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ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Três coisas que Medvedev precisa fazer para bater Djokovic na Austrália

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Imagem: Getty Images
Alexandre Cossenza

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais. Contato: ac@cossenza.org

Colunista do UOL

20/02/2021 10h17

Daniil Medvedev chega à final do Australian Open no embalo de 20 vitórias consecutivas, o que não é pouco. O russo de 25 anos, atual número 4 do mundo, foi campeão do Masters 1000 de Paris, do ATP Finals, da ATP Cup e não sabe o que é sair de quadra derrotado desde o ATP de Viena, disputado no fim de outubro do ano passado.

Dos 20 triunfos, 12 foram contra rivais do top 10: Stefanos Tsitsipas, Matteo Berrettini, Diego Schwartzman (3x), Alexander Zverev (3x), Andrey Rublev, Dominic Thiem, Rafael Nadal e o próprio Novak Djokovic. Porém, derrubar o número 1 do mundo numa final de slam, em melhor de cinco sets, numa quadra em que Nole nunca foi superado numa decisão, é outro nível de desafio. Não por acaso, Medvedev é considerado o azarão pelas casas de apostas.

O retrospecto mostra equilíbrio: são quatro triunfos de Djokovic nos sete duelos com Medvedev. Faz sentido. Ambos têm estilo de jogo razoavelmente parecidos, baseados em consistência, muitas bolas profundas e uma capacidade defensiva acima da média.

O número 1 do mundo vem fazendo um belo torneio apesar de lidar com uma lesão no abdômen. Nas seis partidas que fez até agora, disparou 100 aces, mantendo o aproveitamento de primeiro saque acima dos 62% (e acima de 70% em dois jogos). Além disso, Djokovic ganhou mais de 30% dos pontos de devolução em todos seus confrontos até agora, colocando enorme pressão no saque dos oponentes.

Onde, então, o russo pode fazer a diferença e levar a vantagem na final do Australian Open? Que aspectos de seu jogo precisam estar afiados na tarde de domingo (5h30min de domingo no Brasil), na Rod Laver Arena? Três pontos básicos - porém de difícil execução - serão fundamentais:

1. Saque

Novak Djokovic tem a fama de ser o melhor devolvedor do circuito mundial e um dos maiores da história. Enfrentá-lo costuma significar sacar mais vezes e ver mais bolas voltarem após o serviço. Seus rivais estão sob pressão constante. Logo, será crucial para Medvedev estar com o saque em dia. Quanto mais pontos "grátis" conquistar com o serviço, mais liberdade terá para buscar chances com a devolução.

Ainda que o princípio do "sacar bem" seja básico e aplicável a qualquer partida, aqui ele ganha importância especial justamente pelas devoluções do sérvio. E "sacar bem" é muito diferente de "sacar bem contra Djokovic".

Por que é possível: Medvedev tem um serviço bom o bastante para alcançar esse objetivo. Tanto em termos de velocidade quanto em consistência. Os números do Australian Open mostram isso. O russo teve médias (médias!) de pelo menos 195 km/h com o primeiro serviço em todas as partidas e esteve acima de 60% de aproveitamento de primeiro saque em cinco dos seis jogos que fez. Apenas contra Krajinovic registrou menos: 54%.

"Mesmo se você conseguir devolver o saque dele, não há garantia nenhuma de ganhar o ponto. Exige muito esforço. Ele torna o jogo difícil para você. Ele te confunde. Ele joga com muita inteligência", disse Tsitsipas após a derrota na semifinal em Melbourne (vide tweet acima).

2. Devolução

Se o duelo saque-de-Medvedev-contra-a-devolução-de-Djokovic é importante, o contrário é igualmente crucial para o sucesso do russo na final. Tudo, afinal, faz parte de uma equação com pequenos elementos que fazem a "balança" do duelo pender para um lado ou para o outro. Logo, se uma das chaves do sucesso de Djokovic neste Australian Open foi o saque, Medvedev precisa equilibrar também essa batalha.

Ganhar pontos consistentemente no serviço de Nole significa deixar o número 1 menos à vontade para arriscar e pressionar nos games de devolução. Quem tem problemas para confirmar o saque não pode se dar o luxo de forçar o tempo inteiro e correr o risco de mandar devoluções seguidas para fora, vendo o rival confirmar sem problemas. Um lado afeta o outro, sobretudo mentalmente. É a tal "balança".

Por que é possível: a porcentagem de Medvedev em pontos vencidos com a devolução é altíssima e ficou acima de 40% em quatro de suas seis apresentações, alcançando até 51% contra Roberto Carballés Baena. Vale destacar que contra ótimos sacadores como Pospisil, Rublev e Tsitsipas, Daniil registrou 40%, 30% e 42%, respectivamente. São números impressionantes.

Vale notar que Medvedev não é aquele devolvedor agressivo, que busca winners com frequência. Como sabe que é capaz de ganhar a maioria dos ralis, opta frequentemente por devolver lá do fundão, reduzindo o número de aces do oponente e buscando retornos profundos o bastante. Assim, minimiza a vantagem do sacador e entra nos ralis em igualdade de condições - ou quase isso. Os números não negam: o plano tem funcionado.

3. Ralis longos

As estatísticas mostram que a maioria dos pontos é decidida com até quatro golpes na bola. No duelo entre Djokovic e Zverev, por exemplo, houve 175 pontos decididos em até quatro golpes, enquanto os ralis longos, com nove ou mais golpes, foram apenas 54. É uma diferença relevante. O chamado saque+um (quando o sacador ataca e busca decidir o ponto já no primeiro golpe após o serviço) nunca foi tão importante na modalidade.

No caso de Medvedev contra Djokovic, contudo, os ralis longos têm um peso considerável e que vai além dos números. Quando todo o resto se complica para Djokovic, é nos ralis que ele derruba mental e fisicamente os adversários. É nas trocas de bola longas, apostando em sua consistência, que ele, aos poucos, causa estrago. Quando um tenista perde um par de trocas assim - sobretudo nos pontos "grandes" - ele se vê pressionado a definir os pontos mais rapidamente, e isso, invariavelmente, provoca mais erros. Logo, vencer esses ralis físicos é essencial para facilitar a vida de Medvedev nos itens acima - tanto o saque quanto a devolução.

Por que é possível: nos duelos mais trabalhosos, Medvedev "quebrou" os rivais nesse aspecto. Diante de Rublev, venceu 25 e perdeu 15 ralis com pelo menos nove golpes. Dez pontos com um peso gigante, até porque Rublev conseguiu equilibrar os ralis curtos (55 a 49 para Daniil) e médios (17 a 14 para Daniil). Diante de Tsitsipas, na semi, Medvedev foi novamente implacável: 19 a 7 nos ralis longos. Portanto, não convém duvidar que a irritante (para os rivais!) consistência do russo vá causar problemas também para o número 1 do mundo.

Além de tudo isso, vale notar: Djokovic levou a pior nos ralis longos contra Zverev (29 a 25 para o alemão) e bateu Karatsev por pouco (12 a 11). Nessas duas partidas, porém, foi bastante superior nos pontos curtos: 95 a 80 e 54 a 34, respectivamente. Mas será que contra os games de devolução de Medvedev o sérvio terá o mesmo sucesso? Será?

O jogão está marcado para começar às 5h30min (de Brasília), e a ESPN mostra ao vivo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL