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OPINIÃO

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Djokovic deu explicações, mas admitiu conduta inaceitável em uma pandemia

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Alexandre Cossenza

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais. Contato: ac@cossenza.org

Colunista do UOL

12/01/2022 02h30

A cada dia, mais dúvidas surgiam (e ainda surgem!) sobre as ações de Novak Djokovic e tudo relacionado à sua entrada em território australiano. Por que o número 1 do mundo participou de um evento com crianças - e sem máscara - um dia depois de testar positivo para covid? Por que deu uma entrevista e participou de uma sessão de fotos dois dias depois do teste? Por que seu formulário de entrada na Austrália diz que Djokovic não viajou nos 14 dias anteriores quando há imagens dele na Sérvia e na Espanha durante o período? Por que o QR code do teste de covid apresentado por Novak às autoridades australianas levou para um resultado de negativo algumas das vezes em que foi escaneado? E por que depois o mesmo QR code voltou a apontar para um resultado de positivo?

Djokovic deu algumas respostas nesta quarta-feira, em um post publicado em sua conta no Instagram. Disse que não sabia do resultado positivo quando participou do evento com crianças no dia 17 de dezembro; admitiu que já sabia do resultado quando deu a entrevista ao L'Équipe e reconheceu seu erro; e culpou seu empresário por preencher equivocadamente o formulário da imigração australiana. O número 1 do mundo, contudo, não falou sobre o QR code que levou Der Spiegel a indagar se o resultado do teste de covid do tenista sérvio foi manipulado. Veja a íntegra no post abaixo:

No texto, embora admita culpa no caso do L'Équipe e o erro de seu empresário no formulário, Djokovic usa a palavra "desinformação que precisa ser corrigida" para falar sobre os temas abordados.

Sobre o evento após testar positivo

"Assisti a um jogo de basquete em Belgrado, no dia 14 de dezembro, após o qual foi relatado que várias pessoas testaram positivo para covid. Apesar de não ter sintomas de covid, fiz um teste rápido de antígeno no dia 16 de dezembro, que deu negativo, e por abundância de cautela, também fiz um teste de PCR oficial e aprovado no mesmo dia. No dia seguinte, participei de um evento de tênis em Belgrado para entregar prêmios a crianças e fiz um teste rápido de antígeno antes do evento, e deu negativo. Eu estava assintomático e me sentia bem e não tinha recebido a notificação de um positivo no teste de PCR até o fim do evento. "

Sobre a entrevista ao L'Équipe

"No dia seguinte, em 18 de dezembro, estava em meu centro de tênis em Belgrado para cumprir um compromisso de longa data de uma entrevista e sessão de fotos para o L'Équipe. Cancelei todos outros eventos, exceto a entrevista do L'Équipe. Senti-me obrigado a ir adiante e conduzir a entrevista porque não queria desapontar o jornalista, mas garanti distanciamento social e usei máscara, exceto quando minhas fotos estavam sendo feitas.

Embora tenha ido para casa após a entrevista para me isolar pelo período necessário, ao refletir, foi um erro de julgamento e aceito que deveria ter remarcado o compromisso."

Sobre o formulário mal preenchido

"A declaração de viagem foi enviada pelo meu time de apoio em meu nome - como disse a oficiais da imigração no meu desembarque - e meu empresário sinceramente pede desculpas pelo erro administrativo ao marcar o quadrado incorreto sobre minhas viagens antes de vir à Austrália. Foi um erro humano e certamente não intencional. Estamos vivendo em tempos desafiadores em uma pandemia global e às vezes esses erros podem acontecer."

Ao dar tais explicações - sem mencionar, lembremos, a estranha questão do QR code - Djokovic provavelmente sabe que o governo australiano estava ciente das inconsistências em suas atitudes antes de ir à Austrália. E isso, apesar da vitória legal de segunda-feira, pode significar que o ministro australiano da Imigração ainda pode deportar o número 1 do mundo.

Djokovic diz que seu time forneceu informações adicionais ao governo para esclarecer a questão do formulário de imigração, mas ao fazer um post público, tenta livrar tanto a sua a barra quanto a das autoridades locais. Afinal, se a opinião pública passar a ver Nole "apenas" como um cidadão bem intencionado e que teve a dignidade de reconhecer um erro, esse olhar benevolente seguramente ajuda as chances de Novak no que diz respeito à boa vontade dos políticos locais sobre sua permanência no país.

Por outro lado, há a admissão inequívoca de uma conduta irresponsável durante uma pandemia - e inaceitável para um homem inteligente e que se diz consciente dos "tempos desafiadores" vividos no planeta.

Dá para aceitar que Djokovic não soubesse do teste positivo durante o evento com crianças? Dá. Até porque ninguém pode provar o contrário (embora o mais sensato teria sido aguardar o resultado do PCR). Dá para aceitar que seu empresário tenha preenchido de forma errada um formulário de viagem? Dá. É outro cenário em que ninguém pode provar má intenção (embora, devido às circunstâncias de exceção dessa viagem à Austrália, o mais recomendado era cautela extrema com todo e qualquer documento).

Mas dar uma entrevista após testar positivo? Sem avisar o jornal? Numa situação em que seria necessário, eventualmente, tirar a máscara? Sabendo da gravidade do vírus e dos milhões de mortos no planeta nos últimos dois anos? Aí, não, Novak. Não dá para aceitar que um homem de seu status, com seu acesso a todo tipo de recurso e informação, porte-se dessa maneira.

Coisas que eu acho que acho:

- Por todos elementos que expus acima, tudo leva a crer que Djokovic e seu time sabem do risco que ainda existe, e o post foi a cartada final. All in. Vejamos como a população e as autoridades australianas reagem.

- A ATP anda quietinha e soltou, alguns dias atrás, um comunicado politicamente correto tentando mostrar-se pró-vacina e pró-Djokovic ao mesmo tempo. Será que agora a entidade vai se manifestar contra o sérvio ao constatar esse tipo de comportamento fora de quadra? Duvido muito.

- E duvido não só pela fraqueza de caráter típica da ATP, mas também porque mirar em Djokovic pareceria um ataque indireto à PTPA, associação de jogadores liderada pelo sérvio para confrontar a ATP em diversos temas. Ao que parece, a ATP segue tentando caminhar sobre ovos em tudo ligado a Novak.

- Som de hoje no meu Kuba Disco: In Your Eyes (The Weeknd). Porque I always look the other way, I'm blind, I'm blind. In Your eyes, you lie, but I don't let it define you.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL