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Tales Torraga

REPORTAGEM

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Por que a Argentina anda apaixonada por Dibu Martínez, o 'goleiro doidão'

Dibu Martínez, goleiro da Argentina que chama atenção pelos gestos excêntricos - Divulgação AFA
Dibu Martínez, goleiro da Argentina que chama atenção pelos gestos excêntricos Imagem: Divulgação AFA
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Tales Torraga

Jornalista e escritor, Tales Torraga nasceu em Mogi das Cruzes (SP), mas é, segundo os colegas, "mais argentino que os próprios argentinos". Morou em Buenos Aires e Montevidéu, girou pela imprensa brasileira e portenha e escreveu 15 livros ? o último deles, Copa Loca, é sobre a...Argentina nos Mundiais.

Colunista do UOL

10/10/2021 04h00

A Argentina recebe hoje (10) o Uruguai no Monumental de Núñez. Na partida das 20h30 (de Brasília), o time começa mais uma vez com aquele que é praticamente desconhecido no Brasil e cada vez mais venerado entre os vizinhos: Emiliano "Dibu" Martínez, o "goleiro doidão", como reza a tradição azul e branca. Será a décima partida argentina nestas Eliminatórias

Para começar, o apelido. Dibu vem de "dibujo" ("desenho" em português), porque tinha o rosto vermelho, cheio de espinhas, e era muito magro, parecia desenhado. Nada que tenha abalado sua autoconfiança. Ainda promessa no Independiente, foi convocado pela primeira vez para a seleção em 2011, dez anos atrás, com apenas 18. Levou exatamente uma década para voltar ao posto e brilhar como, não é exagero dizer, ninguém brilhava desde o lendário "Pato" Fillol, campeão mundial em 1978 e ex-goleiro do River Plate e Flamengo.

Parafuso a menos

"Ele está cada vez melhor e mais louco. Que figura! Faltam uns parafusos na cabeça dele", resumiu o colega Ángel Di Maria em entrevista ao TyC Sports, canal da TV argentina. Não faltam exemplos para ilustrar o jeito excêntrico de Dibu, grande nome da Argentina no 0 a 0 com o Paraguai na última quinta (7). Sua dedicação nos treinos já é lendária. Suas atuações em jogos difíceis, também. Ele adora provocar os atacantes, especialmente nos pênaltis. E sua coragem para sair do gol é admirável, mesmo que isso lhe renda choques e golpes que não raramente o mandam ao hospital - não que antes ele arme um escândalo e ameace bater no médico ao ser retirado de campo.

Relaxar? Só com os games de tiro, bem sangrentos.

Dibu está com 29 anos e defende o Aston Villa, time médio do futebol inglês. Custou 21,5 milhões de euros, é o goleiro argentino mais caro da história.

Jogar no Aston é desvantagem? Pelo contrário. Ele é exigido mais que um goleiro de time de ponta, o que ajuda a explicar o alto nível atinigido e que agora é defendido a duras penas. E o planeta todo está de olho na coragem e em seus demais atributos. Tanto que na última sexta (8) ele apareceu na lista dos dez melhores arqueiros do mundo. A lista é de luxo e merece ser reproduzida com os demais nomes. Além do argentino, figuram na relação Gianluigi Donnarumma, Ederson, Kasper Schmeichel, Edouard Mendy, Thibaut Courtois, Keylor Navas, Manuel Neuer, Jan Oblak e Samir Handanovic.

Quem também não esconde a admiração por Martínez é outro "goleiro doidão", o paraguaio José Luis Chilavert —que chegou até a receber convite para se naturalizar argentino, tamanha a admiração por ele. "Gosto demais das provocações de Dibu", resumiu Chila. "Não precisa ser muito inteligente para saber que o atacante tem muito mais recursos que o goleiro, que precisa se virar como pode. O problema é que ele está rodeado de câmeras e microfones. Com tudo isso no meu tempo, seria expulso no primeiro minuto."

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Emiliano Martínez, goleiro da Argentina abraçado por Messi, se destacou na semifinal da Copa América contra a Colômbia
Imagem: MB Media/Getty Images

Vida de cinema

Dibu caiu nas graças argentinas muito pelo seu estilo de entrega total sem pensar no amanhã. Foi parar no futebol inglês ainda adolescente, com uma mão na frente e outra atrás e sem falar inglês. Em um ano, tinha fluência no idioma e já dirigia para cima e para baixo. E ia em frente com tudo, "personalidade avassaladora", como descrevem. Conquistou sua namorada portuguesa, hoje sua mulher, Mandinha, mãe de um casal, e logo estabeleceu uma parceria que mudaria sua vida ao contratar um psicólogo esportivo. "Todo mundo precisa", repete, satisfeito com o trabalho de quase dez anos. "Muitos talentosos ficam pelo caminho porque não estão mentalmente aptos."

A sobriedade em campo esconde bem seus gestos excêntricos. Com a bola parada, é capaz de dançar para provocar a torcida e os rivais, mas com o jogo em andamento ele é conhecido por não brincar em serviço. Bem o oposto de outro referente "doidão" de goleiro argentino, Loco Gatti, ex-arqueiro da seleção, River e principalmente Boca Juniors, com seus cabelos longos e uniformes coloridos. Dibu é fã dos uniformes negros e do cabelo curtíssimo.

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Loco Gatti, histórico goleiro argentino marcado pelas maluquices
Imagem: Reprodução web

"Quero ser lembrado sempre pelo meu caráter e pelo meu coração", costuma repetir Dibu. Dá para imaginar um discurso mais sedutor ao ouvido argentino que este?

Escalações

Argentina - Dibu Martínez; Gonzalo Montiel, Cuti Romero, Nicolás Otamendi e Nicolás Tagliafico; Rodrigo de Paul, Guido Rodríguez (Leandro Paredes) e Giovani Lo Celso (Papu Gómez); Angel Di María, Lionel Messi e Lautaro Martínez. Técnico: Lionel Scaloni.

Uruguai - Fernando Muslera; Nahitan Nández, José María Giménez (Ronald Araújo), Diego Godín e Matías Viña; Federico Valverde, Matías Vecino, Lucas Torreira e Giorgian De Arrascaeta (Nicolás de la Cruz); Luis Suárez e Bruno Rodríguez. Técnico: Maestro Tabárez.