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Covid, protestos locais e rato no quarto: começa a quarentena em Melbourne

Reuters
Imagem: Reuters
Alexandre Cossenza

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais. Contato: ac@cossenza.org

Colunista do UOL

16/01/2021 11h52

Ninguém falou que seria simples realizar um slam em um país com regras rígidas e pouquíssimos casos de covid registrados. Para lidar com as autoridades locais e realizar o Australian Open de 2021, a Tennis Australia elaborou um plano ousado: a própria federação se encarregou de levar 1.270 pessoas (entre tenistas e suas equipes) em 18 voos fretados que decolaram de sete cidades diferentes em um espaço de 48 horas. Em uma negociação que foi tão política quanto esportiva, a entidade também conseguiu convencer os jogadores que a única maneira de levar o plano adiante seria se eles topassem fazer quarentena de 14 dias em solo australiano, saindo do quarto por apenas cinco horas por dias. Houve acordo, e o processo começou nos últimos dias.

Assim que os tenistas começaram a desembarcar em Melbourne, problemas adicionais começaram a pipocar. Primeiro, vieram à tona três casos de covid constatados em dois dos voos fretados. Um saiu de Abu Dhabi. O outro, de Los Angeles. E, por causa desses três positivos (um tripulante e dois passageiros que não foram identificados, mas não eram tenistas) o Australian Open decidiu que 47 tenistas (23 em um voo, 24 no outro) não terão mais direito a sair de seus quartos pelos próximos 14 dias. Sim, eles perderam as cinco horinhas diárias de treino. Serão liberados a pouco mais de uma semana do início do Australian Open, depois de 14 dias sem um bate-bola sequer.

A Tennis Australia não divulgou os nomes dos 47 tenistas, mas vários deles já se manifestaram em redes sociais, como Santiago González, Pablo Cuevas, Barbora Krejcikova, Yulia Putintseva, Paula Badosa, Sorana Cirstea, Heather Watson e Angelique Kerber. Os posts desses tenistas permitiram identificar outros que estavam nesses aviões. A lista inclui campeãs de slam como Victoria Azarenka, Bianca Andreescu, Sloane Stephens e Svetlana Kuznetsova, além de Belinda Bencic, Maria Sakkari, Dayana Yastremska, Jennifer Brady, Marta Kostyuk, Elena Rybakina, Juan Ignacio Londero, Kei Nishikori, Tennys Sandgren e Artem Sitak. Quem também estava a bordo era o argentino Guido Pella, que também foi obrigado a fazer quarentena antes do US Open.

A entrada de mais de mil pessoas no país também é um problema político para o governo do estado de Victoria, onde Melbourne está situada. Para parte da população e, certamente, para os políticos de oposição, os governantes adotaram uma postura diferente da que usam diante dos cidadãos australianos. Como o país adota restrições até para viagens interestaduais, muitos moradores de Victoria seguem longe de suas casas, "presos" em cidades como Sydney e Brisbane. Até o executivo-chefe da Qantas, principal companhia aérea do país, vem atacando o governo e afirmando que os tenistas foram colocados como prioridade acima dos cidadãos australianos.

Enquanto isso, dentro dos quartos de hotel, tenistas também tinham do que reclamar. A comida foi tema recorrente nos posts dos atletas em redes sociais - a exceção foi o francês Benoit Paire, que preferiu não comer a refeição padrão oferecido pelo hotel e pediu delivery do McDonald's.

Entre os que foram prejudicados pelos casos de covid nos voos fretados, houve atletas que se manifestaram publicamente. A romena Sorana Cirstea, por exemplo, resgatou um trecho de uma entrevista antiga do diretor do Australian Open, Craig Tiley. Nela, o executivo falava que "se um jogador tiver que fazer quarentena e ficar preso no quarto duas semanas antes de sua temporada, isso não vai acontecer. Não se pode pedir aos jogadores que façam quarentena por duas semanas e então saiam e estejam prontos para jogar um grand slam."

A espanhola Paula Badosa, por sua vez, disse que a quarentena forçada para todos no avião foi uma mudança de regra. "Essa regra mudou hoje porque haviam dito que seria por seções (um caso positivo de covid afetaria apenas os passageiros da mesma seção do avião), e agora nos dizem que é o voo inteiro, todos os passageiros. E não posso sair do quarto. O quarto não tem janelas, não posso abrir a porta do quarto. Só posso abri-la quando tocam para servir comida. Isso está me causando ansiedade e não sei como vou passar 14 dias aqui. Não tenho espaço, não tenho bicicleta nem nada para fazer exercício. Vai ser complicado. Espero que me deem pelo menos uma bicicleta ou algo para que eu possa me movimentar. Mentalmente, parece que estou em um filme."

E se a situação de Badosa não é das melhores, a de Putintseva é dramática. A cazaque, que também alegou não saber que haveria uma quarentena total em caso de covid no voo fretado, postou um vídeo de um rato em seu quarto de hotel. Ela também está proibida de abrir a porta do quarto e, em sua conta no Twitter, escreveu que estava há duas horas e meia esperando ajuda, mas que ninguém apareceu.

Coisas que eu acho que acho:

- Além de tudo isso - que não é pouco - o jornalista italiano Luca Fiorino relatou que há queixas de vários tenistas sobre as condições de quarentena diferentes em Adelaide, onde estão Novak Djokovic, Rafael Nadal, Dominic Thiem, Naomi Osaka, Simona Halep e Serena Williams (falarei sobre isso em outro post porque há vários elementos a considerar). Fiorino também publicou que houve tenistas tentando sair de seus quartos. Eles foram informados que, na próxima tentativa, serão expulsos da Austrália.

- Repito aqui o que já escrevi no Twitter: um jogador toma todos cuidados, se isola, etc... E agora vai ficar 14 dias sem sair do hotel, sem poder bater bola porque uma pessoa da tripulação de um voo fretado que testou positivo. Deve ser difícil de aceitar.

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