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Fusão? Tênis anda na contramão, e isso vem sendo muito ruim para a WTA

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Imagem: Getty Images
Alexandre Cossenza

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais. Contato: ac@cossenza.org

Colunista do UOL

09/01/2021 10h13

Ano passado, durante os primeiros meses da paralisação do circuito, veio fortemente à tona a possibilidade de uma fusão entre ATP e WTA, algo que ajudaria o tênis em muitos aspectos, mas que só pode acontecer depois de muitos obstáculos serem superados. E, na verdade, em muitos sentidos, o tênis tem andado na contramão dessa união entre os circuitos masculino e feminino. Nos anos recentes, os exemplos são vários, e todos os casos foram bem ruins para a WTA. Vejamos alguns.

Livescore

O caso mais recente é a oferta de placares de jogos em tempo real. Desde 2010, ATP e WTA tinham um aplicativo conjunto, que reunia partidas de ATPs, WTAs e Challengers, além de chaves de torneios, estatísticas, histórico de confrontos e mais informações interessantes. Este ano, o aplicativo deixou de funcionar. A ATP criou seu próprio app, enquanto a WTA inicia 2021 sem nada decente para oferecer aos fãs do tênis feminino. A entidade nem produziu um aplicativo nem uma ferramenta decente. Hoje, quem quer ver os placares do ATP 500 de Dubai precisa visitar o site da WTA e buscar uma página de resultados. Ainda assim, as falhas têm sido frequentes.

Na partida entre Aryna Sabalenka e Alja Tomljanovic, o site mostrava um placar totalmente diferente do que acontecia em quadra (veja acima). Não foi o único caso. Na estreia de Luisa Stefani no torneio, o site da WTA mostrava o placar final como 6/4 e 5/2 (a partida teve parciais de 6/3 e 6/3). Após as críticas, que não foram poucas, a WTA soltou um comunicado informando que pretende lançar um aplicativo de resultados até o fim de março. Março!

Livestream

Em janeiro de 2009, o lançamento da TennisTV foi um gigante passo à frente para o tênis mundial. A plataforma paga prometia - e cumpriu - transmitir mais de 40 torneios de ATP e WTA, com a possibilidade de ver algumas partidas em quadras secundárias e acessar estatísticas na tela durante os jogos. O TennisTV também oferece até hoje um aplicativo próprio, integração com Chromecast e a possibilidade de ver as partidas em consoles das famílias PlayStation e Xbox. É fácil de acessar em smartphones e tablets, as transmissões são boas, e a oferta de jogos é excelente. Até hoje, é uma opção excelente para os fãs de tênis.

Em 2016, contudo, a WTA disse que não faria mais parte da TennisTV a partir de 2017. Prometeu uma plataforma própria com uma série de recursos interessantes. Pois a temporada de 2017 começou, e a WTA não entregou a plataforma a tempo. A WTA TV só foi ao ar no dia 31 de julho, deixando os fãs às escuras por sete meses. E o problema não foi só esse. Mais de três anos depois, a plataforma ainda não tem um app próprio (apesar da promessa feita em 2017), não é compatível com Chromecast e nem sequer informa os nomes das jogadoras que estão em quadra no momento. Para escolher o que ver, o usuário tem acesso a apenas um menu com os nomes das quadras que têm jogos em andamento.

Os usuários também sofreram no bolso. Além dos R$ 389,90 anuais cobrados pela Tennis TV (sim, a cobrança é em reais), agora também é necessário desembolsar US$ 74,99 (cerca de R$ 405) pelo serviço da WTA. Resumindo? Nenhum fã de tênis ganhou com isso.

Site

ATP e WTA nunca tiveram um site único, mas até alguns anos atrás tinham páginas bem parecidas, o que facilitava a vida do fã de tênis. Encontrar informações é muito mais fácil quando se sabe o caminho até elas. Aos poucos, porém, a WTA foi se distanciando do site da ATP até que uma grande mudança, promovida em 2017, foi um desastre total.

Muitas informações desapareceram, ficou impossível descobrir que torneios contam para o ranking de uma tenista e a navegação, de modo geral, ficou mais complicada, exigindo boa vontade e paciência dos usuários. A ATP também fez suas mudanças, mas as informações continuam lá e, de modo geral, o circuito masculino continua oferecendo conteúdo de forma mais direta aos fãs.

Coisas que eu acho que acho:

- O distanciamento entre as duas entidades não é bom para ninguém. Nem para os fãs nem para os circuitos. Mas, em quase todos os casos, a WTA foi a maior prejudicada porque, apesar de dona de receitas milionárias, ainda não consegue entregar funcionalidades básicas aos fãs.

- Os três itens acima são só alguns exemplos de como o tênis, em geral, sai perdendo quando dois órgãos tomam direções diferentes. E se considerarmos que o tênis já confunde o bastante por ser tão descentralizado (ITF, ATP, WTA, e Grand Slams - cada entidade tem poderes próprios e usa regras específicas em seus eventos), fica bem difícil explicar o esporte para o grande público.

- Como se não bastasse tudo isso, a Copa Hopman, evento entre países com homens e mulheres no time, teve sua última edição em 2019. Em 2020, a Tennis Australia, que vinha organizando o evento, usou a data para encaixar a ATP Cup, torneio entre países com apenas homens competindo. Não se sabe, na prática, se a Hopman voltará a ser disputada.

- Nada do que foi comentado aqui tem a ver com homens x mulheres, mas com a eficiência de duas entidades que empregam homens e mulheres. Logo, poupem-se do papo de machismo. E lembrem que o CEO da WTA é um cidadão chamado Steve Simon. Homem.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.