acho ainda mais injusto querer uma posição dos jogadores neste momento tão complicado, pois nem as autoridades e nem especialistas na área de saúde sabem dar um prognóstico de quando tudo isso irá acabar. Não será um jogador que falará com segurança e propriedade sobre uma doença que ainda não tem vacina.

Muitos jogadores foram, sim, ativos nesta pandemia. O futebol é um vetor social. Aí, não estamos discutindo se o jogador ganha R$ 1 ou R$ 1 milhão. Todos sofreram. Vários foram e ainda são percursores de ações sociais, com arrecadações de cestas básicas e doações em dinheiro.

Na real, o futebol quer voltar, já voltou e desejo que os demais seguimentos também voltem. Mas que sejamos mais altruístas.

* Com colaboração de Augusto Zaupa

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.