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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Os 20 slams de Djokovic significam mais que os 20 de Federer e Nadal

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Imagem: Getty Images
Alexandre Cossenza

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais. Contato: ac@cossenza.org

Colunista do UOL

12/07/2021 04h00

Se Roger Federer, Rafael Nadal e Novak Djokovic encerrassem suas carreiras hoje, uma segunda-feira como tantas outras, os anais do tênis registrariam para sempre um empate triplo em uma das categorias mais relevantes para qualquer debate sobre quem é ou foi o maior atleta homem da história da modalidade. Hoje, depois da conquista de Djokovic em Wimbledon, os três têm 20 títulos de slam em simples.

Sim, 20 títulos cada. Um empate tão raro quanto glorioso, além de inesperado em um esporte que, menos de 20 anos atrás, via Pete Sampras se aposentar como recordista absoluto, com 14 troféus - marca considerada na época por muitos especialistas como inalcançável, mas que acabou superada com folga não por um nem dois, mas por três gigantes que reescreveram com pinceladas vibrantes a história do tênis.

Um empate triplo, sim, mas apenas na paradoxal frieza de números flamejantes. Números que precisam de contexto, e a história que conta como cada um desses feitos espetaculares foram alcançados mostra que um 20 é bem diferente do outro. E se escrevi em outubro de 2020 que os 20 de Rafa eram mais pesados que os de Roger, preciso relatar agora que os de de Djokovic são ainda maiores que os de seus dois rivais.

O soberano que destronou dois reis

A explicação - admirem a ironia - necessita de números, mas requer revisitar a cronologia da coisa. Federer foi o primeiro a reinar absoluto. Conquistou a maioria de seus slams sem precisar enfrentar Nadal ou Djokovic. Venceu quem precisava vencer e bateu nomes de muito valor no caminho. Que ninguém tire seu mérito por levantar a barra e colocar-se em outro patamar. Contudo, a geração mais forte da história do tênis ainda não estava devidamente formada.

Nadal alcançou seu ápice depois, inclusive derrotando Federer em Roland Garros, em Wimbledon e no Australian Open em uma sequência espetacular que começou em 2008 e terminou em 2009. Rafa também dominou o circuito em 2010, vencendo três slams seguidos e estabelecendo-se como o nome a ser batido. O tênis masculino tinha, então, dois gigantes e uma rivalidade que polarizava fãs ao redor do globo.

Foi aí que entrou em cena o Djokovic dominante. Sim, Nole venceu seu primeiro slam em 2008, mas foi em 2011 que o sérvio passou a brigar em todos os torneios. A década passada foi inteiramente sua. Destronou um Rafa maravilhoso em 2011 e venceu tudo e todos. Bateu Federer em Wimbledon não uma nem duas, mas três vezes. Derrotou Rafa em Roland Garros. Não perdeu para os rivais em sua casa, o Australian Open.

Nível de dificuldade

Se Rafa bateu Roger para chegar aonde chegou, Nole precisou superar os dois em diversos duelos e em suas versões mais poderosas. Fica um pouco mais fácil entender colocando os números - sempre eles! - como ilustração, mas contextualizados:

Federer foi campeão de slam sete vezes depois de passar por Nadal ou Djokovic; Nadal ganhou 14 slams superando Djokovic ou Federer (em três vezes, bateu ambos) no caminho; e Djokovic levantou 14 troféus superando Rafa ou Roger (bateu ambos em apenas uma ocasião).

O que separa - com folga! - espanhol e sérvio aqui é Nadal somar triunfos antes do ápice do rival. Quando passou por Djokovic em Roland Garros em 2006, '07 e '08, Rafa não estava enfrentando nem de longe a melhor versão de Nole. O sérvio, por sua vez, só veio a conquistar um slam derrotando Nadal no caminho em 2011 (Wimbledon), quando Rafa já era o número 1 do mundo. Depois disso, bateu o espanhol no Australian Open em 2012, numa final épica de quase 6h; em uma semifinal espetacular em Wimbledon/2018, na decisão do Australian Open/2019 e na memorável semi deste ano em Roland Garros.

O quarto elemento

A diferença no nível de dificuldade fica ainda mais clara quando levamos em conta o "quarto elemento" do Big Four, Andy Murray. O britânico venceu três slams em simples, foi número 1 do mundo em 2016, conquistou duas medalhas de ouro em simples (Londres 2012 e Rio 2016) e disputou, ao todo, 11 finais de slam. É justo, aliás, afirmar que Andy só não tem meia dúzia de títulos por causa de Djokovic. Foram cinco finais de slam vencidas pelo sérvio em cima do escocês - inclusive duas em 2016, ano em que Murray jogou seu melhor tênis e terminou no topo do ranking mundial.

Ao todo, Djokovic venceu seis slams em que precisou superar o britânico. Nadal triunfou com Murray no caminho quatro vezes. Federer, apenas três.

Finalistas estreantes

Outro número interessante e que vale ser incluído na conversa envolve adversários "estreantes" e inexperientes. Federer, em suas 31 decisões neste nível, encarou seis vezes um adversário que fazia sua primeira final de slam - inclusive Djokovic, que teve sete set points na final do US Open de 2007, mas acabou sofrendo com sua inexperiência e perdendo em sets diretos. No Australian Open de 2008, Nole deu o troco e eliminou o suíço.

Nadal encarou ainda mais "estreantes" do que Federer. Foram sete, e sua única derrota aconteceu em 2014, diante de Wawrinka. Na ocasião, Rafa teve um problema nas costas no dia da final e ofereceu pouca resistência.

Por fim, Djokovic, em suas 30 finais, enfrentou só três "estreantes". Tsonga, no Australian Open de 2008, Tsitsipas, em Roland Garros, no mês passado, e Berrettini, agora, em Wimbledon. Somando esse conjunto estatístico com os duelos citados acima neste texto, fica ainda mais evidente o quanto o atual número 1 do mundo teve de suar mais para chegar ao vigésimo.

O que só Djokovic fez

Outros pontos que podem ser considerados a favor do atual número 1 do mundo nesta conversa (ou não - discordem à vontade) são:

- Apenas Djokovic venceu os quatro slams de forma consecutiva, e isso aconteceu com vitórias sobre Federer em Wimbledon/2015 e no Australian Open do ano seguinte.

- Na Era Aberta (a partir de 1968), Djokovic é o único tenista a conquistar cada slam pelo menos duas vezes.

- Djokovic derrotou Rafael Nadal duas vezes em Roland Garros. A primeira em 2015, quando perdeu a final para Stan Wawrinka, e a segunda este ano. E Rafa, na vida inteira, só perdeu três vezes no saibro de Paris. É o tipo de estatística que deveria vir com estrelinhas douradas de bônus.

- Em 2021, Djokovic venceu os três primeiros slams e se coloca em uma posição excelente para completar o Grand Slam e vencer os quatro torneios na mesma temporada. O último a fechar o Grand Slam de fato foi Rod Laver, em 1969. Nadal e Federer nunca sequer venceram os dois primeiros slams em uma temporada.

- Não são estatísticas específicas em slams, mas têm seu peso: Djokovic lidera os históricos de confrontos diretos contra Federer e Nadal: 27 a 23 contra o suíço e 30 a 28 contra o espanhol. Contando apenas slams, Nole vence Roger por 11 a 6 e perde por 10 a 7 para Rafa, com a importante ressalva de que sete dos dez triunfos de Nadal foram em Paris.

Coisa que eu acho que acho:

- Entre os três, Nadal ainda é quem tem a maior porcentagem de títulos em relação a slams disputados. São 20 slams em 62 torneios, com 32,25% de aproveitamento. O espanhol, que teve muito mais lesões na carreira, fica pouco à frente de Nole (30,76%) e com boa folga para Federer (24,69%). É, certamente um número impressionante de Rafa, mas que não me faz ver seus 20 como mais significantes do que os de Nole. O nível de dificuldade encontrado por Djokovic, de forma geral, foi bem mais alto.

- O quanto este recorde de títulos deve ser levado em conta na eterna discussão sobre quem é o maior tenista masculino da história? Vale um bom debate numa mesa de bar. Como já escrevi antes, é possível argumentar a favor dos três, assim como a favor de Rod Laver, que, lembremos, fechou dois Grand Slams (1962 e 1969).

- Djokovic seria o tenista magnífico de hoje se não tivesse encontrado Rafa e Roger pelo caminho? Provavelmente, não. Foi isso que ele disse neste domingo, com o troféu nas mãos: "Eles são o motivo pelo qual estou onde estou hoje. Eles me ajudaram a perceber o que eu precisava fazer para me tornar mais forte mentalmente, fisicamente, taticamente... Quando eu entrei no top 10 pela primeira vez, perdi por 3-4 anos a maioria dos jogos grandes que fiz contra esses dois caras, e algo mudou no fim de 2010, no começo de 2011, e os últimos dez anos foram uma incrível jornada que não vai parar aqui."

- Quanto tempo este empate vai durar? Difícil dizer porque a toda hora somos surpreendidos com notícias de lesões e outros elementos que desequilibram o que às vezes parece ser uma equação perfeita (vide a bolada na juíza de linha no US Open do ano passado). A julgar pelo momento, tudo leva a crer que Djokovic deixará os dois para trás cedo ou tarde. O sérvio está em grande forma física, mental e tática. Nadal, um ano mais velho e dono de um histórico médico mais longo, já dá sinais de queda. Federer, à beira dos 40, está seguramente na reta final da carreira. Além disso, se o homem falou (vide vídeo acima) que não vai parar aqui, é bom não duvidar...

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL