PUBLICIDADE
Topo

Tales Torraga

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Gás, explosões e jogo à 0h: o "inferno" de River e Nacional-URU na Colômbia

Marcelo Gallardo e Milton Casco sofrem com gás lacrimogêneo - Reprodução TV
Marcelo Gallardo e Milton Casco sofrem com gás lacrimogêneo Imagem: Reprodução TV
Tales Torraga

Jornalista e escritor, Tales Torraga nasceu em Mogi das Cruzes (SP), mas é, segundo os colegas, "mais argentino que os próprios argentinos". Morou em Buenos Aires e Montevidéu, girou pela imprensa brasileira e portenha e escreveu 15 livros ? o último deles, Copa Loca, é sobre a...Argentina nos Mundiais.

Colunista do UOL

13/05/2021 08h02Atualizada em 13/05/2021 09h03

River Plate e Júnior empataram por 1 a 1 ontem (12) à noite no Estádio Romelio Martínez, na cidade de Barranquilla. Os gols ficaram em segundo plano. Tanto antes da partida como durante o jogo, os jogadores de ambos os times sofreram com os efeitos dos gases lacrimogêneos que foram disparados pela polícia contra os manifestantes que tentaram impedir a realização do jogo com os protestos sociais que assolam a Colômbia desde a semana passada.

A insensibilidade da Conmebol em manter a partida mesmo com as ameaças de protestos foi duramente criticadas pelas TVs e rádios da Argentina, que não aliviaram a barra também do River em entrar em campo. Alegaram sempre as dificuldades financeiras dos clubes que são vítimas da ganância da entidade, que poderia ter cancelado a partida ou transferido para um campo neutro, como já ocorreu na semana passada no também empate entre River e Independiente Santa Fe (0 a 0 em Assunção).

Outra alegação da imprensa portenha nesta manhã em Buenos Aires é a proposta da Conmebol de realizar a partida nesta quinta, algo que não era do interesse do River pela decisão contra o Boca no domingo, quando ambos se cruzam pelas quartas de final da Copa da Liga Argentina em partida única.

Gallardo foi duro na coletiva depois do jogo: "O resultado é quase uma anedota. Não podemos olhar para outro lado", disse, em referência aos protestos que ocorreram a partir das 14h (locais).

O River não pôde se aquecer em campo por conta dos gases que eram disparados nos arredores do estádio e sentidos no gramado. A partida foi paralisada aos 23 do primeiro tempo pela impossibilidade de respirar, e explosões e tiros foram ouvidos durante os 90 minutos.

"Era um momento complexo, porque não dá para se abstrair do que está acontecendo, sabíamos que fomos jogar tentando seguir as garantias necessárias. Não é normal vir jogar em uma situação tão instável como vive hoje o povo colombiano. Não foi normal, nem antes ou depois."

"A partida ocorreu em uma situação muito incômoda, com gases lacrimogêneos durante muitos momentos da partida, escutando explosões. Foi anormal", finalizou o badalado treinador do River.

Uruguaios jogaram à 0h

Os protestos marcam também a partida entre Atlético Nacional e Nacional-URU. A partida começou à 0h (tanto de Brasília quanto do Uruguai) e terminou 0 a 0 porque os manifestantes se aglomeraram em frente ao hotel onde estava o Nacional na cidade de Pereira.

O time visitante a princípio se recusou a jogar, mas depois cedeu alegando que seria multado e excluído desta e das próximas quatro edições da Libertadores, escreve hoje o jornal uruguaio "El País".

nacional - Twitter Nacional - Twitter Nacional
"Não há futebol em uma poça de sangue", protestam colombianos na porta do hotel do Nacional-URU
Imagem: Twitter Nacional

Há grandes críticas no país também pelo vídeo que o Nacional publicou quando saía do hotel, com uma aprovação explícita à Conmebol. "O time sai do hotel porque acredita no que é grande (em referência ao slogan da entidade "creemos en lo grande").

"Vamos que gostamos, vamos que adoramos isso", é outra voz que se ouve no vídeo postado pela entidade - e a discussão é se o vídeo aprova ou ironiza as pressões sofridas para deixar o hotel.

Não havia confirmação do que aconteceria no encontro até uma hora antes da partida. Os times apenas se limitaram a divulgar suas escalações nas redes sociais. Em entrevista depois da partida, os jogadores disseram que o dia foi caótico, com muito barulho e muita gente nos arredores do hotel, com a Conmebol garantindo a segurança para a realização da partida apenas às 22h30.

Ao contrário do jogo do River, explosões não foram ouvidas e a partida não foi paralisada por gás lacrimogêneo.

A sensação geral no Uruguai e Argentina indica que o tricampeão Nacional e o tetracampeão da LIbertadores River Plate encolheram um pouco nesta quarta-feira nefasta. É claro que os times colombianos foram prejudicados pela tensão, mas quem teria mais poder de mudar a situação, ou seja, os visitantes, abaixaram a cabeça e deixaram o jogo seguir.