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Abu Dhabi é nova ameaça para levar Copa Davis à irrelevância definitiva

Confronto entre Austrália e Croácia pela Copa Davis 2021 em Turim, na Itália - Reuters
Confronto entre Austrália e Croácia pela Copa Davis 2021 em Turim, na Itália Imagem: Reuters
Alexandre Cossenza

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais. Contato: ac@cossenza.org

Colunista do UOL

26/11/2021 04h00

A fase final da competição que leva o nome comercial de Copa Davis começou nesta quinta-feira, com 18 países brigando pelo título. Em vez de sede única e "neutra", como em 2019, quando estreou o formato de uma suposta Copa do Mundo do tênis, a organização apostou em três sedes desta vez: Madri (Espanha), Innsbruck (Áustria) e Turim (Itália). No entanto, assim como em 2019, a pergunta que se faz nos primeiros dias do evento é "quem se importa?"

Nem vale citar o desperdício que é realizar França x República Tcheca em uma arena na Áustria (para piorar, os números de covid forçaram Innsbruck a sediar jogos em público), mas talvez seja interessante ver o clipe da espetacular passada de Mate Pavic, que termina ao som de meia dúzia de aplausos que, felizmente, soaram até mais interessantes na arena indoor de Turim.

Pelos relatos, o público do novo formato repete o fiasco de 2019, que só não foi pior porque a Espanha, dona da casa na sede "neutra", foi carregada por Rafael Nadal até o título. Este ano, sem Rafa e desfalcada de Carlos Alcaraz, que testou positivo para covid, a dona-da-casa-na-sede-neutra não deve ir tão longe, o que deve preocupar Gerard Piqué e os investidores do grupo Kosmos - aquele que "comprou" a Davis da ITF, fazendo acreditar que o novo formato geraria mais interesse e mais dinheiro para todos os países e jogadores.

Nada está tão ruim que não possa piorar, algum sábio já disse. E como o grupo Kosmos teve prejuízo em 2019 (e não houve Davis em 2020), os investidores foram atrás de uma saída no Mundo Árabe. Primeiro, houve interesse da Arábia Saudita, o que não agradou muito ao mundo do tênis por motivos de, vocês sabem, ditadura, violência, repressão e um par de cositas más que a imprensa ocidental costuma valorizar porque não recebe dinheiro da monarquia (se você não entendeu a ironia, volte duas casas).

Agora a "ameaça" está em Abu Dhabi. Segundo reportagem do jornal britânico The Telegraph, o grupo Kosmos tem quase fechado um acordo de cinco anos com os Emirados Árabes Unidos (EAU) para levar as finais do evento-que-leva-o-nome-de-Copa-Davis para Abu Dhabi, uma cidade cuja única tradição no esporte é injetar milhões de dólares para bancar um evento chamado Mubadala World Tennis Championship, que apesar do nome pomposo nada mais é do que um minitorneio de exibição, realizado na pré-temporada, com meia dúzia de nomes de peso e três dias de duração. É essa cidade que, no fim de novembro, vai lotar arenas e resgatar a emoção da Copa Davis?

Se Piqué e seus parceiros (e isso inclui todos do meio do tênis que votaram a favor de desfigurar, deslocar e dinamitar a competição - e vocês sabem quem são!) levarem o plano adiante, serão duas instituições centenárias que terão o nome do zagueiro espanhol ligado a um declínio histórico.

Coisas que eu acho que acho:

- Quando Piqué e o grupo Kosmos sugeriram a mudança no formato, alegava-se que a Davis não tinha mais a participação dos tenistas top e não gerava interesse mundial (além de dinheiro, claro) como poderia. Quanto ao interesse mundial, vale a pergunta: quantos de vocês, leitores, sabiam que a fase final da Copa Davis começou nesta quinta-feira?

- Sobre a participação da elite, lembremos que seis dos atuais top 10 não disputam a fase final, seja por lesão ou simplesmente por que seus países não estão no evento. Alexander Zverev está em Dubai (que ironia!) fazendo cabo de guerra com leão, entre outras coisas (é sério, veja abaixo); Stefanos Tsitsipas passou esta semana por uma cirurgia no cotovelo (e a Grécia não está sequer na primeira divisão); Rafael Nadal se recupera de lesão; Matteo Berrettini também está lesionado; Casper Ruud está jogando a Davis nesta semana, mas a Noruega está nos playoffs do Grupo Mundial I; e Hubert Hurkacz está ausente (a Polônia não está nas finais).

- Resumindo? A culpa não é exatamente do formato, certo? A Davis antiga tinha obstáculos como calendário e uma elite que envelhecia, já tinha no currículo o título da competição (Federer, Nadal, Wawrinka, Ferrer, Berdych, Del Potro, etc.) e, por isso, priorizava cada vez menos o evento. Será que mudou muito? Com a fase final nesta data, depois de quatro slams e do ATP Finals, a Copa Davis nunca será mais do que já foi. Especialmente em sedes neutras, sem o clima de arquibancadas lotadas e torcendo fervorosamente pelo time da casa.

- A parte insana da coisa é que o argumento que conquistou muita gente no meio do tênis foi o financeiro. Entraria mais dinheiro. Todos ganhariam. E agora o que se comenta é que Abu Dhabi vira "solução" justamente porque os investidores saíram no prejuízo. Mas a culpa é dos "puristas", que queriam só manter-por-manter o formato tradicional de um evento centenário. Sei.

- A ATP Cup de 2020, realizada pouco depois da "nova Davis", foi um sucesso. A de 2021, no meio da pandemia, nem tanto. Aguardemos e prestemos atenção para ver como será em 2022. O evento é bem organizado e continua, sim, como uma ameaça à Davis atual. Agora com Abu Dhabi podendo tornar-se uma espécie paradoxal de aliado.

- Sim, a outra instituição é o Barcelona.

- Som de hoje no meu Kuba Disco: No Bad Days (Bastille).

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL