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Revelação de André Sá joga luz sobre decisão de Federer e preocupa

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Imagem: Getty Images
Alexandre Cossenza

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais. Contato: ac@cossenza.org

Colunista do UOL

08/01/2021 04h00

Há pouco mais de uma semana, Roger Federer disse que não jogaria o Australian Open. Naquele dia, seu empresário, Tony Godsick, enviou um comunicado lembrando que o tenista havia feito progresso na recuperação de uma lesão no joelho que exigiu duas cirurgias. "Porém, após consultar sua equipe, ele decidiu que a melhor opção a longo prazo é voltar ao tênis competitivo após o Australian Open."

Era uma declaração que dava a entender que Roger não estaria fisicamente pronto para disputar o primeiro slam de 2021, jogado em quadras duras, em melhor de cinco sets. No entanto, em entrevista ao Bandsports, o ex-tenista André Sá, que hoje trabalha para a Tennis Australia (federação do país e organizadora do Australian Open), deu uma versão diferente e, por que não, preocupante para a ausência de Federer no torneio. Veja abaixo.

Sá fala sobre Federer

Band Sports

"Ele tinha duas opções. Ele poderia vir com toda a família e fazer a quarentena. O problema é que a Mirka e os filhos não iam poder sair do quarto. Teriam que ficar 14 dias dentro do quarto. Essa exceção [que permite sair do hotel durante os 14 dias de quarentena obrigatória] é só para jogador. Ele poderia sair, treinar e voltar, mas a família não ia poder, então a Mirka não aprovou a ideia. E na outra opção ele teria que vir sozinho, só que aí seriam cinco semanas, no mínimo, longe da família e dos filhos, e ele falou 'Cara... [estou com] 39 anos, quatro filhos, 20 slams. Não estou na época de ficar cinco semanas longe da família' ", disse André Sá no programa Ace.

E aí a coisa muda de figura completamente. Até ajuda a entender por que Godsick soltou um comunicado citando a lesão no joelho e citando consulta à "equipe", não mencionando especificamente a palavra "família".

O argumento dado por Federer a Sá tem todo sentido. E se você, leitor, tem seus vinte e poucos anos, o tempo lhe vai mostrar o quanto a visão de vida, as metas profissionais e suas opiniões em geral vão mudar com o passar dos anos. No caso de um atleta profissional, que precisa lidar com viagens, hotéis, treinos, jogos, imprensa e toda essa rotina que se repete mais do que roteiros de Dan Brown para Robert Langdon, um certo nível de exaustão é inevitável.

Ter a família por perto ajuda muito, e quem pode se dar esse luxo deve aproveitar. Federer, aos 39, realmente não precisa se submeter a certo tipo de situação. É como aquele amigo nosso que mochilava de ônibus na adolescência e agora, com emprego fixo e bem de vida, quer viajar de avião, despachar mala e dormir numa cama de hotel decente - de preferência, acompanhado.

O elemento preocupante da história toda - e talvez por isso Godsick tenha deixado de citar a família - é a mensagem que isso escancara. Para quem tinha dúvidas, fica mais óbvio do que nunca que Federer vai sempre priorizar sua família e competir menos até o fim de seus dias como tenista profissional. Não falta muito mesmo para a aposentadoria.

Coisa que eu acho que acho:

- Mesmo com o cenário agora diferente - e mais claro após a entrevista de Sá - mantenho a opinião de que Federer não vai deixar o circuito sem uma espécie de tour de despedida por seus torneios preferidos. Isso incluiria mais uma passagem por Melbourne e significaria que a aposentadoria não vem em 2021.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.