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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Djokovic e a arte de usar o toilet break para mudar partidas

Reuters
Imagem: Reuters
Alexandre Cossenza

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais. Contato: ac@cossenza.org

Colunista do UOL

06/07/2022 04h00

"O toilet break foi o divisor de águas", disse Novak Djokovic em um momento da entrevista pós-jogo, ainda em quadra, depois de derrotar o italiano Jannik Sinner nesta terça-feira, nas quartas de final do Torneio de Wimbledon. Foi um jogo duro, em que o sérvio esteve perdendo por 2 sets a 0 e, depois de ir ao banheiro, virou o placar e triunfou por 5/7, 2/6, 6/3, 6/2 e 6/2.

A frase acima foi dita com um sorriso, mas com sinceridade. Pouco antes, Djokovic havia explicado como mudou o jogo: "Ele foi o melhor jogador por dois sets. Eu saí, tive um pequeno refresco, o toilet break, um pequeno discurso motivacional com o espelho... (risos do público)... É verdade! Às vezes, nesse tipo de ocasião, em que não há muita coisa positiva acontecendo para você na quadra, e o outro cara está dominando o jogo, às vezes essas coisas são necessárias. Uma pequena pausa, um pequeno discurso motivacional, tentando recuperar e reorganizar as ideias, reagrupar todo que você tem e voltar com o melhor tênis possível."

Antes que os fanáticos supersensíveis e os haters incondicionais comecem com suas teorias conspiratórias, é bom deixar bem claro: Djokovic não fez nada de errado. Não catimbou nem trapaceou. Usou a regra a seu favor e ponto. Não foi sempre assim. Até a polêmica com Stefanos Tsitsipas, que ganhou força depois do US Open do ano passado, a regra sobre idas ao banheiro era pouco específica. Hoje, tudo é bem claro: um tenista pode ficar três minutos no banheiro e, se precisar trocar de uniforme, tem direito a mais dois minutos. Ou seja, cinco no total. Isso significa que a partida pode ficar parada por uns 7-8 minutos, já que o tempo citado na regra só começa a contar quando o atleta chega ao banheiro. Antes, ele precisa juntar suas coisas e caminhar até lá. Não é tão rápido assim, mas é o que a regra permite agora, e paciência se isso é ruim para o ritmo do jogo, os fãs ou o tenista que está vencendo a partida.

Voltando a Djokovic, não é a primeira vez que ele usa desse artifício. Na final de Roland Garros do ano passado, quando também perdia por 2 sets a 0, diante de Tsitsipas, Djokovic pegou suas coisas e foi pensar no vestiário. Quando retornou à quadra, tudo foi diferente, e Nole triunfou por 6/7, 2/6, 6/3, 6/2 e 6/4 em cima de um Tsitsipas que parecia em choque, incapaz de fazer algum ajuste tático ou técnico eficiente na reta final da partida.

Repito: não adianta dizer que é apelação, catimba ou coisa do gênero. Nesse nível de tênis, contra um Sinner em grandíssima forma, não resolve ir ao banheiro só pela paralisação do jogo, apenas para ver se o oponente "esfria". O grande mérito de Djokovic é saber o que fazer durante a pausa. É ter a inteligência para interpretar o que aconteceu nos dois sets iniciais, entender o que deu errado, reconhecer o mérito do adversário e pensar em ajustes que façam o duelo tomar outra direção. Não é tão simples assim, e cinco minutos passam rápido. Mais do que usar a regra, é necessário saber o que fazer, e Nole é um gigante também por isso. Porque tem recursos técnicos e um cérebro tenístico privilegiado para fazê-lo.

No caso desta terça-feira, Djokovic voltou da paralisação usando mais slices, sacando brilhantemente e cometendo menos erros do fundo de quadra. Forçou Sinner a atacar mais e em bolas de maior risco. Quase não deu pontos ao italiano quando encaixou o primeiro saque (Sinner vencer apenas quatro pontos assim nos três últimos sets) e foi eficiente como sempre com sua devolução - que continua a melhor do planeta, com folgas.

Não por acaso, o pacote Djokovic-em-quadra é tão difícil de superar. Não por acaso, o ex-número 1 do mundo segue invicto em Wimbledon desde 2018. Não por acaso, o sérvio continua como favorito - disparado - nas casas de apostas, tanto para bater Cameron Norrie nas semifinais quanto para conquistar seu sétimo título em Wimbledon. Quem ousa apostar contra ele? Eu é que não.

Coisas que eu acho que acho:

- Quem contou uma história parecida, dez anos atrás, foi Andy Murray. Na final do US Open daquele ano, o britânico venceu os dois primeiros sets, mas perdeu o terceiro e o quarto. Então foi ao banheiro, teve uma conversa com o espelho e voltou à quadra para conquistar seu primeiro slam por 7/6, 7/5, 2/6, 3/6 e 6/2. O tenista derrotado naquela noite? Novak Djokovic.

- Para registrar: o jogo de hoje ficou parado por três minutos entre o fim do terceiro set e o começo do quarto. Djokovic fez seu toilet break nesse intervalo.

- Sinner foi ao banheiro antes do quinto set, e a partida ficou parada por quatro minutos. Como escrevi acima, não é interromper o jogo, mas saber o que fazer durante esse tempo que faz a diferença e separa os homens dos meninos.

- Som de hoje no meu Kuba Disco: Unstoppable (Sia) por motivos óbvios.

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