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REPORTAGEM

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Romboli relata: a viagem sem escalas da quarentena ao maior título da vida

Fernando Romboli e o espanhol David Vega Hernandez (dir.) com o troféu do ATP 250 de Umag em 2021 - Fernando Romboli/Arquivo pessoal
Fernando Romboli e o espanhol David Vega Hernandez (dir.) com o troféu do ATP 250 de Umag em 2021 Imagem: Fernando Romboli/Arquivo pessoal
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Alexandre Cossenza

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais. Contato: ac@cossenza.org

Colunista do UOL

19/11/2021 04h00

Até julho, a temporada 2021 de Fernando Romboli não teve nada de muito extraordinário. O carioca - radicado no Guarujá - de 32 anos havia conquistado um título de Challenger e um par de outros bons resultados, mas nada inesperado para um atleta que já esteve entre os 100 melhores duplistas do mundo e ocupava, no sétimo mês do ano, o 132º posto na lista da ATP.

O segundo semestre, contudo, trouxe os dias mais insanos da carreira de Romboli. Em um período de 15 dias, o brasileiro foi obrigado a um confinamento na Alemanha, dirigiu até a Croácia e conquistou seu primeiro título de ATP na carreira depois de salvar sete match points em duas partidas. E foi essa história, com detalhes curiosos e - agora - divertidos, que ele me contou esta semana, durante o Challenger de Campinas.

No papo, Romboli também falou sobre a dificuldade de subir no ranking com os pontos congelados e o que planeja para o fim de temporada, que, depois de Campinas, inclui Challengers em Brasília, São Paulo, Florianópolis e Rio de Janeiro. Leiam e divirtam-se.

Seu ano passado foi melhor, de forma geral, em termos de resultados, mas você ganhou um ATP este ano. Que balanço você faz desta temporada? Não acabou ainda, claro, mas do que aconteceu até agora...

É o que você falou. Em termos de resultado, com certeza, o ano anterior foi melhor, mas eu me sinto jogando muito melhor este ano. Trabalhei várias coisas no meu jogo, me sinto muito mais adaptado, muito mais enquadrado num padrão de jogo. A dupla é um pouco difícil porque os resultados escapam e vêm muito rápido. Muitas vezes você acaba ganhando um torneio numa semana que você está jogando mal desde o começo, mas acaba fazendo 10/8, 11/9, 7/6 e 7/6 e ganha... E muitas vezes você está ali, jogando bem - que é o que eu sinto, estou jogando bem, confortável na quadra - e não encaixa os resultados. E nos Challengers, querendo ou não, resultado de fato é campeão ou vice. Semi já não conta. Eu diria que 2021 é um ano não tão bom em resultados, apesar de ter ganho meu primeiro ATP - mas que foi essa semana única - mas tive uma evolução técnica bem interessante e que pode ser um trampolim para 2022.

Romboli h1 - Divulgação/João Pires - Divulgação/João Pires
Imagem: Divulgação/João Pires
A gente já conversou sobre isso, né? Pra fazer esse salto dos Challengers para os ATPs, você tem que ganhar uns 10 Challengers, né? Não é simples quanto as pessoas pensam...

Não, não. É o que todo mundo está sofrendo, nas simples também. Esse congelamento [de pontos]... Ninguém sabia como seria a melhor forma de combater isso, e eles [ATP] tentaram, acharam que dessa maneira seria bom, congelando uma parte dos pontos. Depois, no meio do caminho, tiraram metade dos pontos, o que eu acho que foi interessante, mas na real não funcionou. A gente vê exemplos como o [Sebastian] Báez, o [Francisco] Cerúndolo.... Caras que no ranking normal, estariam 60-70 do mundo, mas estão 110. Na dupla, vê o caso do Rafa [Matos]. Ele tem resultados muito expressivos. O Orlando [Luz] mesmo. Se não me engano, tem dez títulos de Challenger no ano em duplas. E não conseguiu subir muito. A situação já era grave antes. Com o congelamento de pontos nestes dois anos, ficou pior ainda. Então eu não tenho pensado muito em ranking porque realmente... não dá pra subir. Essa é a verdade. Quem joga Challenger não tem como subir. O pessoal que está jogando os ATPs ainda tem os pontos "guardados" dos outros anos. Então tem que esperar agosto do ano que vem, que é quando, teoricamente, vai começar a normalizar.

Nota do blog: no ano passado, por causa da pandemia, a ATP determinou que não descontaria pontos dos tenistas. Assim, pontos que seriam somados por até 52 semanas no sistema normal em alguns casos ficarão contando para os tenistas por 104 semanas. Ainda durante a pandemia, a ATP mudou os planos e determinou que, em alguns casos, os pontos passariam a contar pela metade a partir de sua 53ª semana na somatória dos atletas.

Quem ganhou ponto em 2019 e no começo de 2020, se deu muito bem, né? É o caso do Thiago Wild. Ele ficou com os pontos de Guaiaquil congelados por dois anos, tem os pontos de Santiago/2020, que só vão cair em fevereiro do ano que vem... Ele vai ficar dos anos exatos com esses pontos.

Aconteceu um pouco comigo. Nessas, eu tive um favorecimento, eu achei.

Você tem muitos pontos pela metade ainda, né?

Que foram os de 2019! Eu tive seis títulos e foram justamente entre março e agosto, que foi quando congelou, então eles estão durando dois anos. Claro que durante um ano eles eram computados inteiros e agora, neste último ano, é computada a metade, mas mesmo assim é muito difícil alguém que está vindo de baixo subir.

Romboli1 - Divulgação/João Pires - Divulgação/João Pires
Imagem: Divulgação/João Pires
Vamos falar da saga do seu título de ATP? Porque todo mundo sabe que você ganhou, mas ninguém sabe do que aconteceu antes!

É verdade (risos).

Conta o que aconteceu... foi na semana anterior ou duas semanas antes?

Foram 10 dias antes mais ou menos. A gente estava jogando um torneio em Braunschweig, na Alemanha. Eu estava jogando com o David Vega Hernandez, um espanhol, e a gente estava na semi. Foi uma loucura! A namorada dele chegou no torneio nesse dia, só para ver a semi. Ia fazer um bate-e-volta. Ela chegou lá, vacinada e tudo... Ela não precisaria fazer teste de covid, mas acabou fazendo por uma questão burocrática porque o nome dela não estava na lista dos vacinados. E deu positivo! Por causa dela, desse caso, a ATP voltou atrás. Quem era vacinado, não precisava mais testar. E voltou a precisar porque começaram a aparecer casos de pessoas vacinadas dando positivo. E a gente "e agora?" Ficou a critério do governo alemão, que foi lá depois de um dia e deram eu e meu parceiro como contatos próximos. E a gente ainda não era vacinado na época. Falaram "vocês vão ter que ficar de 10 a 14 dias no hotel". A semi ia ser no dia seguinte. Para piorar, na semana seguinte teria o ATP 500 de Hamburgo, e a gente tinha entrado. Ia ser o primeiro ATP 500 nosso também e, por conta desse, fato a gente perdeu esse ATP. E tinha possibilidade de perder [o ATP 250 de] Umag também porque ia dar justo a contagem dos dias de quarentena e tal. Lembro que aquela sexta-feira foi um dos piores dias tenísticos meus.

Onde vocês ficaram esses dias todos?

Ficamos em Braunschweig, dentro do hotel.

A ATP pagou o hotel, pelo menos?

A ATP paga o hotel. É um seguro que eles têm, e a ATP cobre isso aí.

E vocês não tiveram nada depois?

Não, nada. Nada! A gente testou na quarta-feira, um dia antes dela chegar, e o PCR deu negativo. Como o torneio estava aberto ao público, os jogadores que não estavam vacinados tinham que fazer antígeno todos os dias. Então a gente fez segunda, terça, quarta, quinta, sexta... tudo negativo. Sábado? Negativo! Segunda-feira, quando a gente já estava enclausurado, veio alguém do governo alemão fazer um teste. Fizemos o teste e deu negativo. E mesmo assim eles não aliviaram para nós. Não aliviaram. Só deixaram sair mesmo com dez dias.

E esse confinamento foi tipo a quarentena do Australian Open? Só serviço de quarto?

Exato. Eu não saí do quarto! Eu fiquei os dez dias no quarto. Não podia sair do quarto. Comia no quarto, fazia exercício no quarto, quebrava o quarto... (risos)

Tinha janela, pelo menos?

Tinha uma janela grande até. E eu e ele [Vega Hernandez, o parceiro] estávamos em quartos um do lado do outro, então a gente até conseguia conversar com a janela aberta (risos). Mas foi muito engraçado. Eu lembro até hoje. Eu não sabia se ia ser considerado contato próximo ou não. Eu estava no quarto porque preventivamente mandaram a gente para o quarto. Quando a mulher do governo falou "você foi enquadrado, você realmente não vai poder sair do quarto", etc., ele estava do quarto do lado. Eu tive uma crise de estresse. Taquei raqueteira para um lado, gritava (risos)... E ele, como estava no quarto do lado, só falava assim "Fer, está tudo bem?" E eu "tá, tá tudo bem sim! Tá ótimo!" (imitando os gritos irônicos da época e rindo) Porque assim... Eu juro pra você que o que mais estava me doendo... Okay, a gente perdeu a chance de jogar a semi, mas era a semi de um Challenger, tudo bem. Mas cara, a gente tinha entrado no ATP 500 de Hamburgo! Alê, a primeira rodada de um ATP 500 é 4 mil euros! Cara, eu preciso ganhar quatro Challengers para ganhar isso. E meu, era um torneio... A gente estava do lado! Imagina pegar 2h de trem e ir para um ATP 500! Na outra semana, já tinha um ATP 250 que a gente estava dentro... Ou seja, era uma gira muito boa. E a gente já estava encaixado. A gente vinha jogando bem há umas cinco semanas. Foi um balde de água fria que cara... Não é possível. "Por que está acontecendo isso?" Você se questiona!

Romboli h2 - Divulgação/Campinas - Divulgação/Campinas
Imagem: Divulgação/Campinas
E vocês chegaram em Umag que dia?

A gente não sabia quando íamos ser liberados. Se fossem 14 dias, a gente só ia poder sair do hotel na quarta-feira e não dava [tempo de chegar ao torneio croata]. Umag ia ser perdido também. Mas a gente conversou com a ATP, a ATP segurou a gente na chave, e a gente estava vendo dia a dia com o governo alemão. Resumindo, no sábado o governo alemão liberou a gente. Tinha uma locadora de carro na frente do hotel. Fui lá, alugamos um carro, pegamos e fomos dirigindo. Porque eles liberaram, mas "vocês não podem pegar transporte público. Ônibus, avião, nada. Precisa ser um carro." Pegamos e começamos a dirigir. Fomos para Umag: 16 horas.

Vocês fizeram isso direto?

Saímos sábado de noite, fizemos uma pernada de 5-6h, dormimos na Áustria já e, no domingo de manhã, a gente saiu para Umag e chegou lá por volta de umas 16h-17h de domingo. Chegamos e fomos direto para a quadra. Eram 10 dias sem jogar porque a última vez que a gente tinha jogado foi quinta [da semana anterior]. Era o décimo dia sem fazer nenhuma atividade. Então fomos, batemos uma bola de uma hora lá, felizes da vida em Umag e foi isso. A gente pediu para não jogar [no começo da semana], claro, e treinamos segunda e terça, e o torneio começou na quarta.

E como foi o torneio?

Na primeira rodada, ganhamos do Marc López e do [Jaume] Munar. Jogamos bem. Super tie-break. Jogo duro, de tensão, mas jogamos bem. Foi legal. As quartas de final que foram milagre. Quartas e semi foram milagre. Aqueles milagres de match point contra, meu parceiro bater a bola na fita, a bola rolar na rede e cair do lado deles. E no match point a favor nosso, eu tomar uma passada, e a bola bater na fita e cair na minha mão para fechar. Fechei. Ganhamos 16/14 dos wild cards [Admir Kalender e Mili Poljicak], que jogam legal, mas o jogo foi uma loucura. Semi? Um set abaixo e 5/1 para os caras [Radu Albot e Pedro Martínez]! Perdido o jogo. E a gente "não, vamo e vamo e vamo" e continuamos... Salvamos match point e ganhamos: 10/7 [no match tie-break], sei lá como. E a final, cara.., sólida. Contra o Brkic e o Cacic [dupla 14ª colocada no ranking da temporada]. Nosso melhor jogo, super sólidos, super focados. Sentimos a pressão no segundo set em um game, quando estava set e break para nós e a gente viu "nossa, vamos ganhar". Tomamos uma quebra, mas nos recompusemos rápido, quebramos de novo e fechamos o jogo. Muito sólidos. A final foi melhor do que o esperado. Mentalmente, a gente estava bem.

Este fim de temporada tem mais torneios do que o normal na América do Sul e aqui no Brasil também. Você estabeleceu alguma meta do tipo "quero fazer X pontos"? Você já falou que está meio desencanado de subir muito no ranking...

Total, Alê. Porque de novo... Eu vou falar o quê? O meu objetivo vai sempre fazer uma final - pelo menos! Não tem como. Objetivo de ranking está muito difícil. Não dá para subir. Eu ganho um Challenger e subo 3-4 posições. Tudo bem que eu já tinha caído. Eu estava em #125. Eu ganhei um ATP... Pô, são 250 pontos. Cara, eu fui para 110! Quinze posições! Então você fala "por que você vai ficar pensando..." O negócio é que na dupla você ser 110 do mundo ou 80, que nem o Rafa [Matos], não muda nada. Você vai continuar jogando os mesmos torneios. Entendeu? O Rafa, estando 70, ainda sofre para conseguir alguém [como parceiro] e jogar os ATPs 250. Você precisa estar #60 na dupla. Então de novo: eu, em ranking, não penso. O que eu tenho é objetivo no torneio: fazer final ou ganhar. É semana a semana, não tem jeito. O objetivo é ganhar os cinco torneios que faltam.

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