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Tales Torraga

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Faz sentido chamar o Boca Juniors de 'Corinthians da Argentina'?

Tales Torraga

Jornalista e escritor, Tales Torraga nasceu em Mogi das Cruzes (SP), mas é, segundo os colegas, "mais argentino que os próprios argentinos". Morou em Buenos Aires e Montevidéu, girou pela imprensa brasileira e portenha e escreveu 15 livros ? o último deles, Copa Loca, é sobre a...Argentina nos Mundiais.

Colunista do UOL

16/05/2022 04h02

Boca Juniors e Corinthians se enfrentam amanhã (17), na mítica Bombonera, pela quinta rodada da fase de grupos da Libertadores da América. A partida das 21h30 (de Brasília) traz sempre uma questão: há equivalência entre os dois clubes? Afinal, eles carregam até um passado de troca de gentilezas entre as torcidas.

Faz sentido, afinal, chamar o Boca Juniors de "Corinthians da Argentina" ou este é mais um exemplo de "falsa equivalência", uma falácia lógica que descreve uma situação onde há uma simetria aparente, mas que na realidade não há nenhuma?

Abordar o assunto em Buenos Aires com os torcedores do Boca é quase sempre ouvir insultos de volta. Olhando para o clube como "o Real Madrid da América", mantra repetido pelo próprio Juan Román Riquelme, hoje vice-presidente de futebol do clube, os torcedores xeneizes não costumam encarar com simpatia qualquer tentativa de comparação com outros clubes da América do Sul.

(Os da Europa são permitidos porque comprovariam a condição de gigante mundial que os fanáticos gostam de apregoar.)

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Confusão dentro de campo entre os jogadores do Corinthians e Boca Juniors pela Libertadores
Imagem: Ettore Chiereguini/AGIF

Esto es Boca!

Para rebater tal comparação com o Corinthians, é comum que os torcedores do Boca recorram às pesquisas sobre a proporção dos seus simpatizantes em comparação com os do Alvinegro.

Os xeneizes ao longo dos anos repetem que "são a metade mais um" da Argentina. As pesquisas encomendadas pela AFA e por outros órgãos calculam que a torcida do Boca equivale a 40% da população argentina, hoje de cerca de 45 milhões de habitantes.

A proporção da torcida do Corinthians segundo a pesquisa Datafolha de 2019 é de 14% daqueles que torcem para algum time (o Flamengo lidera com 20%). É claro que a dimensão do Brasil precisa ser considerada: a população do país hoje ultrapassa os 212 milhões.

Outro ponto bastante reforçado entre os torcedores do Boca é o currículo internacional do clube portenho: são, afinal, seis títulos da Libertadores e três títulos mundiais, contra uma Libertadores do Corinthians e dois Mundiais.

Qualquer tentativa de discussão é geralmente encerrada em Buenos Aires com uma estatística realmente impressionante: enquanto o Corinthians disputou uma única final de Libertadores (a de 2012), o Boca soma nada menos que 11 decisões do principal torneio continental de clubes (é o recordista).

Há outras três diferenças bastante ressaltadas ao analisar possíveis semelhanças entre Boca e Corinthians.

A primeira é a Bombonera, símbolo xeneize desde 1940 — a Neo Química Arena, atual estádio próprio usado pelo Corinthians, foi inaugurada em 2014.

A segunda: os vínculos do Boca com a comunidade italiana na Argentina, enquanto a equipe italiana em São Paulo sempre foi o Palmeiras. E a terceira razão tem a ver com o bairro de origem: enquanto o Boca Juniors carrega o bairro de La Boca no nome, o Corinthians inspirou seu nome na equipe inglesa Corinthian-Casuals Football Club, que fazia então uma excursão pelo Brasil.

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Adson e Fagner ,do Corinthians, tentam marcar jogador do Boca Juniors durante jogo da Libertadores
Imagem: NELSON ALMEIDA / AFP

Aqui é Corinthians!

O livro Os Hermanos e Nós, escrito em 2014 pelos jornalistas Ariel Palacios e Guga Chacra, aborda a questão: "Para começar, devemos estereotipar um pouco os times da Argentina para depois aplicar o modelo aos estados brasileiros e ver quais seriam seus equivalentes. O Boca Juniors é o mais popular".

"Nos estados brasileiros, podemos dizer que o Boca seria o time das massas, como Corinthians, Flamengo, Internacional, Atlético-MG, Bahia, Sport e Coritiba. Cada um desses times representa um pouco do que é ser xeneize em seu estados. É o 'povão', como seus próprios torcedores gostam de dizer. A comparação, porém, não é propriamente perfeita", conclui o trecho, reforçando o exemplo da Bombonera e a influência italiana ao longo dos tempos no Boca.