PUBLICIDADE
Topo

Os 20 slams de Nadal significam muito mais que os 20 de Federer

Getty Images
Imagem: Getty Images
Alexandre Cossenza

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais. Contato: ac@cossenza.org

Colunista do UOL

12/10/2020 03h59

Não é questão de usar o número de títulos como parâmetro para dizer quem é, foi ou será maior. O recorde de slams é apenas um dos parâmetros que podem ser usados para alimentar a discussão sobre o maior da história - ou simplesmente o mais especial da dupla Fedal. No entanto, é preciso constatar que, ao avaliar tudo que Rafael Nadal conquistou e o quanto evoluiu desde que venceu Roland Garros pela primeira vez, lá no longínquo ano de 2005, seus 20 títulos de slam em simples são mais significantes que os 20 de Roger Federer.

O maior mérito de Rafa já seria simples de analisar em uma comparação puramente estatística: o espanhol jogou 60 slams na carreira, enquanto o suíço soma 79 torneios deste nível no currículo. Federer venceu 25,31% deles, enquanto Nadal soma 33,33% de aproveitamento. Rafa superaria Roger também em um "aproveitamento ajustado" que considerasse os slams que o suíço disputou até a temporada em que completou 34 anos - idade do espanhol hoje. Federer terminou 2015 com 25,75% de títulos.

Estatisticamente, Nadal supera até o grande australiano Rod Laver, único tenista da história a conquistar o Grand Slam (os quatro slams na mesma temporada) duas vezes. Laver, que foi proibido de jogar slams de 1963 a 1968, quando tenistas profissionais eram banidos dos maiores torneios, conquistou 11 títulos em 40 competições. Seu aproveitamento é de 27,5%. Os 33,33% de Rafa significam que a cada três slams disputados, um troféu vai parar em suas mãos. Um assombro para quem viveu e competiu em uma geração com Federer e Djokovic - além de Andy Murray e outros grandes que venceram menos justamente por serem contemporâneos de um trio de excepcionais.

Aproveitamento em slams - Alexandre Cossenza - Alexandre Cossenza
Imagem: Alexandre Cossenza

A comparação, contudo, não pode ficar na frieza dos números, e a grandeza de Rafa Nadal só fica mais evidente quando a estatística é colocada em contexto. É preciso entender, afinal, por que o Rei do Saibro jogou "apenas" 60 slams, contra 62 de Novak Djokovic (que venceu 27,41% do que disputou) e 79 de Federer. A diferença de idade para o suíço de 39 anos explica apenas parcialmente a diferença. O importante mesmo é lembrar que Nadal deixou de estar em vários slams por acusa de uma série de lesões e, pior ainda, sofreu lesões durante um punhado de torneios.

As ausências por lesão aconteceram no Australian Open em 2006 e 2013, em Wimbledon em 2009 e 2016, e no US Open em 2012 e 2014 (Nadal também ficou fora do US Open pandêmico deste ano). Além disso, o espanhol se lesionou durante o Australian Open em 2010, 2011, 2014 e 2018; jogou Roland Garros lesionado em 2009 e abandonou o torneio francês em 2016; e sofreu uma lesão durante o US Open de 2018. Tantos problemas físicos, se levados em conta, só aumentariam o aproveitamento já excepcional de Rafa.

A análise, porém, precisa ir mais longe. É necessário encaixar nessa equação a incrível capacidade de Nadal de se recuperar de problemas físicos e voltar a atuar em nível superior ao de seus maiores rivais. Em 2012, por exemplo, uma questão séria no joelho esquerdo fez Rafa encerrar a temporada ainda em junho. O retorno aconteceu só em fevereiro de 2013, e o espanhol foi campeão já de seu segundo torneio, em São Paulo. Depois disso, foi campeão em Acapulco e Indian Wells, vice em Monte Carlo e campeão em Barcelona, Madri, Roma e Roland Garros. Nadal ainda venceu Canadá, Cincinnati e o US Open, completando uma temporada espetacular na liderança do ranking. Em 2016, Rafa enfrentou um problema no punho e teve um segundo semestre modesto - apesar da medalha de ouro olímpica nas duplas. Em 2017, o voltou em alto nível. Foi vice na Austrália e campeão em Roland Garros e no US Open. Ele também terminou aquela temporada como #1 do mundo.

É claro que o domínio em Roland Garros tem peso fundamental nesse aproveitamento. Dos 20 slams, 13 foram conquistados no saibro francês. Não há por que, contudo, os números no saibro serem vistos como algo que distorce a estatística ou tira mérito de sua porcentagem geral. Na história, todos grandes tenistas tiveram aproveitamento melhor em um evento. Federer venceu Wimbledon oito vezes. Djokovic conquistou Melbourne oito vezes. Que o domínio de Rafa em Roland Garros seja maior que o de seus rivais em outros torneios... apenas aumenta os méritos do espanhol.

E não esqueçamos. Não é como se Rafa tivesse apenas boas campanhas na terra batida. Além de tetracampeão do US Open, o atual número 2 do mundo fez cinco finais em Wimbledon (é bicampeão) e mais cinco em Melbourne (campeão em 2009). Tudo isso encarando os outros dois maiores campeões de slam da história. Tudo isso apesar de insistentes lesões. Com tudo isso, alcançar os 20 foi muito mais difícil para Rafa.

Outras marcas impressionantes

- Nadal foi o quinto tenista da história a conquistar 20 títulos de slam em simples. O top 5 tem a australiana Margaret Court, com 24, na liderança, à frente de Serena Williams (23), Steffi Graf (22) e Roger Federer (20).

- No domingo, Nadal venceu sua centésima partida em Roland Garros. Ele é o único com essa marca no torneio. O segundo maior vencedor de partidas na história do slam do saibro é Djokovic, com 74 (e um título). Levando em consideração todos slams, apenas mais quatro tenistas têm mais de 100 vitórias em um torneio: Evert (101 no US Open), Federer (102 no Australian Open e 101 em Wimbledon), Navratilova (120 em Wimbledon) e Serena (106 no US Open).

- Na Era Aberta do tênis (a partir de 1968), Nadal é o homem com maior intervalo entre o primeiro slam e o mais recente: são mais de 15 anos entre Roland Garros/2005 e o título deste domingo.

- Rafa é agora, de forma isolada, quem mais conquistou slams em simples na Era Aberta após os 30 anos. Ele tem seis títulos - um a mais que Djokovic.

- Nadal é agora o único tenista da Era Aberta com 13 títulos em um só torneio. Ele dividia a marca com Martina Navratilova, que foi campeã 12 vezes em Chicago (entre 1978 e 1992).

- Nadal também é o primeiro homem na Era Aberta a conquistar quatro títulos de slam em simples sem perder um set. Ele fez isso em 2008, 2010, 2017 - também em Roland Garros.

- Nadal tem 125 vitórias e duas derrotas na carreira em partidas disputadas no saibro em melhor de cinco sets.

- Nadal agora tem 999 vitórias de nível ATP na carreira. Onde será a milésima?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.