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Djokovic foi a Tóquio atrás de feito histórico e voltou chamuscado

Novak Djokovic na disputa do bronze nos Jogos Olímpicos de Tóquio 2020 - Reuters
Novak Djokovic na disputa do bronze nos Jogos Olímpicos de Tóquio 2020 Imagem: Reuters
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Alexandre Cossenza

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais. Contato: ac@cossenza.org

Colunista do UOL

04/08/2021 12h00

Vamos começar tirando uma pedra do caminho: quando Novak Djokovic afirmou, em Tóquio, que "pressão é privilégio" e que "se você mira estar no topo do esporte, é melhor aprender a lidar com a pressão", ele não estava falando sobre Simone Biles. Percebo que é tentador associar uma coisa à outra, especialmente se você quer fazer um texto lacrador, com meia dúzia de palavras de efeito como se fosse preciso preencher uma cartela de bingo. No entanto, a verdade é que o número 1 do mundo estava falando sobre si mesmo e a busca pelo Golden Slam. A declaração inteira, aliás, inclui uma parte omitida em várias reportagens. Novak diz que é preciso saber lidar com "esses momentos dentro de quadra, mas também fora da quadra e todas as expectativas." Não há referência a aparelhos de ginástica. Não é preciso amar Djokovic para entender o que ele quis dizer. O departamento de checagem da AFP constatou isso (vide tweet abaixo) assim como o Politifact.

Dito isto, a participação de Novak Djokovic nos Jogos Olímpicos de Tóquio não fez lá muito bem à sua imagem e mostra que ele não lidou tão bem assim com a expectativa - ou, pelo menos, com a parte de cumprir o que se esperava dele. Após quatro atuações impecáveis, em que perdeu apenas 17 games em oito sets disputados, o número 1 do mundo fez uma parcial impecável na semifinal, mas acabou levando a virada de um brilhante Alexander Zverev, que fez 1/6, 6/3 e 6/1. E por mais que o alemão, que conquistou o ouro dois dias depois, tenha seus méritos, é preciso apontar que Djokovic jogou seu pior tênis em Tóquio justamente quando foi ameaçado pela primeira vez.

Há uma certa ironia diante da declaração citada no alto do post, mas ninguém - nem ele mesmo - disse que seria fácil. Foi a primeira vez na história do tênis masculino que um homem disputou os Jogos Olímpicos com a chance de completar o Golden Slam (feito em que alguém vence os quatro slams e o ouro olímpico em simples na mesma temporada). A expectativa era alta. A chave não era tão forte. Djokovic era favoritíssimo. A pressão existia, e Nole sucumbiu quando mais precisava de seu melhor tênis.

Até aí, tudo bem. Não há personagens perfeitos na história e talvez fosse demais esperar tanto de alguém que já levava na mente o histórico de derrotas "grandes" em Olimpíadas. Após quatro participações, Nole segue sem uma final no currículo. Jogou simples quatro vezes, duplas três vezes e mistas uma vez. Tem apenas um bronze e segue atrás de Rafael Nadal (um ouro em simples e outro em duplas) e Roger Federer (ouro em duplas e prata em simples) nesse quesito, o que talvez incomode mais do que qualquer coisa ao sérvio e à parte de seus fãs obcecada em vê-lo acima dos rivais em tudo. Repito, porém, para efeito de ênfase, as primeiras palavras deste parágrafo: até aí, tudo bem.

O que aconteceu depois da semifinal é que afeta a imagem de Djokovic e o espírito olímpico. Novak entrou em quadra para a disputa do bronze contra Pablo Carreño Busta e mostrou-se mentalmente inconsistente. Lutou, é verdade, até o terceiro set, mas de forma impaciente e irritadiça, como se não quisesse estar ali. Atirou uma raquete para a arquibancada (vazia!) e destruiu outra no poste da rede. Perdeu aquele jogo e disse estar lesionado como justificativa para não entrar em quadra ao lado da compatriota Nina Stojanovic na disputa pelo bronze nas duplas mistas.

Djokovic disse que desistiu das mistas por causa de lesões, enfatizando que era mais de uma - embora nada de sua atuação contra Carreño Busta sugerisse um problema físico - e disse ainda: "Espero que isso não me impeça de jogar no US Open". Nole afirmou também que se sentia mal por Nina, mas que "meu corpo disse 'basta'. Joguei sob medicação e dor e exaustão anormais. Meu coração está no lugar certo porque sei que dei tudo." São, sim, declarações preocupantes, mas que não convenceram muita gente. E vão soar vazias se ele aparecer voando daqui a dez dias no Masters 1000 de Cincinnati.

O dilema não foi só a desistências nas mistas, onde a exigência física seria menor do que nas simples, onde, repito, Djokovic não deu sinais de problemas físicos. Foi o conjunto da obra, com a impaciência e as raquetes quebradas. Quando o sérvio afirma "peço desculpas por mandar este tipo de mensagem, mas somos todos humanos e às vezes é difícil de controlar", ele tem alguma dose de razão. Só alguma. Novak parece não ter aprendido a lição que toda mãe dá ao filho que aparece em casa com a ideia de imitar amiguinhos inconsequentes: "Você não é todo mundo."

Toda vez que algo assim acontece, somos forçados a lembrar que não é o primeiro episódio do tipo com Nole. Num momento em que o debate sobre quem é o maior da história está mais aquecido do que nunca - os três grandes conquistaram 20 slams cada - fez muito bem o jornalista americano Jon Wertheim (com quem não concordo com tanta frequência assim), da Sports Illustrated, ao escrever que Roger e Rafa "não são desclassificados em slams... e, então, menos de um ano depois, atiram raquetes na arquibancada e destroem raquetes em postes de rede como se não tivessem aprendido nada. Eles não realizam eventos supercontagiosos. Eles não - durante uma pandemia e uma crise de água - falam sobre energia positiva que purifica água ou assumem (o que chamaremos de forma caridosa) uma postura ambígua/ambivalente sobre vacinas."

Djokovic terá, no US Open, a chance de completar o Grand Slam de fato, vencendo seu quarto slam em 2021. Será o favorito e imagino que, em sua cabeça, será o feito que lhe colocará, sem sombra de dúvidas, acima de Rafa e Roger em qualquer discussão. Muitos de seus fãs pensam assim. Mas era possível afirmar o mesmo antes de Tóquio, e as Olimpíadas se mostraram mais um episódio que chamuscou o legado de Novak.

Não é preciso amar Djokovic para considerá-lo um tenista superior a Nadal e Federer. Já escrevi neste espaço e afirmei recentemente no UOL News Esporte que já há argumentos suficientes hoje para considerá-lo o maior homem da história do tênis. É bastante possível, aliás, que a cada slam essa opinião seja menos contestada. E repito: não é preciso amá-lo para fazer essa análise. Só que a cada episódio como o de Tóquio, também fica mais difícil amá-lo.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL