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Tales Torraga

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Libertadores 2022 comprova: 'Copa do Brasil com argentinos' veio para ficar

Adson e Fagner, do Corinthians, marcam jogador do Boca Juniors durante jogo da Libertadores - NELSON ALMEIDA / AFP
Adson e Fagner, do Corinthians, marcam jogador do Boca Juniors durante jogo da Libertadores Imagem: NELSON ALMEIDA / AFP
Tales Torraga

Jornalista e escritor, Tales Torraga nasceu em Mogi das Cruzes (SP), mas é, segundo os colegas, "mais argentino que os próprios argentinos". Morou em Buenos Aires e Montevidéu, girou pela imprensa brasileira e portenha e escreveu 15 livros ? o último deles, Copa Loca, é sobre a...Argentina nos Mundiais.

Colunista do UOL

29/05/2022 04h00

O fim da fase de grupos da Libertadores 2022 trouxe clubes brasileiros e argentinos ocupando 12 das 16 vagas nas oitavas de finais. A lista: Flamengo, Corinthians, Palmeiras, Atlético-MG, Athletico-PR e Fortaleza, pelo lado brasileiro, e River Plate, Boca Juniors, Estudiantes, Vélez Sarsfield, Colón e Talleres, pelo argentino.

A soma equivale a 75% do total de times que seguem na Copa. Tal taxa é semelhante à soma dos títulos dos dois países na competição. A Argentina lidera com 25 conquistas, com o Brasil vindo atrás com 21 — os 46 títulos somados correspondem a 74,19% das 62 edições de Libertadores.

Escolas competitivas como Uruguai, Paraguai, Chile e Colômbia definitivamente perderam espaço. Clubes grandes desses países agora ficam atrás até de times que ainda buscam maior projeção internacional, como Fortaleza, Colón e Talleres, para ficar só em três exemplos.

Nos papos entre torcedores é comum ouvir que a Libertadores da América hoje é uma "Copa do Brasil com argentinos". Claro que a afirmação contrária também é possível. Uma "Copa Argentina com brasileiros".

Com tais comparações, é evidente que estamos diante de uma competição ainda muito acirrada, embora muito menos plural do que já foi.

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Benevenuto, do Fortaleza, contra o River Plate no Castelão pela Copa Libertadores
Imagem: Lucas Emanuel/AGIF

E os motivos?

A distribuição de vagas aplicada pela Conmebol desde 2017 tem total influência. Desde aquela edição, o Brasil tem duas vagas a mais (somando sete); Argentina, Colômbia e Chile também receberam uma vaga extra, cada.

A Libertadores 2016 teve o título dos colombianos do Atlético Nacional sobre os equatorianos do Independiente del Valle. Veio 2017 e a nova distribuição de vagas. E somando os semifinalistas das Libertadores desde então, 18 dos 20 clubes vieram de Argentina e Brasil.

A exceção? O Barcelona do Equador, que perdeu para o Grêmio em 2017 e para o Flamengo em 2021 — ambas as vezes na semi.

Dirigentes que trabalham no futebol brasileiro explicaram à coluna tal domínio na Libertadores. A disparidade econômica e técnica é a chave para entender.

"Nos últimos 15 anos, os clubes brasileiros começaram a se importar cada vez mais com esse torneio. Isso na Argentina e Uruguai já era muito comum", disse Júnior Chávare, ex-dirigente de Grêmio, Atlético-MG, Bahia e São Paulo.

"O Uruguai, por exemplo, nem sempre consegue fazer grandes participações, em virtude de uma crise técnica que o país atravessa. Há também a questão da dificuldade em manter seus principais jogadores."

"Para quem acompanhou a história do Fortaleza nos últimos anos, seria inimaginável chegar onde chegamos", ressaltou Marcelo Paz, presidente da equipe que tem o argentino Juan Pablo Vojvoda como técnico. "O clube esteve na Série C por oito anos! É motivo de muito orgulho e muito trabalho envolvido."

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São Paulo e Jorge Wilstermann na Sul-Americana
Imagem: Rubens Chiri/SaoPauloFC/Flickr

Sul-Americana com outra cara

A outra competição continental terá outro volume de ocupação de brasileiros e argentinos em comparação com a Libertadores: a Sul-Americana traz 7 brasileiros e argentinos entre os 16 times das oitavas de final (43,75%).

Pelo Brasil: Atlético-GO, Ceará, Internacional, Santos e São Paulo avançaram de fase. Pela Argentina: Lanús e Unión.

Tal presença de brasileiros tem a ver com o aumento na premiação e a consolidação do novo formato de disputa, com os eliminados da Libertadores seguindo pela Sul-Americana.

No fim do ano passado, a Conmebol acrescentou US$ 1 milhão ao valor repassado ao campeão, que agora é de US$ 6,8 milhões (cerca de R$ 32,1 milhões).

Dois brasileiros buscam o bi na competição: o Internacional, campeão em 2008, e São Paulo, em 2012. Ambos bateram argentinos na final: o Estudiantes (em 2008) e o Tigre (em 2012).

Alessandro Barcellos, presidente do Inter, diz que a Sul-Americana é prioridade para o Colorado: "Além do Campeonato Brasileiro, é uma das grandes prioridades nesta temporada. É uma possibilidade de título e um caminho mais rápido para conseguir uma vaga na próxima Libertadores".

Rui Costa, diretor-executivo do São Paulo, tem raciocínio semelhante.

"Os clubes brasileiros passaram a valorizar mais este torneio, principalmente por conta das mudanças na premiação, que proporcionam um montante maior de dinheiro ao campeão. O formato de disputa também tornou a competição mais atraente."

A decisão da Sul-Americana deste ano será justamente em solo brasileiro: no Mané Garrincha, em Brasília, no dia 1º de outubro.