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ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Medvedev toma #2, mas marca de 15 anos só caiu após circunstâncias bizarras

Getty Images
Imagem: Getty Images
Alexandre Cossenza

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais. Contato: ac@cossenza.org

Colunista do UOL

16/03/2021 04h00

Quando o ranking da ATP foi atualizado com a data deste segunda-feira, 15 de março de 2021, uma marca de 15 anos caiu. Desde 25 de julho de 2005, nenhum tenista fora o chamado Big Four ocupava uma das duas primeiras posições do ranking. Apenas Roger Federer, Rafael Nadal, Novak Djokovic e Andy Murray se alternaram nessas posições desde que, em 2005, Nadal ultrapassou Lleyton Hewitt, que foi o #2 do planeta até o dia 18 de julho.

A chegada de Medvedev ao segundo posto seria o começo do fim de uma Era? De jeito nenhum. Se o período de domínio do antigo Big Four está ameaçado, essa queda começou há algum tempo, com uma sequência bizarra de eventos improváveis que, sim, culminaram com o russo ultrapassando Nadal e assumindo o segundo posto do ranking. Medvedev, aliás, ainda está um tanto longe do #1, Djokovic, que tem 2.068 pontos de frente, mas a proposta deste texto é apenas lembrar o que foi preciso acontecer para que o russo de 25 anos superasse a barreira que permaneceu de pé por 15 anos.

1. Pandemia

Uma pandemia que provocou mais de 2,5 milhões de mortes e já dura mais de um ano. Qual a chance de algo assim acontecer? O último incidente de saúde comparável em número de mortes foi a gripe de Hong Kong, de 1968, que durou até 1969 e matou entre 1 e 4 milhões de pessoas no planeta. Estamos falando de algo que aconteceu 50 (!!!) anos atrás.

2. Roger Federer lesionado

Todo mundo sabe, mas não custa lembrar: Roger Federer ficou afastado do circuito mundial durante 405 dias. No período, passou por duas cirurgias no joelho direito. O suíço era o número 3 do mundo (atrás de Nadal e Djokovic) no seu último torneio, o Australian Open de 2020, e aparece hoje como número 6 do mundo. Roger só não saiu totalmente do ranking por causa do item 1 desta lista - a pandemia, que forçou o item seguinte.

3. Congelamento do ranking

Como o circuito ficou totalmente paralisado por cinco meses, alguns torneios não foram disputados em 2020 e nem todos tenistas puderam viajar e competir em igualdade de condições, a ATP congelou pontos de seu ranking, permitindo que tenistas mantivessem resultados conquistados em 2019 caso não jogassem os mesmos torneios em 2020 ou até mesmo no caso de não conseguirem repetir o desempenho.

No caso de Medvedev, a medida foi excepcionalmente benéfica porque o russo fez uma sequência espetacular no segundo semestre de 2019, quando foi vice no ATP 500 de Washington, vice no Masters do Canadá, campeão do Masters de Cincinatti, vice do US Open, campeão do ATP 250 de São Petersburgo e campeão do Masters 1000 de Xangai. Todos estes 4.350 pontos (pouco menos da metade de seus 9.940 atuais) seguem na somatória de pontos de Medvedev até hoje, muito mais de 12 meses depois.

4. Andy Murray e o quadril de metal

De novo, não custa lembrar: Andy Murray, o patinho feio do Big Four - mas que passou mais tempo como número 1 do que Roger Federer nos últimos 10 anos - também sofreu gravemente com problemas físicos. Ele se afastou do circuito em julho de 2017, quando ainda liderava o ranking e só voltou em junho de 2018, mas sem solucionar o problema no quadril. No começo de 2019, passou por mais uma cirurgia, dessa vez para substituir o quadril direito por uma prótese. Hoje, o britânico desafia as probabilidades, competindo no circuito de simples com um quadril de metal e, obviamente, sem conseguir repetir os resultados de cinco anos atrás.

5. Menos saibro em 2020, Nadal atípico em 2019

A temporada de Rafael Nadal na terra batida em 2019 foi uma das piores de sua carreira. Sim, o Rei do Saibro foi campeão de Roland Garros e do Masters de Roma, mas perdeu nas semifinais em Monte Carlo, Barcelona e Madri. Resultados abaixo da expectativa justamente na época do ano em que ele costuma somar mais pontos.

Para piorar, em 2020, a temporada de saibro foi a mais afetada pela pandemia. Os torneios de Monte Carlo, Barcelona e Madri não foram disputados (Roma e Roland Garros aconteceram em uma data posterior). Logo, Nadal não teve a chance de melhorar sua pontuação no saibro. Por causa dos itens 1 e 3 desta lista, Rafa segue com apenas 900 somados em um trio de eventos nos quais ele já levantou 26 troféus (4 no saibro de Madri e 11 cada nos outros dois).

E não custa lembrar: desde o começo de 2020, Rafael Nadal disputou apenas oito torneios, o que mostra que ele não andou excessivamente preocupado com sua posição no ranking. Medvedev participou de 16 eventos no mesmo período e tem só 270 pontos a mais do que Nadal (que acaba de perder 180 porque Indian Wells não foi disputado nem em 2020 nem em 2021).

6. Grandes resultados de Medvedev

Mesmo levando em consideração os cinco itens acima, Medvedev só assumiu a vice-liderança do ranking porque conseguiu um acúmulo obsceno de belos resultados desde o segundo semestre de 2019. Sua somatória desta semana inclui duas finais de slam (US Open de 2019 e Australian Open de 2021), o título do ATP Finals de 2020, três títulos de Masters 1000, dois vices em ATPs 500, dois títulos de ATPs 250 e o título da ATP Cup. Ufa!

Coisa que eu acho que acho:

Sim, o que Medvedev fez foi enorme e merece ser ressaltado, mas para chegar a número 2 ele precisou contar com metade do Big Four lesionado e uma sequência de circunstâncias provocadas por uma pandemia (!!!). Nada, mas nada mesmo, deixa mais transparente o tamanho do domínio do Big Four ao longo dos últimos 15 anos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL