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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Silêncio diz mais do que a ausência de homens brasileiros em Roland Garros

Quadra Philippe Chatrier em Roland Garros - FFT
Quadra Philippe Chatrier em Roland Garros Imagem: FFT
Alexandre Cossenza

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais. Contato: ac@cossenza.org

Colunista do UOL

23/05/2022 07h52

Cinco anos atrás, um desses ex-jogadores de tênis apaixonados pelo argumento do "eu joguei, então sei mais que você" quando conversam com jornalistas, gabava-se para mim de que o "Brasil foi melhor que os Estados Unidos em Roland Garros". Para justificar a tese otimista e o discurso do "está tudo ótimo no tênis brasileiro", usava o seguinte argumento: o Brasil teve três tenistas na segunda rodada masculina de Roland Garros. Os EUA, apenas dois.

Nos números, Thomaz Bellucci bateu Dusan Lajovic, então #81 do mundo; Rogerinho (#79) superou Mikhail Youzhny (#86) de virada e em cinco sets; e Thiago Monteiro (#95) passou por Alexander Muller (wild card, #330) de virada e em cinco sets. Pelos EUA, apenas John Isner e Johnson passaram pela estreia. Jared Donaldson, Jack Sock, Sam Querrey, Ernesto Escobedo, Frances Tiafoe, Donald Young, Bjorn Fratangelo, Ryan Harrison e Tennys Sandgren (nove atletas!) perderam na primeira rodada.

Bellucci, Rogerinho e Monteiro acabaram perdendo na segunda rodada, enquanto Isner e Johnson passaram à terceira, mas o malabarismo estatístico do ex-tenista era irredutível. "O Brasil foi melhor que os EUA". Naquele ano, havia 16 mulheres americanas na chave. Bia Haddad Maia era a única brasileira. Mas e daí, né?

Fast forward para 2022

Cinco anos depois, o Brasil não tem nenhum homem na chave principal de Roland Garros. É a primeira vez desde 1973 que isso acontece. Os EUA têm 15, mas, sinceramente, comparar Brasil e EUA é burrice. Eles têm dinheiro, torneios, patrocinadores e toda uma estrutura que o Brasil provavelmente nunca vai ter. E aquele ex-tenista de cinco anos atrás provavelmente está buscando outra estatística para abraçar e tentar justificar um copo metade cheio em algum lugar.

A Argentina tem 11 homens na chave principal de Roland Garros, mas, para alguns, também é injusto comparar porque... bem, eles têm "cultura tenística". Sim, isso tem sua dose de verdade, mas "cultura tenística" também é um argumento que nós, brasileiros, gostamos de usar enquanto varremos para baixo do tapete o fato de que eles, os hermanos, ralam e não reclamam. Brigam sem esperar patrocínios milagrosos nem projetos que distribuem dinheiro via federação, muito menos investidores-anjo. Lá, não existe a "cultura do atalho" de que fala Chico Costa (leia aqui).

O que significa a ausência de homens nas simples

Não vejo essa chave sem homens brasileiros como o fim do mundo. Não mesmo. Longe disso. Pelo menos olhando essa estatística de maneira isolada. É claro que Roland Garros, por ser no saibro, chama mais atenção, mas o Brasil já ficou sem simplistas homens em Wimbledon/2018, no Australian Open/2019 e no US Open/2018. Ou seja, não chega a ser tão novidade assim quando falamos nos slams de maneira geral.

Além disso, Thiago Monteiro era o #114 do mundo quando o ranking fechou. Mais 30 pontinhos (contando as desistências) e ele teria entrado. Logo, não acho que vale fazer um grande drama por causa desses 30 pontos. Ou por causa apenas desta sequência que chega ao fim em Roland Garros justamente agora. Thiago Wild estaria tranquilamente entre os 104 primeiros do ranking e teria um lugar nessa chave não fossem elementos que nada têm a ver com o estado do tênis brasileiro. Por isso, repito: não acho justo avaliar este fim de sequência - isoladamente, é bom ressaltar - como uma enorme consequência de um descaso da CBT ou de quem quer que seja com o tênis brasileiro.

Dito isso, é preciso considerar também que nos últimos 49 anos o Brasil também teve tenistas talentosos e com problemas extraquadra. O Brasil também teve tenistas que ficaram fora da chave por muito pouco. O Brasil também teve pelo menos três representantes em um punhado de ocasiões. E se nesses 49 anos sempre houve um brasileiro na chave, também há motivos. Ou seja, é preciso, sim, parar e repensar o tênis masculino brasileiro no nível profissional, as causas (que não são poucas e vão desde ao menor interesse na pela modalidade na infância, passando por um circuito juvenil enfraquecido e as dificuldades constantes na transição) e os culpados diretos e indiretos (que incluem dirigentes, tenistas, famílias de tenistas e até patrocinadores) pelo que acontece e deixa de acontecer por aqui.

O que eu acho que fala - e fala alto - neste momento é o silêncio de personalidades importantes do tênis brasileiro. Como sempre. Onde estão agora as pessoas que fazem malabarismo com estatísticas pra tentar provar que está tudo ótimo? Cadê os X tenistas que somaram milhares de pontos e subiram trocentas mil posições? Por que não se pronunciam agora as pessoas que a cada ano mudam de critério para avaliar (sempre bem) o tênis brasileiro? E os jogadores, não falam por quê? E os ex-jogadores, o que acham? O silêncio e tudo que está implícito nessas ausências de manifestação estão entre os maiores obstáculos do tênis brasileiro atual. E nada indica que isso vai mudar em breve, com ou sem tenistas jogando slams.

Coisa que eu acho que acho:

- Não revelo a identidade da pessoa citada no alto do texto por um simples motivo: ele não é o único que pensa e faz essas coisas. Tampouco é o único responsável por alguma coisa. Mas seria bacana se ele e sua trupe parassem para pensar se realmente é benéfico para o tênis brasileiro sair por aí fazendo malabarismo estatístico e varrendo o pó para baixo do tapete.

- Som de hoje no meu Kuba Disco: King of Fools, dos alemães do Edguy. Porque sim.

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