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Tales Torraga

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

35 anos hoje: veja 5 histórias sobre o épico Argentina x Inglaterra de 1986

Diego Maradona, no centro, cercado por marcadores ingleses na Copa do Mundo do México, em 1986 - Peter Robinson - EMPICS/PA Images via Getty Images
Diego Maradona, no centro, cercado por marcadores ingleses na Copa do Mundo do México, em 1986 Imagem: Peter Robinson - EMPICS/PA Images via Getty Images
Tales Torraga

Jornalista e escritor, Tales Torraga nasceu em Mogi das Cruzes (SP), mas é, segundo os colegas, "mais argentino que os próprios argentinos". Morou em Buenos Aires e Montevidéu, girou pela imprensa brasileira e portenha e escreveu 15 livros ? o último deles, Copa Loca, é sobre a...Argentina nos Mundiais.

Colunista do UOL

22/06/2021 12h00Atualizada em 22/06/2021 19h56

A AFA (Associação Argentina de Futebol) pediu e toda a Argentina gritou com força às 16h09 (de Brasília) de hoje (22) o "gol de século" marcado por Diego Armando Maradona contra a Inglaterra nas quartas de final da Copa do Mundo do México. O épico lance completou 35 anos nesta terça, e o diário esportivo "Olé" trouxe até um pôster comemorativo do emblemático lance.

A coluna publica cinco histórias sobre este Argentina x Inglaterra que é visto pelos apaixonados vizinhos como o jogo mais importante do futebol em todos os tempos. Os trechos estão no livro Copa Loca - As inacreditáveis histórias da Argentina nos Mundiais, lançado pela editora Garoa Livros.

Guerra das Malvinas

Foi em 22 de junho de 1986 que Diego Armando Maradona passou de mero jogador de futebol a um prócer argentino como o general San Martín, herói da independência do país. Como disse certa vez o cineasta sérvio Emir Kusturica: só por um milagre a Terra não girou ao contrário naquele dia, em que 30 milhões de argentinos se esgoelaram diante da TV e comemoraram os dois gols do Diez como se fossem o nascimento de um filho, uma formatura e um casamento, tudo ao mesmo tempo.

Com as memórias das Malvinas ainda vivíssimas, argentinos e ingleses se observavam desde o sorteio dos grupos. Já imaginavam que poderiam se encontrar nas quartas de final. Se em 1982 o English Team cogitava até sair de cena em caso de cruzamento com os argentinos, em 1986 o confronto em campo não seria evitado.

A carga emocional daquela partida era pesada demais - e para ambos os lados. Entre os argentinos, contudo, ficava ainda mais difícil fingir que se tratava apenas de um jogo de futebol.

Quatro anos antes, o país chorou 649 mortes pelas mãos dos ingleses. O desejo de vingança era inevitável.

O atacante Jorge Valdano, que desde aquela época já se mostrava um eloquente comentarista de tudo o que cerca o futebol, até que tentou desmentir esse sentimento. "Esse é um jogo perfeito para que os imbecis se confundam", disparou, condenando os que enxergavam na partida uma revanche do conflito armado no Atlântico Sul. Em 2018, Valdano reconheceria que sua frase fora um desatino, e que argentino nenhum seria capaz de torcer como num jogo qualquer: "O imbecil, naquele caso, fui eu".

Maradona concordava. "A gente dizia publicamente antes da partida que não se devia misturar as coisas, mas era mentira. Aquela era uma final, um jogo que representava demais para a gente. Tratava-se mesmo de ganhar de um país todo, não só de um time de futebol", admitiu o craque em sua autobiografia. "Mataram muitos meninos argentinos na guerra. Nos mataram como passarinhos. E esta era uma maneira de recuperar algo das Malvinas. Antes do jogo a gente despistou, mas nem por um caralho este seria apenas mais um jogo."

Camisa improvisada

A partida seria disputada sob um calor de quase 40 graus, cortesia do sol do meio-dia na Cidade do México. O técnico argentino Carlos Bilardo estava incomodado com a camisa reserva da Argentina, toda azul, que seria usada naquele confronto (os ingleses vestiriam branco). Como o tecido era pesado demais, Bilardo mandou seus auxiliares rodarem a capital mexicana na véspera do confronto para procurar um fardamento no mesmo tom, mas com um material mais adequado às condições climáticas.

O uniforme ficou pronto a tempo, mas o resultado era digno de uma comédia de Darín. "Era uma camisa feia demais", relembra o volante Ricardo Giusti. "Um trabalho de filhos da puta, de tão ruim que ficou", brinca o atacante Jorge Burruchaga. O escudo da AFA não era o oficial, e os números, totalmente disformes, prateados e brilhantes, eram de camisas de futebol americano. Que a Argentina tenha entrado para sua partida mais inesquecível nas Copas com um uniforme tão remendado diz muito sobre os improvisos do futebol da época (e também sobre os intermináveis caprichos do supersticioso Bilardo).

Um vestiário de loucos

O Argentina x Inglaterra de 1986 é tão significativo para os argentinos que inspirou um livro centrado exclusivamente nos incríveis detalhes daquele duelo - El partido, do jornalista Andrés Burgo, lançado em 2016, no trigésimo aniversário do bi mundial. Burgo narra que o vestiário estava em silêncio, apreensivo e carregado, momentos antes da subida ao gramado. A concentração era ainda mais intensa, assim como o medo do fracasso.

"Eu estava todo cagado", reconhece Giusti. "E olhe que eu era um veterano. Tinha quase 29 anos, havia jogado dez anos na primeira divisão, tinha participado de algumas Libertadores que eram um verdadeiro terror... Mas estava cagado." A apreensão aumentou com o entra-e-sai de massagistas e roupeiros relatando que o pau comia solto entre torcedores argentinos e ingleses nas arquibancadas do Azteca.

Esticado numa maca, Maradona foi massageado por quase uma hora e parecia em transe. Assim que se levantou, fez questão de cumprimentar cada companheiro com a mesma frase: "Hoje vamos matar esses filhos da puta". "Eu colocava as chuteiras e Diego vinha, me dava uma palmada e gritava: 'Dale, eh, dale, que se você jogar bem eu jogo bem", relembrou o zagueiro Brown. "Dale, você é o melhor, dale que vamos matar esses filhos da puta."

Bilardo também berrava. "Pensem na Argentina! Transpirem e mijem sangue!"

Seguindo o cerimonial da Fifa, os atletas entravam lado a lado em campo. Com argentinos e ingleses enfileirados no túnel, Maradona volta a gritar. "Foram esses filhos da puta que mataram os argentinos. Pensem nos combatentes mortos. Vamos arrebentar o cu deles." Brown emenda: "A quantidade de argentinos que vocês mataram... Vão tomar no cu".

Enquanto as equipes começam a subir ao gramado, os palavrões em espanhol se multiplicam. "Dale, dale, que matamos esses filhos da puta. Outra guerra! Merda!"

As arquibancadas estão lotadas. Público oficial: 114.580 pessoas. Apesar da fúria incontida no túnel, o primeiro tempo é morno. Maradona discute, mas não com um inglês - seu atrito é com o auxiliar de arbitragem costarriquenho. O craque reclama da falta de espaço para bater um escanteio e desmonta a bandeira do córner, mas é obrigado a recolocá-la no lugar antes de fazer a cobrança.

O empate sem gols na etapa inicial provoca uma certa inquietação no vestiário argentino, que volta a ficar em silêncio. O único a fazer algum ruído é o zagueiro Brown, que tira a chuteira do pé direito e começa a golpear a parede com violência, arrancando pequenos pedaços de concreto do Azteca. "Essa daqui é para o filho da puta do inglês que quiser passar por mim."

O sacrifício do maior de todos

Maradona jogou no sacrifício - estava com as costas arrebentadas - e mesmo assim destruiu a Inglaterra no segundo tempo. Seu papel naquela partida é visto como a mais emblemática atuação de um jogador argentino em todos os tempos. A começar pelo gol que inaugurou o marcador, logo aos 5 minutos da etapa final, com Diego saltando na dividida com o goleiro Peter Shilton e escorando com a mão esquerda, para desespero dos ingleses.

La Mano de Dios. O gol de punho, sem dúvida um dos lances mais famosos da história do futebol, segue sendo tão discutido quanto o segundo tento de Maradona na partida, marcado apenas quatro minutos depois. Foram 55 metros percorridos com a bola grudada ao pé esquerdo, enfileirando ingleses como soldados caídos das Malvinas. Para os argentinos, não há o que discutir: é mesmo o "gol do século", aquele que "valeu por dois" - e compensou, portanto, o tento marcado com a mão, garantem eles. ("Acho que gostei mais do primeiro gol. Foi como roubar a carteira dos ingleses", provocou Maradona.)

O lance antológico do 2 a 0 deixou perplexos tanto os ingleses como os próprios argentinos. "Sempre dizem que o gol de Maradona só sairia contra a Inglaterra, que seria impossível ele fazer um gol assim contra uruguaios ou brasileiros, que o partiriam no meio. A verdade é que os ingleses fizeram de tudo para pará-lo com falta, mas não conseguiram", relembra Valdano.

O médico Raúl Madero estava sentado no banco e não podia acreditar na obra-prima de Diego. "Ele estava péssimo, cheio de dores no corpo todo. Tanto que, na concentração, ocupei um quarto ao lado do dele, tamanha era sua dificuldade. Diego sempre dizia que pela seleção jogaria até com uma perna só. Poucos foram valentes como ele", contou o doutor à revista El Gráfico.

Madero relata que a noite que antecedeu o jogo foi de tratamento intensivo na região lombar de Maradona. "Ele estava com sérios problemas. Na manhã da partida, apliquei-lhe uma injeção com analgésicos e disse: 'Diego, sonhei que a Argentina vai ganhar e que você vai fazer dois gols'. Ele respondeu que havia sonhado o mesmo. Foi por isso que tão logo o jogo terminou, ele veio
correndo me abraçar."

'Nuca de Deus'

A Inglaterra ainda descontou a nove minutos do fim, com Gary Lineker, artilheiro daquele Mundial. A pressão sobre a defesa argentina durou até os instantes derradeiros da partida. No finzinho, John Barnes, que tinha acabado de entrar, concluiu de muito perto e quase marcou. Quem salvou foi Olarticoechea, com a nuca. "Foi o jogo da mão de Deus e da nuca de Deus", divertiu-se ele.

Os argentinos que viveram a partida mais intensamente vão às lágrimas até hoje quando se lembram dos gols de Maradona. O jogo transcorreu sob uma violenta emoção, e esse sentimento custa a ser esquecido. Talvez nenhum outro duelo da história das Copas represente tanto para um seu país como este, com a possível exceção do Brasil x Uruguai de 1950 para os torcedores da Celeste.