PUBLICIDADE
Topo

Saque e Voleio

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

O que Novak Djokovic fez à perfeição para bater Rafa Nadal em Roland Garros

Getty Images
Imagem: Getty Images
Alexandre Cossenza

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais. Contato: ac@cossenza.org

Colunista do UOL

12/06/2021 04h00

'O maior desafio da terra". Derrotar Rafael Nadal em Roland Garros. Um cidadão que, até esta sexta-feira, havia disputado o torneio 16 vezes e vencido 13. Somava 105 vitórias e duas derrotas no saibro de Paris. E continua sendo o único tenista a ter 100 triunfos a mais do que derrotas no mesmo evento. Foi esse Rafael Nadal, campeão de 20 slams em simples, que Novak Djokovic derrubou nesta sexta-feira, nas semifinais de Roland Garros 2021.

Uma partida memorável, com ralis espetaculares, com um incrível duelo tático e que, até o fim do terceiro set, era vencida pelo sérvio por um par de pontos importantes. Mas como foi que o número 1 do mundo, que até então tinha uma vitória e sete derrotas diante de Rafa em Roland Garros, conseguiu uma vitória de virada em cima de um tenista que nunca havia levado uma virada no torneio? O que Djokovic fez de diferente desta vez? A resposta passa obrigatoriamente pela execução impecável de um plano de jogo, o que é mais simples de escrever num blog cinco horas após o match point do que, de fato, colocar na prática. Vejamos os elementos mais importantes:

1. Pontos curtos + 2. Devoluções

Um dos grandes diferenciais da final do Masters 1000 de Roma deste ano, onde Rafa bateu Nole na final, foi o nível de sucesso do espanhol em pontos curtos - aqueles disputados com até quatro golpes na bola. Como escrevi no post de ontem, Rafa venceu 50 dos 86 pontos curtos naquele jogo e, de modo geral, pontos curtos são maioria em uma partida de tênis.

Djokovic tinha alguns caminhos para evitar isso, e nenhum deles era exatamente simples. Um seria agredir mais rápido, o que exigiria correr muito risco. Outra opção, na qual ele teve muito sucesso nesta sexta, era encaixar devoluções fundas e no backhand de Rafa. Como o espanhol é um mestre em matar pontos no chamado saque+1 (combinação de saque e terceiro golpe do ponto) quando usa o forehand, era essencial que Djokovic encontrasse o backhand do espanhol cedo nos pontos, e o sérvio fez isso magistralmente a partir do segundo set.

Os números do jogo deixam isso claro: na primeira parcial, Nadal venceu 20 dos 32 pontos curtos. Dali até o fim do jogo, Djokovic não só equilibrou essa disputa como terminou à frente: 60 a 57.

3. Forehands angulados

Os números finais do jogo mostram 55 erros não forçados para Rafael Nadal. Número alto para os padrões do espanhol, principalmente em um duelo assim. Escondidos nas estatísticas estão os porquês disso. Obviamente, o Rei do Saibro não estava no seu melhor dia, mas o plano tático de Djokovic tem bastante a ver com isso. A partir do segundo set, Nole conseguiu manter boa parte dos ralis no backhand do espanhol. Nadal precisaria ou estar com o golpe especialmente afiado para sair da defesa para o ataque ou encontrar uma maneira de usar mais o forehand. Não conseguiu nem um nem outro. E muitos dos erros computados como não forçados foram backhands de baixa porcentagem que Rafa se via obrigado a arriscar para mudar a dinâmica do jogo a partir do segundo set.

Como Djokovic conseguiu isso? Primeiro, com excelentes devoluções de saque, como tratei no item anterior. Além disso, seus forehands angulados (outro gole citado no post de ontem) sempre jogavam Nadal para a linha de duplas, de onde ele não conseguia ser agressivo. Como Rafa bem disse na coletiva, hoje ele não teve sucesso na missão de fazer Djokovic rebater de posições em que ele não se sente tão confortável. Foi Nole quem conseguiu fazer isso com Nadal nesta sexta-feira.

4. Pontos grandes

Mesmo fazendo tudo isso com muita competência, Djokovic não teve vida fácil, e muito da sua vitória nesta semifinal se deve à quantidade de pontos grandes que ele venceu. No segundo set, fechado com apenas uma quebra de vantagem, o número 1 do mundo salvou três break points no sétimo game e mais dois no nono, quando sacou para o set. Fizeram toda diferença do mundo, assim como fez a curtinha que salvou set point no terceiro set, antes do tie-break. "Mas se Djokovic fez tantas coisas bem, o jogo não deveria ter sido tão apertado assim", pode argumentar o leitor. Bem... ninguém chama a tarefa de "maior desafio da terra" por acaso. Bater Nadal no saibro significa que muitas coisas precisam dar certo ao mesmo tempo. E isso incluiu também as oito duplas faltas de Nadal, inclusive uma no tie-break do terceiro set, quando Rafa também errou um voleio fácil.

5. Físico

Segurar Nadal no backhand significava que Rafa precisava fazer um esforço extra para buscar seu forehand e correr um pouco mais do que ele desejava. Em posições desconfortáveis com frequência, o espanhol já parecia um pouco mais apressado do que de costume quando o terceiro set começou. Foi aí que os erros não forçados começaram a empilhar.

Com o andar da partida, ficou nítido que Djokovic estava mais inteiro fisicamente do que Rafa, que chegou a receber atendimento médico em um momento (não ficou claro o motivo e ele não falou sobre isso na coletiva). Nadal ainda abriu o quarto set na frente, mas o que restava de combustível no tanque evaporou junto com sua vantagem. Nole, então atropelou, devolvendo os 6/0 do primeiro set da final do ano passado e vencendo os últimos seis games da semifinal de 2021. Uma reta final soberba, à altura do resto de sua atuação.

Coisas que eu acho que acho:

- Também ajudou Djokovic o fato de o jogo ter começado um pouco mais tarde do que Nadal gostaria (Zverev e Tsitsipas jogaram cinco sets na primeira semifinal). À medida em que o duelo entrou pela noite, as condições de jogo ficaram mais lentas, e a bola passou a quicar menos, o que não é bom para Rafa. O espanhol gostaria de ter feito Djokovic bater bolas mais altas. "Em alguns momentos, minha bola não fazia o dano que precisava", admitiu Nadal, antes de completar: "Não é desculpa. Estamos em um esporte em que aquele que se adapta melhor merece ganhar. Nesse sentido, ele foi melhor que eu."

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL