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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Osaka: escolha perfeita para acender a pira dos Jogos Disruptivos de Tóquio

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Imagem: Getty Images
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Alexandre Cossenza

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais. Contato: ac@cossenza.org

Colunista do UOL

23/07/2021 16h24

Não sou grande fã da expressão "disruptivo", muito menos pelo significado do que pelo tom de quem vem a utilizando com frequência. Antes de ir adiante: sim, nós, jornalistas temos preferências por palavras como qualquer pessoa que gosta mais de amarelo do que de azul ou acha que misto quente fica mais gostoso com pão francês no lugar de pão de forma. Subjetividades.

Dito isso, acho que a Talyta Vespa, do UOL, foi brilhante ao escolher a palavra para falar sobre as "Olimpíadas mais disruptivas da história". Porque Tóquio, ainda em seu Dia Zero, o da cerimônia de Abertura, já viu jogadoras ajoelhando-se em protestos antirracistas, acompanhou Marta homenageando a noiva na estreia da Seleção feminina e segue vendo o campeão olímpico Douglas Souza bombando nas redes, levantando a bandeira da igualdade e do respeito.

Nos Jogos de Tóquio, segundo o site Outsports, há mais atletas auto-declarados LGBTQIA+ do que em todos os eventos olímpicos anteriores somados. São os jogos de Quinn, atleta não-binárie do Canadá. São os Jogos em que a TV brasileira teve uma narração com pronomes neutros. São os Jogos de Nike Lorensz, a capitã do time alemão de hóquei que vai usar as cores do arco-íris no uniforme - e com autorização do Comitê Olímpico Internacional.

Com tudo isso em debate, eis que entra Naomi Osaka em cena para acender a pira olímpica. A chama que continuará alimentando os Jogos foi levada por uma jovem que tem um histórico de posicionamentos fortes em questões sociais. Naomi é a campeã do US Open que vestiu máscaras com nomes de sete vítimas de racismo nos EUA. É a ex-número 1 do mundo que disse que não entraria em quadra em Cincinnati para protestar contra a morte de Jacob Blake. É a mulher negra que tem sua identidade questionada no próprio país porque tem pele escura e mora nos Estados Unidos.

Naomi tem sucesso inquestionável no em sua profissão. Já venceu quatro slams e foi número 1 do mundo (é a atual #2). Não por acaso, é a mulher mais bem paga do mundo do esporte. No últimos dias foi capa da Vogue Hong Kong e da Swimsuit Issue da Sports Illustrated, lançou um documentário na Netflix e tem até uma boneca Barbie com seu nome. É, também sem sombra de dúvida, uma das pessoas mais influentes do planeta. E quando o comitê organizador escala alguém assim para ser a pessoa de mais relevância na cerimônia das cerimônias, o recado está dado: em Tóquio-2020, esporte não será só esporte.

É mais do que óbvio que muita gente não vai gostar. Não só por preconceito puro e simples (e pobre!), mas porque ainda há quem acredite que esporte não deve se misturar com política, religião e outros aspectos - com frequência isso também tem origem em tipos variados de preconceito, mas não misturemos todos pacotes de farinha aqui.

Disrupção é rompimento, interrupção, "quebra de um curso normal", segundo os dicionários. É justamente aí que nossa tenista completa esse quebra-cabeças. Osaka é meio e símbolo ao mesmo tempo. E Tóquio vai deixar mais claro do que nunca que esporte não é esporte. Nunca foi. Nunca será.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL