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A história de Teliana é também a história de um mundo melhor

Cristiano Andujar
Imagem: Cristiano Andujar
Alexandre Cossenza

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais. Contato: ac@cossenza.org

Colunista do UOL

29/09/2020 04h00

Esse relato começa com um roteiro tão comum quanto sofrido. Um boia-fria que fez o êxodo saindo do sertão nordestino em busca de condições melhores de vida no sul do país. Um cidadão que deixou sua terra não para roubar o emprego de ninguém. Apenas para criar uma família em condições dignas.

Essa é a história do seu José Pereira, mas também é a história mais bacana de um tenista brasileiro desde o verão europeu de 1997. É a história de um imigrante que foi acolhido por outro imigrante - o francês Didier Rayon, que empregou seu José em uma academia de tênis em Curitiba - que também estabeleceu as bases para fazer da filha daquele nordestino a maior tenista brasileira dos últimos 30 anos. E a história de Teliana Pereira, caros leitores, é também a história de um mundo melhor.

Teliana - Cristiano Andujar - Cristiano Andujar
Imagem: Cristiano Andujar
Teliana, menina de uma família de sete filhos, teve uma chance, e isso já é mais do que a imensa maioria de meninas nordestinas deste país. E essa nordestina-curitibana aproveitou o que a vida lhe deu. Passou dias inteiros em quadra. Riu, chorou, venceu, sofreu. Teve uma lesão séria que interrompeu sua carreira. Sofreu com plano de saúde. Fez fisioterapia de manhã, de tarde e de noite. Gastou todo dinheiro que tinha no tratamento e perdeu patrocinadores porque não podia viajar.

Só que essa guerreira nordestina, mais guerreira e mais nordestina do que qualquer clichê de textão tosco de rede social, não desistiu. Fez rifa e vaquinha para conseguir voltar a viajar e competir. Os resultados, eventualmente, apareceram. Os patrocinadores voltaram. Esta, caros leitores, é a história de uma menina que viu as luzes de seu futuro se apagarem, mas esfregou os gravetos que tinha por perto e fez luz por conta própria.

Teliana e Serena - Getty Images - Getty Images
Imagem: Getty Images
Teliana não teve técnico estrangeiro de grife nem frequentou CT na Flórida. Tampouco teve uma ex-atleta para lhe mostrar caminhos. Quiseram forçá-la a morar em Santa Catarina. Ela dispensou. Trilhou sua própria rota e seguiu adiante com o irmão, Renato, quase sempre esquecido nas listas de melhores treinadores do país. Treinava e administrava um joelho que nunca se sabia o quanto resistiria.

Nossa nordestina tampouco tinha golpes vistosos ou dominantes. Ainda assim, ousou brigar com as grandes. Entrou no top 100, jogou os quatro maiores torneios do planeta, encarou Serena Williams em Roland Garros, venceu dois WTAs onde dava - Bogotá e Florianópolis - e ficou entre as 50 primeiras do ranking. Personificou Davi contra Golias diante das lentes do mundo moderno.

Aos 32 anos, Teliana Pereira oficializou o fim de seus dias como tenista profissional nesta segunda-feira, 28 de setembro de 2020, em entrevista ao podcast Match Point, do jornalista Thiago Quintella. Agora resta a nós passar adiante esse relato. É a história de um imigrante que, num mundo cada vez mais xenófobo e cheio de fronteiras invisíveis, foi bem recebido - e, vejam que maravilha, por outro imigrante! É a história de uma nordestina que, num mundo em que tantos nascem com seus destinos selados, ganhou uma chance. É a história do pequeno que abraçou e espremeu essa chance para conquistar algo grande e chegar a um lugar melhor.

A história de Teliana, repito, é a história de um mundo melhor.

Coisas que eu acho que acho:

- Teliana foi nosso Rocky, socando vacas e escalando montanhas metafóricas na raça (favor ler ao som de Hearts on Fire) para lutar contra adversárias mais ricas, mais fortes e mais privilegiadas. E, assim como o boxeador das telonas, Teliana subiu, passo a passo, os degraus do tênis. Sorte de quem viu, seguiu e, de algum modo, se sentiu no topo daquela escadaria junto com ela.

- Parabéns ao Quintella não só pela notícia em primeira mão, mas por dar a devida importância aos feitos e à carreira da Teliana. Não é fácil fazer o que ele faz diante de fogo amigo (sei bem do que falo). Tem muito mérito.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.