PUBLICIDADE
Topo

Nada veio fácil para Dominic Thiem

Getty Images
Imagem: Getty Images
Alexandre Cossenza

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais. Contato: ac@cossenza.org

Colunista do UOL

14/09/2020 04h00

Nada veio fácil para Dominic Thiem. O garoto austríaco que "apareceu" para o mundo quando precisava jogar todas semanas do calendário para adquirir ritmo de jogo teve de dar muitos passos para chegar ao título do US Open, que veio neste domingo, em uma virada histórica (a primeira da Era Aberta) sobre Alexander Zverev.

Primeiro, o austríaco, hoje com 27 anos e número 3 do mundo, precisou evoluir fora do saibro, ajustando as armas de seu jogo para os pisos mais rápidos. Ao fim de 2016, já tinha títulos na grama e no piso sintético. Depois, Dominic precisou aprender a maneirar no calendário. Era necessário manter o nível competitivo sem precisar jogar em todas semanas. Algo demorado, mas que aconteceu gradativamente (ainda que Thiem tenha jogado mais partidas do que qualquer outro tenista de elite durante os cinco meses de circuito parado).

Faltava, ainda, ganhar um torneio maior. Derrubar um gigante no momento mais importante. Essa conquista veio em 2019, no Masters 1000 de Indian Wells, com uma virada sobre Roger Federer na decisão. Um jogo que esteve muito perto de terminar com vitória do suíço, mas que foi para o lado de quem brilhou mais nos pontos importantes: o austríaco. Um triunfo no piso duro, de virada, num Masters e sobre Federer.

Só restava um passo: um slam. Veio a final de Roland Garros naquele mesmo ano, mas Nadal saiu por cima. No ano seguinte, Rafa também bateu o austríaco na decisão em Paris. A terceira chance apareceu em Melbourne, este ano. Thiem havia enfim derrubado Nadal num slam, mostrando-se um atleta ainda superior àquele que fez um jogaço contra o mesmo Rafa no US Open de 2018. Parou, porém, em Djokovic, depois de ter 2 sets a 1 de frente na final.

Neste domingo, na final do US Open de 2020, Thiem era o pacote completo. Tinha os golpes e a experiência. Era, finalmente o favorito. Era "só" executar. Dominic, entretanto, nunca foi implacável ou impiedoso (ou consistente) como os três grandes. Jamais venceu torneios grandes em sequência (conquistou dois ATPs 250 seguidos em 2015 e nada mais). Talvez fosse injusto esperar do austríaco uma atuação irretocável em um duelo de tamanha importância.

Não, nada veio fácil para Dominic Thiem. Como ele mesmo avaliou após o jogo, sua carreira sempre teve altos e baixos. A final deste US Open não foi diferente. Começou com nervos e erros. Terminou depois de muita dor, chances perdidas, nervosismo e hesitação. Terminou com coragem, usando slices para suportar a dor na perna direita, mas soltando o braço quando podia no forehand. Terminou com muita força mental para virar um jogo quase perdido.

Zverev teve 2-0 e uma quebra de vantagem. Zverev sacou em 5/3 no quinto set. Zverev teve 15/30 no saque do austríaco no 4/5 da parcial decisiva. Zverev teve um mini-break de vantagem no tie-break. Tantos momentos duros para superar contra um adversário mais do que competente. Não, o primeiro título de slam não caiu do céu. Foi preciso ir às nuvens buscá-lo.

Não foi um jogo de brilho tático ou grandes ajustes por parte de Thiem. Ele tentou pouco de diferente nas devoluções, mesmo diante do instável saque do alemão; insistiu em slices que não lhe deram grande vantagem (além disso, raramente fez Zverev devolver slices com forehands inside-out); e não tentou jogar mais perto da linha de base ou usar mais variações. A vitória veio quase que na marra, na insistência por "apenas" melhorar a execução de - em vez de modificar - seu plano de jogo.

Para vencer o primeiro slam, o jovem de 27 anos precisou ser o primeiro homem desde 1949 a vencer uma final de US Open após estar perdendo por 2 sets a 0. Precisou quebrar uma sequência de 63 slams vencidos por tenistas nascidos nos anos 1980. Demorou, mas hoje ele é o primeiro atleta da geração pós-Big Three (Federer, Nadal e Djokovic) a conquistar um dos quatro maiores torneios do circuito. Não, nada veio fácil para Dominic Thiem.

Coisas que eu acho que acho:

- Quebrar a barreira, tirar essa bigorna dos ombros e agregar o rótulo de "campeão de slam" afetará a confiança de Thiem em futuros torneios? Difícil dizer como será sua postura contra o Big 3 em slams, com tanto em jogo, em melhor de cinco sets. Ele já mostrou que pode superar qualquer um, mas ainda não o fez em decisões. Roland Garros talvez traga essa resposta.

- Thiem teria conquistado o US Open com Nadal e Federer na chave? E se Djokovic não tivesse acertado aquela bolada na juíza de linha? Perguntas que valem tanto quanto "Federer teria vencido Roland Garros/09 se Nadal não tivesse perdido antes?" ou "Nadal teria mais títulos de slam do que Federer se não tivesse sofrido tantas lesões?" Ou seja, nada. Fanáticos podem especular e nós podemos imaginar todo tipo de cenário num animado papo de bar, mas, no fim das contas, as condicionais não entram nos livros de história.

- A decisão foi nervosa, com mais erros do que winners, como se ambos estivessem tentando fazer cálculo avançado a bordo da motinho do Hagrid em Orlando. Não foi lindo, mas não precisa ser. De certo modo, a final deste domingo confirmou o que escrevi um mês atrás. O US Open de 2020 foi um aperitivo do que podemos esperar no pós-Big-Three. Menos atuações irretocáveis, mais nervos e, quem sabe, tantas emoções quanto.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.